sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Teologia Ascética e Mística: Da luta contra o mundo

O mundo de que neste lugar se trata, não é o conjunto das pessoas que vivem na terra, entre as quais se encontram juntamente almas escolhidas e ímpios. É o complexo daqueles que são oposto a Jesus Cristo e escravos da trípice concupiscência. São pois:
 
1) Os incrédulos, hostis a religião, precisamente porque ela condena o seu orgulho, a sua sensualidade e a sua sede imoderada de riquezas;
 
2) Os indiferentes, que não querem saber duma religião que os obriga a sair de sua indolencia.
 
3) Os pecadores impenitentes, que amam o seu pecado; porque amam o prazer e não querem desembaraçar dele.
 
4) Os mundanos, que crêem e praticam até a religião, mas alidando-o ao amor do prazer, do luxo, do bem-estar, e que por sua vez escandalizam os seus irmãos crentes e incrédulos, fazendo-lhes dizer que a religião tem pouca influência sobre a vida moral. Tal é o mundo que Jesus amaldiçoou por causa de seus escândalos: "Vae mundo a scandalis"(Mat 18,7), e do qual São João disse que estava todo inteiramente mergulhado no mal: " Mundus totus in maligno positus est" (I Jo 5,19).
 
1º Os perigos do mundo: O mundo que penetra até nas famílias cristã e ainda nas comunidades pelas visitas que se fazem ou recebem, pelas correspondências, pelas leituras dos livros e jornais mundanos (poderíamos também acrescentar pelos programas de televião mundanos e pelos vídeos e imagens e textos perversos da internet), é um grande obstáculo à salvação e perfeição; desperta e atiça em nós o fogo da concupiscência: seduz-nos e aterra-nos.
 
Seduz-nos pelas suas máximas, pelo estadear das suas vaidades, pelos seus exemplos perversos.
 
a) pelas suas máximas, que estão em oposição direta com as máximas evangélicas. E com efeito o mundo elogia a felicidade dos ricos, dos fortes e até dos violentos, dos filhos da fortuna, dos ambiciosos, dos que sabem gozar da vida. Com que eloquência prega o amor do prazer: "Coroemos-nos de rosas antes que elas murchem. "Coronemus nos rosis, antequam marcescant!" Então diz ele, não é um dever sagrado aproveitar a nossa juventude, gozar da vida? Há muitos outros que assim fazem, e Deus que é tão bom,  não pode condenar a toda gente. Ora! é preciso ganhar a vida, e se fôssemos, escrupulosos em questão de negócios, não chegaríamos, nunca a enriquecer.
 
b) Pelo estadeardas suas vaidades e dos seus prazeres: a maior parte das reuniões mundanas não tem por fim mais do que lisonjear a curiosidade, a sensualidade e até mesmo a volúpia. Para tornar o vício atraente, dissimula-se sob forma de divertimentos que se chamam de honestos, mas que não deixam de ser perigosos, como os vestidos decotados, as danças, algumas delas sobretudo que parecem não ter outro fim senão favorescer olhares lascivos e enlances sensuais. E o que dizer da maior parte das representações teatrais, dos espetáculos oferecisdos ao público, dos livros licenciosos que se expões por toda a parte?
 
Os maus exemplos não vem, senão, aumentar o perigo: quando se veem tantos jovens que se divertem, tantas pessoas casadas infiéis aos seus deveres, tantos comerciantes e homens de negócio que enriquecem por meios poucos escrupulosos, é forte a tentação de nos deixarmos arrastar por semelhantes desordens. E depois, o mundo é tão indulgente para com as frquezas humanas, que parece dar-lhes alento: um sedutor, é um homem galante; um financeiro, um comerciante que enriquece por meios pouco honestos, é um homem esperto; um livre pensador, é um homem sem preconceitos, que segue as luzes de sua consciência. Quantos se sentem alentados ao vício por apreciações tõ benigna.


(Fonte: Compêndio de Teologia e Ascética e Mística - AD. Tanquerey - 1961)

31 de Agosto - São Raimundo Nonato, Confessor

São Raimundo Nonato nasceu em Portel, Espanha. Quando São Pedro Nolasco, a 10 de agosto de 1218, dava início à Ordem das Mercês para a redenção dos escravos, com rito solene na Catedral de Barcelona, da qual era cônego o amigo e conselheiro Raimundo de Penafort, entre os fiéis estava também o moço de dezoito anos, Raimundo, chamado Nonato porque foi extraído do corpo da mãe morta no parto. Filho de família pobre, quando menino foi pastor de rebanhos. Vestiu o hábito dos mercedários aos vinte e quatro anos de idade, seguindo o exemplo do fundador, se dedicou à libertação dos escravos da Espanha ocupada pelos mouros e à pregação no meio deles. No ano de 1226 chegou até a Argélia e entregou-se como escravo, a fim de consolar e animar pela fé os prisioneiros e trabalhar pela sua libertação Este gesto parece natural a que chega a caridade heróica de um santo que vive o Evangelho integralmente.

São Raimundo ficou vários meses como refém e submetido a reiteradas e cruéis malvadezas, continuou pregando o Evangelho e seus perseguidores chegaram ao ponto de furarem a ferro quente os seus lábios e os trancaram com um cadeado, para impedir que ele continuasse denunciando as injustiças e proclamando o Evangelho. Foi finalmente resgatado e muito debilitado retornou à Espanha. O Papa Gregório IX quis render-lhe uma homenagem pública por tão grandes virtudes conferindo-lhe em 1239, apenas libertado, a dignidade cardinalícia, convocando-o como conselheiro. Pôs-se em viagem, para atender ao convite do Papa, mas pouco depois uma febre violentíssima o atingiu e morreu em 31 de agosto de 1240 em Cardona, perto de Barcelona. Foi sepultado na Igreja de São Nicolau, que a popular devoção do santo, inserido do Martirológio Romano em 1657 pelo Papa Alexandre VII.

Pela sua difícil vinda à luz do mundo, São Raimundo Nonato é invocado como o patrono e protetor das parturientes e das parteiras.

São Raimundo Nonato socorrei a todas as parturientes e os Recém-nascidos pela graça e amor de Deus.

Fonte: ACI Digital

Sexta-feira da Cruz de Nosso Senhor: Da esperança que devemos ter na morte de Jesus

5. Ele disse que subia aos céus para preparar-nos um lugar: “Não se turbe o vosso coração... porque eu vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,1). Ele disse e continua a dizer a seu Pai que, visto o Pai nos ter dado a ele, nos quer ter consigo no paraíso: “Pai, quero que aqueles que me destes estejam comigo onde eu estou” (Jo 17,24). Que maior misericórdia poderíamos esperar do Senhor, diz S. Anselmo, que o Padre Eterno dizer a um pecador já condenado ao inferno por seus crimes e que não tinha meios de livrar-se do castigo: “Toma o meu Filho e oferece-o por ti” e o Filho acrescentar: “Toma-me e livra-te do inferno” (Cur Deus homo l. 2, c. 20). Ah, meu Pai amoroso, agradeço-vos haver-me dado vosso Filho por meu Salvador, ofereço-vos sua morte e por seus merecimentos vos suplico compaixão. Agradeço-vos sempre, ó meu Redentor, por haverdes dado vosso sangue e vossa vida para livrar-me da morte eterna. Socorrei-nos, pois, a nós, servos rebeldes, os quais com tanto custo remistes. Ó meu Jesus, única esperança minha, vós me amais e porque sois onipotente, fazei-me santo. Se eu sou fraco, dai-me fortaleza, se estou enfermo pelas culpas cometidas, aplicai à minha alma uma gota de vosso sangue e sarai-me. Dai-me o vosso amor e a perseverança final e fazei que eu morra na vossa graça. Dai-me o paraíso. Eu vos amo, ó Deus amabilíssimo, com toda a minha alma, e espero amar-vos sempre: ajudai a um mísero pecador que vos quer amar.

6. “Tendo nós o grande pontífice que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus, conservemos a nossa confissão. Não temos um pontífice que não possa compadecer-se de nossas enfermidades, tendo experimentado todas as tentações, exceto o pecado” (Hb 4,14). já que temos um Salvador que nos abriu o paraíso, que por um certo tempo nos estava fechado pelo pecado, diz o Apóstolo, confiemos sempre nos seus merecimentos, pois ele sabe se compadecer de nós, tendo querido na sua bondade padecer as nossas misérias. “Vamos, pois cheios de confiança, ao trono da graça, para que consigamos misericórdia e encontremos a graça para sermos socorridos oportunamente” (Hb 4,16). Dirijamo-nos, pois, com confiança ao trono da misericórdia, ao qual temos acesso por meio de Jesus Cristo, para que aí encontremos todas as graças de que necessitamos. E como poderemos duvidar, ajunta S. Paulo, que Deus, tendo-nos dado seu Filho, nos tenha dado com ele todos os bens? “Entregou-o por nós todos: como não nos deu com ele todas as coisas?” (Rm 8,32). O cardeal Hugo comenta este passo: Não nos negará o menos, que é a glória eterna, aquele Senhor que chegou a dar-nos o mais, que é o seu próprio Filho.

Ó meu sumo bem, que vos darei por um tal dom que me fizestes de vosso Filho? Dir-vos-ei com Davi: O Senhor retribuirá por mim (Sl 137,8). Senhor, não tenho com que retribuir-vos, vosso próprio Filho é o único que vos poderá agradecer dignamente: ele vos agradece por mim. Pai piedosíssimo, pelas chagas de Jesus, peço-vos que me salveis. Amo-vos, bondade infinita, e, porque vos amo, arrependo-me de vos haver ofendido. Meu Deus, meu Deus, eu quero ser todo vosso; aceitai-me por amor de Jesus Cristo. Ah, meu doce Criador, será possível que, havendo-me dado o vosso Filho, me negueis os vossos bens, a vossa graça, o vosso amor, o vosso paraíso?

V. Senhor, não nos trateis segundo os nossos pecados.
R. Nem nos castigueis segundo as nossas iniquidades.

Para um Bom Católico a sexta-feira é dia de Penitência e dia de meditar sobre a paixão do Senhor!

Para os mundanos dia de ignorar o Senhor em sua Cruz e agonia.
Fonte: A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo - Piedosas e edificantes meditações - sobre os sofrimentos de Jesus - Por Sto. Afonso Maria de Ligõrio - Traduzidas pelo Pe. José Lopes Ferreira, C.Ss.R. - VOLUME I
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Santo Ofício: Quem possui o número correto de livros na Bíblia? (Parte I)

Autor: Vivator
Fonte:
http://vivacatholic.wordpress.com/

Os cristãos não possuem o mesmo número de livros em suas Bíblias, especialmente no que tange ao Antigo Testamento. Os protestantes possuem 39 livros em seu Antigo Testamento, que corresponde (embora em uma ordem e agrupamento diferentes) aos 24 livros da Escritura judaica ou Tanakh[1]. O Antigo Testamento católico possui 7 livros a mais: Judite, Tobias, 1 e 2Macabeus, Baruc (incluindo a Carta de Jeremias), Sabedoria e Sirácida (ou Eclesiástico), além de alguns capítulos adicionais em Ester e Daniel (Prece de Azarias, Cântico dos Três Jovens, Susana, Bel e o Dragão). O Antigo Testamento dos ortodoxos orientais, traduzido a partir da LXX[2], inclui todos esses livros e ainda o Salmo 151, 3Macbeus e 1Esdras[3]. [O Antigo Testamento] da Igreja Ortodoxa Etíope possui [ainda] Enoc, Jubileus e vários outros livros[4]; e seu Novo Testamento possui mais livros que os 27 existentes no Novo Testamento católico, ortodoxo-oriental e protestante.

Incompreensivelmente, os protestantes (e os cristãos do “apenas a Bíblia”) tentam com dificuldades provar que a sua Bíblia possui o número correto de livros, ou seja, o cânon (lista de livros inspirados [por Deus]) da Bíblia seria de 66. Segue abaixo as sete razões pelas quais eles geralmente se insurgem contra a inclusão dos livros deuterocanônicos[5] (ou “apócrifos”[6], segundo a sua terminologia) na Bíblia:

1. O Concílio de Trento acrescentou esses livros [apenas] no século XVI.
2. Nós deveríamos confiar nos judeus para determinar quais livros pertencem ao Antigo Testamento, já que eles manifestavam os oráculos de Deus (cf. Romanos 3,2).
3. O Novo Testamento nunca cita os livros apócrifos.
4. Nenhum dos livros apócrifos reclama para si inspiração.
5. Os livros apócrifos foram escritos após a morte dos últimos profetas de Israel.
6. Cristo aprovou os livros que pertenciam à Escritura judaica (igual ao Antigo Testamento protestante) quando disse, em Lucas 11:51, “do sangue de Abel ao sangue de Zacarias”

7. Os livros apócrifos não podem ser inspirados porque contêm muitos erros e contradições em relação aos 66 livros da Bíblia protestante.
[Apreciemos cada uma delas:]

1. O CONCÍLIO DE TRENTO ACRESCENTOU ESSES LIVROS [APENAS] NO SÉCULO XVI

Antes que alguém pudesse acusar o Concílio de Trento (ou qualquer outro Concílio) de acrescentar esses livros [ao cânon], deveria primeiro responder a esta pergunta: como sabemos que existem apenas 39 livros no Antigo Testamento e 27 livros no Novo Testamento? Não há um só versículo na Bíblia inteira, quer na católica, quer na ortodoxa-oriental, quer na ortodoxa-etíope, quer na protestante, que aponte quais livros pertencem à Bíblia. Isto constitui um sério problema para os cristãos protestantes e do “apenas a Bíblia” que declaram que a sua Bíblia é a única e maior autoridade. Inexplicavelmente para eles, o número de livros da sua Bíblia depende da declaração de fé das suas [respectivas] igrejas, ou de suas pressuposições, ou dos seus concílios eclesiásticos, ou – talvez – “porque o meu pastor me disse isso”. Em outras palavras: eles dependem de uma autoridade extrabíblica para determinar quais livros pertencem à Bíblia; e então eles transformam a Bíblia, com apenas esses livros predeterminados, em sua única e maior autoridade. Mas isso deveria implicar que não temos autoridade extrabíblica para determinar quais livros pertencem à Bíblia! Eis um argumento em círculo, autocontraditório! E os católicos? Possuem eles a mesma razão para conhecer quais livros pertencem à Bíblia, isto é, eles foram determinados pela Igreja Católica?

O nascimento da Igreja se deu no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu [sobre os discípulos], como consta registrado no livro dos Atos (2,1-4), o qual não foi escrito nessa época [mas posteriormente]. Nós não sabemos ao certo quando cada livro do Novo Testamento foi escrito. Segundo os estudiosos, o primeiro livro (1Tessalonicenses) foi escrito, talvez, no ano 50 ou 51 d.C.; o primeiro Evangelho foi escrito depois do ano 70 d.C. Isto significa que a Igreja já existia há duas décadas quando o primeiro livro do Novo Testamento foi escrito; cerca de quatro décadas quando o primeiro Evangelho foi escrito; e, como veremos depois, antes de os judeus fecharem o cânon de suas próprias Escrituras [=o Antigo Testamento judaico]!

As palavras de Cristo primeiramente circularam de forma oral e só depois, uma parte foi colocada na forma escrita nos Evangelhos. Assim, pelo Evangelho segundo Mateus, sabemos que Cristo teve a intenção de dar aos seus Apóstolos autoridade sobre a Sua Igreja. Ele conferiu a Pedro (cf. Mateus 16,19) e, depois, aos demais Apóstolos (cf. Mateus 18,18), a autoridade para atar e desatar. Tudo o que eles atassem na terra seria atado no Céu e tudo o que eles desatassem na terra seria desatado no Céu. Em grego, “atado e desatado no Céu” encontra-se no modo (passivo) perfeito, enquanto que “atar e desatar na terra” está no modo (ativo) aorista. Ao contrário do inglês, o modo perfeito no grego indica a continuidade de uma ação passada completa; isto quer dizer que Pedro e os Apóstolos atarão ou desatarão aquilo que já foi atado ou desatado no Céu, por Deus obviamente – e não o inverso, como alguns poderiam pensar.

Os católicos creem que os Apóstolos transmitiram a mesma autoridade para os seus sucessores, os bispos; a isto, chamam de ‘sucessão apostólica’. Tanto as Igrejas Católica (no Ocidente) quanto a Ortodoxa (no Oriente) sustentam a sucessão apostólica. A sucessão apostólica pertence ao que é chamado de ‘Tradição’ (com ‘T’ maiúsculo); você não a encontrará na Bíblia. Mas nós sabemos que Cristo prometeu aos seus Apóstolos que estaria com eles até o fim dos tempos (cf. Mateus 28,20); que enviaria o Espírito Santo para estar com eles para sempre (João 14,16), para ensinar-lhes todas as coisas e relembrar-lhes tudo o que Ele havia dito a eles (João 14,26); e que as portas do Hades não prevaleceriam contra a sua Igreja (Mateus 16,18). O Novo Testamento não diz em parte alguma que estas divinas promessas seriam válidas apenas para os primeiros 300 anos [da Igreja], isto é, até o imperador romano Constantino, em 313 d.C., legalizar o Cristianismo; ou para os primeiros 15 séculos [da Igreja], ou seja, até a Reforma [Protestante]. Possuindo a mesma autoridade, o Papa e os bispos (em união com ele) possuem o poder para atar e desatar, e tudo o que eles atam ou desatam não nos vem a partir deles, mas já foi atado ou desatado no céu. Não surpreende então que Paulo tenha se referido à Igreja como a coluna e o fundamento da verdade (cf. 1Timóteo 3,15); e certamente ele não estava escrevendo sobre a igreja (ou igrejas) que somente viriam a existir no século XVI e posteriores. Esta é a razão pela qual os católicos creem que a Igreja com origem apostólica tem o poder para determinar quais livros pertencem à Bíblia. A Igreja não está acima da Bíblia, mas é guiada pelo Espírito Santo prometido pelo próprio Cristo.

Por que demoraria 16 séculos para [a Igreja] promulgar o cânon (=lista dos livros inspirados) da Bíblia? O mesmíssimo cânon foi declarado pelo Concílio Provincial de Hipona, no norte da África, em 393 d.C. e reafirmado pelos Concílios de Cartago, também no norte da África, em 397 e 419 d.C. Os cristãos dos três primeiros séculos ainda não tinham fechado o cânon, pois eles ainda não concordavam entre si sobre quais livros pertenceriam à Bíblia, quer do Antigo, quer do Novo Testamento. Os então denominados “livros disputados” do Antigo Testamento eram Ester e os livros deuterocanônicos; e, no Novo Testamento, eram Hebreus, Tiago, Judas, 2Pedro, 2João, 3João e Apocalipse. A mais antiga lista contendo os mesmos 27 livros que constam atualmente no Novo Testamento católico, ortodoxo-oriental e protestante é de 367 d.C.[7]. A lista dos livros do Antigo Testamento que concorda com a Bíblia católica é de 382 d.C.[8], enquanto que uma [lista pessoal] que concorda com o Antigo Testamento protestante é de 391 d.C.[9]. O Concílio de Trento, em 1546, foi o Concílio Ecumênico que explicitamente promulgou a canonicidade dos 73 livros da Bíblia Católica, embora a mesmíssima lista de livros do Antigo Testamento conste do Concílio Ecumênico de Basileia-Ferrara-Florença-Roma (cf. Sessão XI, de 04.02.1442). A Igreja Ortodoxa Oriental declarou o cânon da sua Bíblia no Sínodo de Jerusalém, em 1672. No caso dos protestantes, a Igreja Reformada, pelo artigo 4º da Confissão Belga, de 1561 e o capítulo 1 da Confissão de Fé de Westminster, em 1647, declarou a canonicidade dos 66 livros de sua Bíblia.

2. NÓS DEVERÍAMOS CONFIAR NOS JUDEUS PARA DETERMINAR QUAIS LIVROS PERTENCEM AO ANTIGO TESTAMENTO, JÁ QUE ELES MANIFESTAVAM OS ORÁCULOS DE DEUS (CF. ROMANOS 3,2)


Concílio de Nicéia
Quando os judeus fecharam o cânon de suas Escrituras, isto é, o Antigo Testamento? Os protestantes e os cristãos do “apenas a Bíblia” deveriam afirmar que foi antes da vinda de Cristo, já que isto concordaria com a sua alegação baseada em Romanos 3,2. Infelizmente, tal afirmação não é apoiada nem pela Bíblia, nem por fontes judaicas confiáveis. Se o cânon da Escritura judaica tivesse sido fechado antes da vinda de Cristo, poderíamos esperar que tanto Ele quanto os seus Apóstolos citassem apenas a partir desse cânon fechado; mas esse não é o caso, como veremos posteriormente. Segundo a “Enciclopédia Judaica”, a terceira parte da Escritura judaica (‘Ketuvim’ ou ‘Os Escritos’) foi fechada no século II depois de Cristo[10]. O Eclesiástico (ou Sirácida) foi citado como Escritura pelo Talmude judaico[11], composto após o séc. II d.C.

E sobre o Concílio de Jâmnia (ou Javneh), que supostamente no ano 90 d.C. fechou o cânon da Escritura judaica? A hipótese do Concílio de Jâmnia foi criada com base na Misná judaica, que simplesmente discute o status canônico de Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Todas as fontes acima mencionadas indicam que o cânon judaico foi fechado após a crucificação de Cristo. Os cristãos não estão obrigados a seguir a decisão judaica obtida após a crucificação de Cristo, já que Ele nos disse, através da sua parábola dos vinhateiros arrendatários (cf. Mateus 21,33-41), que a vinha seria entregue a outros arrendatários (versículo 41).

Observe então que a existência de Escrituras ou até mesmo de toda a Escritura (2Timóteo 3,16) na época de Cristo e na Era Apostólica não implica automaticamente na existência de um cânon fechado. Daniel lê Jeremias como Escritura no ano 1 do reinado de Dario, o meda, antes dos profetas Ageu e Zacarias receberem e escreverem as palavras do Senhor no ano 2 do reinado de Dario.

3. O NOVO TESTAMENTO NUNCA CITA OS LIVROS APÓCRIFOS

Se ser citado pelo Novo Testamento é requisito para figurar no cânon, então [devemos observar que] o Novo Testamento também não cita Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. E o Novo Testamento também faz citações externas ao Antigo Testamento, seja católico, seja protestante. [São] Jerônimo chegou a ver o manuscrito de uma obra apócrifa (atualmente perdida), atribuída a Jeremias, que possuía as exatas palavras citadas por Mateus 27,9[12]. O que Paulo escreve em 1Coríntios 2,9, precedido pela frase “está escrito”, não concorda exatamente com Isaías 64,4; segundo o “Ambrosiaster”[13], escrito por volta do século IV d.C., trata-se de uma citação do apocalipse apócrifo de Elias. Paulo escreveu, em 1Coríntios 10,4, sobre a rocha espiritual que seguia os israelitas durante o Êxodo; e cita também, em 2Timóteo 3,8 o nome de dois magos que se opuseram a Moisés; ambos os casos não constam do livro do Êxodo. Em 2Pedro 2,22, [a expressão de] Provérbios 26,11 é colocada em paralelo com um provérbio extrabíblico. Judas 1,9 cita a partir [do livro] da Ascensão de Moisés[14] e Judas 1,14-16 cita a partir de 1Enoque 1,9.

A resposta-padrão [que os protestantes dão] para as citações não-escriturísticas acima apontadas é que elas não são indicadas como Escritura, tal como a citação retirada do poeta cretense Epimênides, em Atos 17:28 e Tito 1,12. Porém, as citações feitas a partir de obras não-judaicas eram obviamente não-escriturísticas para os judeus (apesar de, como veremos posteriormente, a Palavra de Deus poder vir através de não-judeus); porém, 1Enoque é citado da mesma maneira que Mateus 15,7-9 cita Isaías 29,13 (a partir da LXX).
Também encontramos citações retiradas [de fontes] escriturísticas desconhecidas em João 7,38 e Tiago 4,5; em ambos os casos, as citações são precedidas pela frase “a Escritura diz”.
Conclusão: ser citado pelo Novo Testamento não é critério de canonicidade, do mesmo modo que não ser citado pelo Novo Testamento não é critério para a não-canonicidade.

NOTAS: [1] É o acrônimo de Torah (a Lei; ou, em grego, Pentateuco), Nevim (os Profetas) e Ketuvim (os Escritos; ou, em grego, Hagiógrafos ou Escritos Sagrados).
[2] LXX ou Septuaginta é a coleção dos livros do Antigo Testamento escritos em grego. A maioria das citações do Novo Testamento são retiradas da LXX. O Antigo Testamento católico e protestante são traduzidos a partir do Texto Massorético (em hebraico), mas os livros são agrupados segundo a ordem da LXX.
[3] Conforme listagem na Bíblia de Estudo Ortodoxa; 4Macabeus e a Prece de Manassés constam do Apêndice, segundo a “Orthodox Wiki”.
[4] Cf.
http://ethiopianorthodox.org/english/canonical/books.html .
[5] Livros “deuterocanônicos” e “protocanônicos”, significando “segundo” e “primeiro” cânons, respectivamente, são termos cunhados por Sisto de Siena (1520-1569).
[6] “Apócrifo” significa “oculto”; desde o tempo de S. Jerônimo (+420 d.C.) é normalmente usado para rotular os livros que podem ser encontrados na LXX mas não na Bíblia hebraica.
[7] S. Atanásio, Carta Festal 39.
[8] Papa Dâmaso (+384 d.C.): Decreto Gelasiano.
[9] S. Jerônimo, Prefácios dos Livros do Antigo Testamento da versão Vulgata. Jerônimo incluiu na Vulgata (e fez referência a eles) como livros apócrifos.
[10] Por outro lado, há boa evidência demonstrando que a coleção do Ketuvim, como um todo, assim como certos livros dentro dela, não era aceita até ser finalmente fechada no séc. II d.C.
[11] Conforme a nota acima, a prática de chamar toda a Escritura por “a Lei e os Profetas” pressupõe um lapso considerável de tempo entre a canonização da segunda e terceira partes da Bíblia. O fato de a última divisão não possuiu um nome certo aponta nessa mesma direção. E mesmo a designação finalmente adotada, “Ketuvim”, é indeterminada, visto que é empregada no hebraico rabínico em dois sentidos: para as Escrituras em geral e para trechos de textos em particular.
[12] “Encyclopaedia Judaica”, Volume 4 pág. 824.
[13] [Novamente] Raba disse a Rabbah ben Mari: “Poderia daí provir o ditado popular: ‘Um ramo ruim normalmente fará seu caminho para um bosque de árvores estéreis’?” Ele respondeu: “Esta matéria foi escrita no Pentateuco, repetida nos Profetas, mencionada uma terceira vez nos Hagiógrafos, e também constante na Mishná e ensinada em um Baraita. Foi declarado no Pentateuco, conforme está escrito, que ‘então Esaú veio até Ismael’ [Gênesis 28,9]; repetido nos Profetas, conforme está escrito: ‘E ali homens ociosos se juntaram a Jefté e saíram com ele’ [Juízes 11,3]; e mencionado uma terceira vez nos Hagiógrafos, conforme está escrito: ‘Cada ave habita perto de sua espécie e [cada] homem perto de sua igual’ [Eclesiástico 13,15]“.
[14] Talmude Babilônio, Seder Nazikin, Baba Kamma 92b
.


Fonte: Blog Bíblia Católica Online

30 de Agosto - Santa Rosa de Lima, Virgem

Isabel Flores y de Oliva nasceu na cidade de Lima, capital do Peru, no dia 20 de abril de 1586. A décima dos treze filhos de Gaspar Flores e Maria de Oliva. À medida que crescia com o rosto rosado e belo, recebeu dos familiares o apelido de Rosa, como ficou conhecida. Seus pais eram ricos espanhóis que se haviam mudado para a próspera colônia do Peru, mas os negócios declinaram e eles ficaram na miséria.

Ainda criança, Rosa teve grande inclinação à oração e à meditação, sendo dotada de dons especiais de profecia. Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Apesar dos apelos da família, que contava com sua ajuda para o sustento, ela ingressou na Ordem Terceira Dominicana, tomando como exemplo de vida santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. E, para perder a vaidade, cortou os cabelos e engrossou as mãos, trabalhando na lavoura com os pais.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana. Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. A partir do hábito, ela imprimiu ainda mais rigor às penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a eucaristia. Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus.

Rosa cumpriu sua vocação, devotando-se à eucaristia e à Virgem Maria, cuidando para afastar o pecado do seu coração, conforme a espiritualidade da época. Aos trinta e um anos de idade, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos. Assim, retirou-se para a casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, agora Mosteiro de Santa Rosa, para cumprir a profecia de sua morte. Todo ano, ela passava o Dia de São Bartolomeu em oração, pois, dizia: "este é o dia das minhas núpcias eternas". E assim foi, até morrer no dia 24 de agosto de 1617. O seu sepultamento parou toda a cidade de Lima.


Muitos milagres aconteceram por sua intercessão após sua morte. Rosa foi beatificada em 1667 e tornou-se a primeira santa da América Latina ao ser canonizada, em 1671, pelo papa Clemente X. Dois anos depois, foi proclamada Padroeira da América Latina, das Filipinas e das Índias Orientais, com a festa litúrgica marcada para o dia 23 de agosto. A devoção a santa Rosa de Lima propagou-se rapidamente nos países latino-americanos, sendo venerada pelos fiéis como Padroeira dos Jardineiros e dos Floristas.


Fonte: Paulinas

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Catecismo Romano: Da parte dos sacramentos (Parte IV)

Os sete sacramentos
Motivos para instituir os sacramentos:

 a) Fraqueza do espírito humano: Ora, para se ensinar a maneira de se fazer bom uso dos sacramentos, o meio mais eficaz é expor cuidadosamente as razões determinantes para sua instituição.

Entre as muitas que se costumam alegar, a primeira é a natural fraqueza do espírito humano. Consta por experiência, ser ele tão limitado, que o homem não pode chegar ao conhecimento de coisas puramente intelectuais, senõ por intermédio de percepções sensíveis. Assim como o intuíto de nos facilitar a compreenção das coisas indivisíveis de sua ominipotência, quis o Supremo Criador de todas as coisas, em sua infinita sabedoria, manifestar essa oculta virtude (dos sacramentos), por meio de sinais sensíveis, que fossem também uma prova de amor para conosco. (Rom 1,20)

São João Crisóstomo diz com toda a clareza: Se o homem não tivera corpo, os bens espirituais lhes seriam propostos a descoberto, sem nenhum véu que os ocultasse. Mas, desde que a alma se acha unida ao corpo, era de todo o necessário que, para a comprenção daqueles bens, ela se valesse de todos os objetos adaptáveis aos sentidos".

b) Maior confiança nas promessas divinas: A segunda razão é que o nosso espírito difícilmente põe fé nas promessas que nos são feitas. Por isso é que, desde o início do mundo (Gn, 3,15; 9,11 ss; 13, 4 ss), Deus sempre tornava a anunciar seus desígnos por meio de palavras. Mas as vezes, quando decretava alguma obra, cuja a grandeza poderia abalar na confiança em sua promessa, acrescentava as palavras outros sinais, que não raro tinham o caráter de milagres.

Deus enviu por exemplo, Moisés que libertasse o povo de Israel (Exod 3,10). Aquele, porém, sem confiar sequer no auxílio de Deus que assim ordenava, receou que a empresa superasse suas forças, ou que o povo também não desse às decisões e palavras divinas. Então Deus confirmou suas promessas com uma série de vários milagres (Exo 4, 2ss).

Ora, assim Deus o feizera no Antigo Testamento, confirmando com sinais a firmeza de suas promessas: assim também Cristo Nosso Senhor, quando nos prometeu na Nova Lei a remissão dos pecados, a graça santificante, a comunicação do Espírito Santo, instituiu simutâneamente certos sinais sensíveis, nos quais víssemos empenhada a sua palavra, de molde a excluir toda dúvidana realização do prometido.

c) pronta medicação da alma: No dizer de Santo Ambrósio, a terceira razão é que os sacramentos deviam proporcionar, como os remédios do samaritano no Evangelho (Lc 10,33 - 34), uma pronta medicação que nos restituísse, ou conservasse a saúde da alma.

A virtude que dimana da Paixão de Jesus Cristo, isto é, a graça que nos mereceu no altar da Cruz, deve chegar-nos pelos sacramentos, como que uns canais de comunicação. Sem estes meios, não existiria nenhuma esperança de nos salvar.

Levado de grande clemência, Nosso Senhor nos empenhou Sua palavra, e quis deixar a Igreja os sacramentos. De nossa parte, temos a firme obrigação de crer que eles relamente nos comunicam os frutos de sua Paixão, contato que cada um de nós use tais remédios, com a devida fé e piedade.

(Fonte: Catecismo da Igreja Católica - 1962 - Ed. Vozes)
 

29 de Agosto - Degolação de São João Batista




Depois de celebrar a 24 de Junho o alegre nascimento de São João Batista na terra, a Santa Igreja honra hoje seu nascimento no Céu. Depois de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem, é o único santo cujo nascimento e morte se festeja. João o Precursor, que vivera 30 anos no deserto e que lá florescera como a palma, e como o cedro do Líbano se elevou, teve a coragem de repreender Herodes na casa por haver ilegitimamente com Herodíades, esposa de seu irmão Felipe, vivo ainda. Herodias constrangeu o rei Herodes a prendê-lo e aproveitou-se de um incidente inesperado para obter por intermédio de sua filha Salomé a decapitação do santo, que repreendia a sua criminosa paixão. São João põe hoje remate a sua missão de precursor, ajuntando aos testemunhos que de Cristo só já dera no seu nascimento, pregação e batismo, mais este, o testemunho do seu sangue. Sofreu pela festa da páscoa, um ano antes da paixão do Senhor, mas celebra-se hoje o seu aniversário por se ter encontrado neste dia a sua admirável cabeça na Síria, em 452.
Que ensinamentos grandioso podemos tirar da vida deste grande santo para os dias atuais? Quando se defende a moral e os bons costumes o que nos acontece? Vejamos este exemplo como ele é tão atual e verdadeiro para nossas vidas.

Epístola

Leitura do profeta Jeremias (1, 17-19): Eis o que diz o Senhor Deus: Tu, porém, cinge-te com o teu cinto e levanta-te para dizer-lhes tudo quanto te ordenar. Não temas a presença deles; senão eu te aterrorizarei à vista deles; quanto a mim, desde hoje, faço de ti uma fortaleza, coluna de ferro e muro de bronze, (erguido) diante de toda nação, diante dos reis de Judá e seus chefes, diante de seus sacerdotes e de todo o povo da nação. Eles te combaterão mas não conseguirão vencer-te, porque estou contigo, para livrar-te - oráculo do Senhor.

 
Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (6,17-29): Naquele tempo: O próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino. Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista. Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe. Ouvindo isto, os seus discípulos foram tomar o seu corpo e o depositaram num sepulcro.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Preparação para a morte: Vida infeliz dos pecadores e vida ditosa do que ama a Deus

Inveja


PONTO III

Se todos os bens e prazeres do mundo não podem satisfazer o coração humano, quem o poderá contentar?... Só Deus (Sl 36,4). O coração humano anda sempre à procura de bens que o possam saciar.

Alcança riquezas, honras ou prazeres, mas não se satisfaz, porque tais bens são finitos e ele foi cria-do para o bem infinito. Quando, porém, encontra Deus e se une a ele, se aquieta, acha consolo e não deseja nada mais. Santo Agostinho, enquanto se ateve à vida sensual, jamais gozou de paz; mas, quando passou a entregar-se a Deus, fez esta confissão ao Senhor: “Meu Deus, vejo agora que tudo é dor e vaidade, e que só vós sois a verdadeira paz da alma”. Feito assim mestre por experiência própria, escrevia: Que procuras, homem? procuras bens?... Procura o único Bem, no qual se encerram todos os demais” (Sl 41,3).

Depois de ter pecado, o rei David entregava-se à caça, distraía-se nos seus jardins e em banquetes, gozava de todos os prazeres de um monarca.

Mas as festas, as florestas e as demais criaturas em que ele se comprazia, não faziam senão dizer-lhe a seu modo: “David, queres encontrar em nós paz e satisfação? Não te podemos contentar... Procura teu Deus (Ibid), pois que unicamente ele te pode satisfazer”. Por essa razão, David gemia no meio de seus prazeres, e exclamava: “Minhas lágrimas me têm servido de alimento dia e noite, e me dizem dia-a-dia: Onde está teu Deus?’ Como sabe Deus, ao contrário, contentar as almas fiéis que o amam! São Francisco de Assis, que abandonou tudo por causa de Deus, achava-se descalço, meio morto de frio e de fome, coberto de farrapos, mas, só ao proferir as palavras “Meu Deus e meu tudo”, já sentia gozo inefável e celestial. São Francisco de Bórgia que, durante suas viagens de religioso, muitas vezes, teve de pernoitar sobre um monte de palha, experimentava tamanha consolação que o privava de dormir. Da mesma maneira, São Filipe Néri, despojado e livre de todas as coisas, não conseguia repousar à vista dos consolos que Deus lhe dava, em tal escala, que dizia: “Deixai-me descansar, meu Jesus”. O padre jesuíta Carlos de Lorena, da família dos príncipes de Lorena, punha-se, às vezes, a dançar de alegria, quando entrava em sua pobre cela. Nas Índias, São Francisco Xavier, no meio de seus trabalhos apostólicos, descobria o peito, exclamando: Basta, Senhor, de consolações, que meu coração já não as suporta. Santa Teresa dizia que dá mais contentamento uma gota de celestial consolação, que todos os prazeres do mundo. Efetivamente, não podem faltar as promessas do Senhor, que ofereceu dar, ainda nesta vida, aos que renunciam por seu amor aos bens da terra, o cêntuplo de paz e de alegria (Mt 19,29).

Que andamos, pois, a procurar tanto? Procuremos a Jesus Cristo, que nos chama e diz: “Vinde a mim todos os que estais carregados e fatigados e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). A alma que ama a Deus, encontra essa paz que excede todos os prazeres e todas as satisfações que podem vir do mundo e dos sentidos (Fp 4,7). É verdade que nesta vida até os santos têm que sofrer; porque a terra é lugar para merecimentos e não se pode merecer sem sofrer. Diz, contudo, São Boaventura, que o amor divino é semelhante ao mel que torna doces e agradáveis as coisas mais amargas. Quem ama a Deus, ama sua divina vontade, e é por isso que goza espiritualmente nas próprias tribulações, porque sabe que, resignando-se, agrada e compraz ao Senhor... Ó meu Deus! Os pecadores desprezam a vida espiritual sem tê-la experimentado. Vêem somente, diz São Bernardo, as mortificações que sofrem os amigos de Deus e os deleites de que se privam; mas não consideram as inefáveis delícias espirituais com que o Senhor nos cumula e acaricia. Ah! se os pecadores provassem a paz de que desfruta a alma que só ama a Deus! “Experimentai e vede — diz David — quão suave é o Senhor” (Sl 33,9).

Começa, pois, meu irmão, a fazer meditação diá-ria, a comungar com freqüência, a visitar devotamente o Santíssimo Sacramento; começa a desprezar o mundo e a entregar-te a Deus, e verás como o Se-nhor te dá, no pouco tempo que lhe consagras, maiores consolações que todas as que o mundo te deu com os seus prazeres. Provai e vereis. Quem não experimentar, não poderá compreender o quanto Deus sabe contentar uma alma que o ama.

AFETOS E SÚPLICAS
Meu amantíssimo Redentor, quanto fui cego ao apartar-me de vós, Sumo Bem, Fonte de todo consolo, entregando-me aos pobres e miseráveis prazeres do mundo! Minha cegueira assombra-me; porém mais ainda vossa misericórdia, que com tanta bonda-de me tem suportado.
Agradeço-vos de todo o coração por me terdes feito conhecer meu triste estado e o dever que me impele a amar-vos cada vez mais. Aumentai em mim o desejo e o amor... Fazei, ó Amabilidade infinita, que, enlevado eu de vós, considere que nada mais tendes a fazer para ser amado por mim e que desejais o meu amor. Se quiserdes, podereis purificar-me (Mt 8,8). Purificai, pois, meu coração, caríssimo Redentor; purificai-o de tantos afetos impuros que me não deixam amar-vos como quisera.
Não conseguem minhas forças que meu coração se una inteiramente a vós e a vós somente ame. Deve ser este um efeito de vossa graça, para a qual na-da há de impossível. Desligai-me de tudo; arrancai-me de minha alma tudo o que não conduz a vós, e fazei que seja inteiramente vosso. Arrependo-me de todas as ofensas que vos fiz e proponho consagrar o restante da minha vida ao vosso santo amor. Vós, porém, o haveis de realizar. Fazei-o pelo sangue que derramastes por mim com tanto amor e dor. Seja para glória da vossa onipotência que meu coração, outrora cativo de afeições terrenas, arda doravante em amor por vós, ó Bondade infinita!...

Mãe do belo amor! Alcançai que, por meio de vossas súplicas, minha alma se abrase, como a vossa, em caridade para com Deus.

V/: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. R:/ Amém.

Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004

28 de Agosto - Santo Agostinho, Bispo, Confessor e Doutor


Tão grande é a glória que Santo Agostinho adquiriu, pela sua conversão, santidade de vida e, não menos pelos seus escritos que, ao longo da história, mais de 150 congregações religiosas, quiseram ter a honra de combater sob sua bandeira e que reconhecem Santo agostinho, como fundador e pai.

Tagaste, cidade de Numídia, ao norte da África, era lugar tão insignificante, que talvez tivesse ficado completamente desconhecido, se não fosse a terra de Santo Agostinho. Seu pai era funcionário público e gozava de geral estima, pois era homem correto e leal. Chamava-se Patrício. Deus deu-lhe a graça da conversão ao cristianismo, pouco antes da morte. Agostinho nasceu aos 13 de novembro de 354. Sua mãe, Mônica, santa mulher, procurou dar ao filho uma educação correspondente à sua fé religiosa. Grande, porém, foi o desgosto que teve, ao ver que baldados lhe foram os esforços em conservá-lo no caminho do temor de Deus. Bem cedo Agostinho, esquecendo-se dos conselhos da mãe, caiu na escravidão do pecado, como mais tarde teve a nobre franqueza de confessar perante Deus. Causa desses desvarios, ele mesmo disse ter sido a leitura de maus livros.

Até a idade de 15 anos, fez os estudos em Madaura. Falta de recursos obrigou-o a interromper a freqüência da escola e voltou para Tagaste, onde permanceu, até que o pai tivesse conseguido os meios necessários para o filho poder continuar e terminar o curso em Cartago. Todos elogiavam a Patrício, pelo interesse que mostrava em proporcionar ao filho ocasião de fazer um curso brilhante nas escolas superiores. “Meu pai – assim se exprime Santo Agostinho – fez tudo para me adiantar neste mundo. Pouco se lhe dava, porém, de saber se eu era virtuoso, contanto que fosse eloquënte”.

Durante esse tempo, na idade de 16 anos, Agostinho se entregou de corpo e alma aos prazeres, invejando os companheiros, quando se ufanavam de indignidades por eles praticadas, que não lhe tinha sido possível a ele. O tempo que passou em Cartago foi a época mais triste de sua vida. Lá teve um filho, fruto do pecado. Agostinho deu-lhe o nome de Adeodato.

Indescritível era a tristeza e dor que a mãe experimentava, sabendo que o filho encontrava-se em estado tão lastimável. Essa dor ainda redobrou, quando soube que Agostinho se tinha filiado à seita dos maniqueus. Mônica chorou, como se tivesse perdido o filho pela morte. No entanto, não cessou de rezar pelo apóstata, e pediu a pessoas piedosas das suas relações, que unissem as orações às dela, para obter a graça da conversão de Agostinho. Este parecia ficar dia a dia mais orgulhoso e, completamente inacessível, se tornou aos rogos da mãe. Nove anos passou Agostinho nas trevas do erro herético. Mônica teve uma revelação de Deus, que lhe garantiu a conversão do infeliz filho.

Agostinho, entretanto, abriu em Tagaste e mais tarde em Cartago, um curso de retórica. Era um horizonte muito estreito demais Para sua ambição sem limites, que por ideal tinha, adquirir fama mundial; assim, um dia, resolveu ir para a Itália.

Mônica tudo fez para dissuadi-lo desse plano, ou pelo menos alcançar que a levasse em sua companhia. Agostinho, para se livrar das importunações da mãe, fingiu levar um amigo até as embarcações, enquanto ela se hospedaria num albergue perto do porto. Mônica passou a noite toda em oração e pranto e, quando chegou o dia, Agostinho já se achava em alto mar, em demanda de Roma. Chegado à cidade eterna, caiu gravemente doente. Logo que se restabeleceu, lecionou retórica, e as suas preleções tiveram grande afluência.

Na mesma Ocasião, achava-se em Roma uma comissão da cidade de Milão, para pedir ao Prefeito Simaco uma lente de retórica. Agostinho, por meio de proteção dos amigos maniqueus, conseguiu a preferência entre vários concorrentes e seguiu para Milão. Uma Das primeiras visitas que lá fez, foi ao santo Bispo Ambrósio, que o recebeu com toda a cordialidade.

Foi Deus quem guiou os passos do jovem que, sem o saber, já se achava nas malhas da graça divina. A amabilidade com que Ambrósio o tratava, a caridade que encontrava e, principalmente, a eloqüência arrebatadora do santo bispo, fizeram com que o coração de Agostinho se abrisse ao conhecimento da verdade. Se antes era de opinião que contra as provas do maniqueísmo não havia argumentação, as prédicas de Santo Ambrósio desfizeram essa pretensão. Pouco a pouco conheceu que o sistema da heresia apresentava grandes lacunas, e finalmente se curvou diante da força da verdade.

Agostinho pediu para ser inserido na lista dos catecúmenos. Sabendo quanta mágoa no passado causara à mãe, previa o grande prazer que lhe deveria causar a notícia de sua conversão. Mônica, de fato, veio a Milão, mas nenhuma demonstração deu de satisfação, por ter o filho deixado a heresia. Para Agostinho mesmo, seguiram-se dias de graves lutas internas, pois eram precisas resoluções hercúleas, para quebrar os grilhões de maus hábitos, adquiridos em longos anos e deixar-se levar unicamente pelo suave impulso da graça divina.

Em certa ocasião, recebeu a visita do amigo Ponticiano, que lhe contou a vida de Santo Antão. Foi a hora da graça triunfar. Agostinho confessa que, ao conhecer a vida do grande eremita, ficou profundamente comovido, e tão forte foi esta comoção, que se viu tomado de verdadeiro horror do pecado. Não foi só isto: Deus interveio diretamente na história desta célebre conversão. Quando um dia Agostinho se achava à sombra duma figueira, ouviu perfeita e distintamente as palavras: “Toma e lê”. Instintivamente abriu o primeiro livro que se lhe achava à mão. Eram as epístolas de São Paulo. Abrindo-o, topou com os versos: “Caminhemos como de dia, honestamente, e não em glutonarias e bebedeiras, não em desonestidades e dissoluções; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais uso da carnes em seus apetites”. (Rom 13, 13). Tendo lido isto, não quis mais prosseguir. Fez-se-lhe luz na alma. A tristeza estava-lhe transformada em alegria e, tomado dessa alegria, procurou o amigo Alípio, fazendo-o participante de sua satisfação. Alípio abriu o livro e leu adiante as palavras, que Agostinho não tinha visto: “Ao que é ainda fraco na fé, ajudai-o”. (Rom 14, 1) Apoderou-se também de Alípio grande comoção, que o levou a acompanhar Agostinho na conversão.

Não tardaram a levar à Santa Mônica esta boa nova. O coração da pobre mãe transbordou de alegria, quando a recebeu e ouviu de que modo se realizara a transformação no coração do filho. Deus tinha-lhe, afinal, ouvido-lhe a oração, e não só isto: A conversão de Agostinho dera-se de maneira tão extraordinária, como nunca podia esperar.

Depois, em companhia de sua mãe, de Navígio, seu irmão, Adeodato, seu filho e Alípio, retirou-se para a casa de campo de um amigo, a fim de preparar-se para o santo Batismo. Recebido este, renunciou a tudo que é do mundo: Riqueza, dignidades e posição. O único desejo que tinha era servir a Deus, sem restrição alguma e, para poder pô-lo em prática, formou uma espécie de congregação, composta de amigos e patrícios, que já se achavam em sua companhia. Mônica cuidava de todos, como se fossem seus filhos. Havia ainda uma dificuldade: achar um lugar onde pudesse, como desejava, viver em comunidade. Resolveram voltar para a África. Quando chegaram ao porto de Óstia, morreu Mônica, e Agostinho deu-lhe sepultura lá mesmo. Chegado a Tagaste, vendeu todos os bens, em benefício dos pobres. Escolheu um lugar perto da cidade onde, durante três anos, levou com os companheiros, uma vida igual à dos primeiros eremitas do Egito.

Negócios urgentes chamaram-no a Hipona. O bispo daquela cidade era Valério. Em diversas ocasiões se dirigiu aos diocesanos, expondo-lhes a necessidade de ordenar sacerdotes. O povo, conhecendo as virtudes e talentos de Agostinho, o propôs ao Antístite, como candidato digno. Embora Agostinho relutasse, alegando indignidade, Valério conferiu-lhe as ordens maiores. Uma vez sacerdote, Agostinho pediu ao Prelado licença para fundar um convento em Hipona e, para esse fim, Valério lhe deu um grande terreno, nas proximidades da Igreja.

Muitos outros conventos ainda se fundaram na África setentrional e Agostinho, com razão, é considerado fundador e organizador da vida monástica.

Em 395, a pedido e insistência do bispo Valério, foi Agostinho sagrado bispo. A nova posição não mais lhe permitia a permanência no convento. Para não perturbar a vida monástica, com as freqüentes visitas que havia de atender, transferiu residência para outra casa, onde foi viver em companhia de sacerdotes, diáconos e subdiáconos.

Naquela pequena comunidade, reinavam os costumes dos primeiros cristãos. A ninguém era permitido ter propriedade. O que possuíam, servia à comunidade. Ninguém era admitido, que não se ligasse pela promessa de sujeitar-se a esse regulamento.

À mulher, era vedada a entrada. Nessa proibição estava a própria irmã de Agostinho, que era viúva e superiora num convento religioso. Se o múnus pastoral lhe impunha a visita a uma pessoa de outro sexo, fazia-se acompanhar por um dos sacerdotes.

Duas ordens religiosas tiveram sua origem da comunidade fundada por Santo Agostinho em Tagaste: A dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e dos Agostinianos, propriamente ditos, chamados também Eremitas de Santo Agostinho. Ambas as Ordens acham-se também estabelecidas no Brasil. Outra Congregação baseada nos ensinamentos de Santo Agostinho foi a da Congregação das Religiosas de Nossa Senhora, Cônegas Regulares de Santo Agostinho, fundada em 1597 por São Pedro Fourier e o venerável Aleixo lê Clerc.

No ano de 1244, durante o pontificado de Inocente IV, eremitas de Toscana também adotaram a regra. Duas outras congregações menores, que já viviam sob a regra agostiniana, acabaram unindo-se e os três segmentos uniram-se, formando uma só congregação. Posteriormente, a Ordem sofreu reforma e, dois novos segmentos (filiais) foram criados, ou seja, Ordem dos Agostinianos Descalços e a Ordem dos Agostinianos Recoletos.

35 anos tinha Santo Agostinho governado a Igreja de Hipona, quando a África sofreu a invasão dos Vândalos e Alanos que, vindo das Gálias e da Espanha, comandados por Genserico, devastaram toda a região norte-africana. Para Agostinho, havia a possibilidade de se pôr a seguro. Preferiu, entretanto, partilhar a sorte do seu rebanho. Esperando a cada momento a tomada da cidade pelas hordas invasoras, rodeado de amigos e de bispos fugitivos, a alma cheia de dor e amor, pediu a Deus que salvasse a África ou aceitasse o sacrifício de sua vida. Acometido de uma febre violenta, sob a recitação dos salmos penitenciais, morreu na idade de 76 anos, em 28 de agosto de 430. Levou consigo ao túmulo a Igreja africana, a própria África com sua alta cultura e civilização. Depois dos Vândalos vieram os maometanos, e com eles o extermínio do cristianismo naquelas regiões.

Grandes são os tesouros espirituais que Agostinho deixou à Igreja, nos seus livros, que apresentam eterno valor. Por especial providência, aconteceu que no grande incêndio que os Vândalos causaram na tomada de Hipona, fossem poupadas a Igreja e a biblioteca do grande Bispo.
 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Liturgia Católica II: PRECES


"Ave Maria Gratia Plena, Dominus tecum..."
Para o culto público, além da língua comum, são também necessárias fórmulas comuns. Há muitas. Mencionemos aqui as mais gerais:

84. 1. Padre Nosso (ou Pai-nosso): É' a oração mais santa, mais sublime, mais essencial, mais geral e mais substanciosa de tôdas as orações.

1) É privilégio dos batizados; somente êles podiam rezá-lo publicamente nas reuniões dos fiéis; faziam-no pela primeira vez logo depois do batismo. Daí o uso de rezá-lo na administração dêste sacramento. Emprega-se também em outros sacramentos e bênçãos. 2

2) É dever dos batizados; já a "doutrina dos doze apóstolos" prescrevia que os cristãos o rezassem três vêzes por dia.

3) É parte integrante de tôdas as Liturgias da missa. Quanto os cristãos estimavam o Padre Nosso e sua dignidade de filhos de Deus, vê-se do criptograma achado por toda parte, da Inglaterra até o Egito e a Pérsia, e mesmo em Pompéia, destruída no ano 79, doze anos depois da morte de São Pedro. Por muito tempo resistiu a todos os esforços de decifrá-lo. Tem a forma seguinte:

R  O  T  A  S
O  P  E  R  A
T  E  N  E  T
A  R  E  P  O
S  A  T  O  R
 
É ao mesmo tempo símbolo da fé, sinal da cruz e princípio do Padre Nosso.

1. Símbolo da fé -  Significa: Deus criador (Sator) é o Senhor (tenet) do céu (rotas = sol) e da terra (arepo = arado) e de tudo o que nela há (opera).

2. Substitui o crucifixo, tão odiado pelos pagãos, pela letra T e pela figura

 T
 E
T E N ET
 E
 T
 
 
 3. Significa o Padre Nosso, quando se distribuem as letras do seguinte modo:
 
A
 
P
A
T
E
R
A PATERNOSTER O
O
S
T
E
R
 
O
 
A e O no fim dos braços da cruz significam Alfa e Omega, ou seja, Nosso Senhor Jesus Cristo, que se chama Alfa e Omega, o primeiro e o último, princípio e fim. A explicação dada é a que mais se justifica.

85. 2. Ave Maria - 1) Origem: compõe-se das palavras do arcanjo S. Gabriel e de Santa Isabel dirigidas a Maria Santíssima. Desta forma já se empregava na Liturgia de S. Tiago, depois da consagração. Na Liturgia latina aparece no século IX na qualidade de ofertório do 4.° domingo do advento, lugar que ainda hoje ocupa. A palavra "Jesus" ou "Jesus Cristo" foi acrescentada no fim do século XIV; a petição Santa Maria, no século XV. Pio V prescreveu a fómula atual.
2) Uso: faz parte da Liturgia na recitação do breviário (tradicional), nas orações pelos moribundos e no exorcismo solene.

86. 3. Símbolo dos apóstolos (Credo) - 1) Uso: emprega-se no ofício divino, no rito do batismo e da ordem, no exorcismo solene. 2) Etimologia: deriva-se da palavra grega symbállo: componho. Era costume grego que, fazendo amizade entre duas pessoas, quebrassem um caco de vaso em duas partes, ficando cada um com uma parte. Ao encontrarem-se mais tarde, podiam verificar a amizade, compondo as duas partes. Assim, pelo símbolo, se conhece o amigo de Deus, o verdadeiro cristão. 3) Apostólico: comparando as variações conhecidas do simbolo, chega-se forçosamente à conclusão que remonta ao tempo dos apóstolos. 4) História: os catecúmenos recebiam o símbolo oralmente algum tempo antes do batismo (traditio), e deviam rezá-lo no ato do batismo (redditio). Os santos padres recomendavam a recitação do símbolo como grande proteção contra o demônio e as tentações. S. Agostinho diz: Recite-se ao menos duas vêzes por dia. Daí o rito de rezá-lo na prima e nas completas (Breviário tradicional).

Fonte: Curso de Liturgia - 2ª Edição - Pe. João Batista Reus, S. J. - Ed Vozes Limitada - Petrópolis - Rj 1944


 

27 de Agosto - São José Calazans, Confessor

Foi com surpresa que os habitantes do palácio do nobilíssimo D. Pedro de Urgel, Barão de Peralta de la Sal, na Católica Espanha, viram seu filho de cinco anos, em 1561, correr pela casa armado de um punhal, que havia tirado da panóplia paterna, atrás de algo. Do quê? Indagavam-se. De nobre estirpe guerreira, o sangue bélico fervia-lhe nas veias. Dotado também de profundo senso religioso, ouvira dizer que o demônio, inimigo dos homens, procurava por toda parte e meios possíveis perdê-los eternamente. Resolvera então, como bom filho de batalhadores, aniquilá-lo. Chegando assim armado ao sótão do imenso edifício onde só havia trastes e coisas fora de uso, viu de repente, de um canto, sair voando negra figura alada – provavelmente um morcego – em espavorida fuga: “Foges, covarde?! Não te atreves a enfrentar minha ira?” interpelou com desprezo o valente campeão de calças curtas (1).
Esse traço mostra a têmpera de alma desse intrépido soldado de Jesus Cristo, que de diferentes formas muito dano iria causar ao demônio, e que por ele seria perseguido até o fim de sua longa vida.
Coube-lhe a glória de “haver aberto a primeira das escolas gratuitas para meninos do povo”, e é graças a ele que “a religião pode dizer que o ensinamento dos pobres lhe pertence por direito de nascença e de conquista” (2).
Da Espanha para o centro da Cristandade
O jovem filho do Barão de Peralta, tendo estudado nas melhores universidades, e falando perfeitamente a língua latina, doutorou-se em Direito civil e eclesiástico. Um conceituado biógrafo do Santo observa que ele, “escuta os teólogos, discute com agudeza os subtis problemas da metafísica, faz versos, freqüenta o trato dos homens sábios e santos, e, aos 20 anos, tem todo o prestígio dos grandes mestres. .... Alto, robusto, atlético, ombros largos, organismo de aço, cabeleira loura abundante, José parecia chamado a aumentar com bélicas façanhas os brasões de seus antepassados” (3). Entretanto o brilhante estudante resolvera seguir a carreira eclesiástica.
Mas, falecendo-lhe o irmão mais velho, o pai quis forçá-lo a casar-se para substituí-lo na baronia e assegurar a dinastia. José recomendou-se à Rainha do Céu, de quem era devotíssimo. Foi atacado então por uma moléstia mortal, que o levou à beira do sepulcro. Quando todos choravam à sua cabeceira, perguntou ao pai se lhe seria permitido seguir sua vocação caso se curasse. O Barão, que já via o filho defunto, em lágrimas concordou. Contra todas as esperanças, José começou a recuperar-se tão rapidamente, que em pouco tempo preparava-se para o sacerdócio. Assim recebeu a ordenação sacerdotal no ano de 1583.
Depois de trabalhar nas dioceses de Huesca, Albarracín e Urgel, atendendo a uma voz interior, o herdeiro dos Calazans trasladou-se para Roma, onde se tornou teólogo do Cardeal Colonna. Para satisfazer à sua extrema caridade, entrou em várias arquiconfrarias pias para atendimento de presos, doentes e crianças.
Congregação das Escolas Pias: obra providencial, de futuro, traída
Ao passar pela área do Transtevere, bairro popular de Roma, em suas obras de caridade, José sentia o coração opresso ao ver meninos vagabundeando pelas ruas, sem instrução e expostos a todos os riscos e vícios. Tentou obter para eles lugar nas escolas subvencionadas pelo Poder Público, mas encontrou as maiores dificuldades. Concebeu então o plano de fundar uma escola inteiramente gratuita para meninos, encontrando eco no pároco de Santa Dorotéia. Este não só lhe ofereceu duas salas paroquiais, mas associou-se a ele na labuta.

Aos poucos o número de alunos foi crescendo e mais dois sacerdotes uniram-se aos já existentes. Tornou-se então necessário mudar para lugar mais amplo, sendo-lhes oferecido o Palácio Vestri, junto à igreja Santo Andrea della Valle. Com a vinda de mais auxiliares, tomou aí corpo a congregação dos Pobres da Mãe de Deus e das Escolas Pias, que o Papa Paulo V “quis que se chamasse Paulina, honrando-a com seu nome para dar a entender que era obra sua” (4).
Os novos religiosos ensinavam aos alunos as primeiras letras, aritmética e gramática, instruindo-os ao mesmo tempo nos princípios religiosos e bons costumes.

A princípio, a obra de São José de Calazans encontrou aplauso universal e a proteção de Cardeais, Príncipes, nobres. Houve no início grande número de candidatos dessa classe social, que foram modelos de perfeição. Mesmo assim o Santo não podia atender a todos os pedidos de fundação por falta de religiosos em número suficiente.

“Luta de Classes” interna: irmãos leigos X Clérigos

Aos 20 anos da fundação, as Escolas Pias já se haviam difundido pela maior parte das cidades italianas, pela França, Alemanha, Hungria e Polônia, havendo pedidos insistentes para seu estabelecimento provenientes da Espanha e Boêmia. O fundador escrevia a um súdito que, “se eu tivesse 10 mil religiosos, em menos de um ano teria onde empregá-los” (5).

Contribuía muito para a popularidade dessa obra o fato de seu fundador ser um taumaturgo a quem se atribuíam milagres estupendos, inclusive ressurreições.

José de Calazans pedia constantemente a Deus a graça de morrer pregado à Cruz, com Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa Cruz lhe veio da parte de quem menos podia esperar: dos seus próprios filhos! Imitou assim o Divino Redentor não só na Crucifixão mas também como vítima da traição de novos Judas.

Apesar de possuir todas as graças de fundador, a Providência permitiu que São José, para atender às contínuas demandas, aceitasse em sua Congregação, sem muita seleção, principalmente para irmãos leigos, pessoas que depois ser-lhe-iam causa de muita tristeza. Pois, mais adiante, devido à escassez de pessoal docente, começou a escolher os mais inteligentes desses irmãos leigos para a docência.

Ora, assim promovidos e esquecendo-se de todo espírito religioso, iniciaram eles uma revolução interna na Congregação. “No princípio, os alvoroços tiveram um caráter que poderíamos chamar mais bem de democrático e social. Foi uma luta de classes de [irmãos] leigos contra clérigos, de coadjutores contra sacerdotes” (6). Os irmãos leigos promovidos quiseram primeiro obter o privilégio de usar chapéu, como os professores sacerdotes. Foi-lhes concedido. Exigiram então a tonsura, que a custo obtiveram. Aspiraram em seguida ao sacerdócio. E, “resolvidos a conquistar a igualdade suspirada, começaram a conjurar, a rebelar-se, a inquietar o instituto e a buscar os apoios de gente do século” (7). A rebelião chegou mesmo à agressão física.

“Compreendendo que havia sido demasiado acessível na admissão do pessoal, o fundador esforçava-se agora para selecioná-lo, animando os dissidentes a passar para outras Ordens, e mostrando-se mais rigoroso com os noviços. ‘Não temais ¾ escrevia a seus lugares-tenente ¾ abrir 100 portas em lugar de uma para que saiam todos os religiosos; e fechem noventa e nove e meia para permitir a entrada aos que se apresentem’” (8).


Provincial ambicioso lidera a rebelião

Como sempre acontece, logo surgiu um ambicioso: um dos provinciais do Santo, aproveitando-se da situação, lidera a revolta. E, “seu caso é tão monstruoso, quanto incrível seu triunfo”, comenta o mencionado biógrafo (9). Apoiado nada menos do que pelo Santo Ofício, obteve ele a prisão do venerando fundador nos cárceres da Inquisição. E o povo de Roma viu atônito aquele ancião de 86 anos, até então um dos homens mais populares da cidade e já tido como Santo, levado como prisioneiro pelas ruas, com seus quatro principais assessores. Foram libertos na mesma tarde e carregados em triunfo pelo povo, mas... o Santo fundador via-se destituído do cargo de superior perpétuo passando a simples religioso, enquanto os chefes rebeldes assumiam as rédeas do governo.

Houve reação, principalmente da parte de vários Príncipes, tendo o Pontífice Inocêncio X, que sucedeu a Urbano VIII encarregado “ uma congregação de cardeais entendida nos assuntos das ordens religiosas [a estudar a questão], os quais determinaram que o servo de Deus devia ser reintegrado no generalato com seus quatro assistentes depostos. Não obstante ... não só não teve efeito esta resolução senão que, exageradas por seus fomentadores as turbações domésticas, e fomentadas ou não corrigidas pelo segundo visitador, o Sumo Pontífice expediu, em 1646, um Breve reduzindo a Congregação das Escolas Pias à congregação de sacerdotes regulares, como a de São Felipe Néri” (10). Em outros termos, de religiosos com os três votos e obediência ao superior da Congregação, passaram a ser sacerdotes seculares, sob a dependência dos Ordinários locais...Era o fim da obra.

Revanche da Providência Divina:restauração da Congregação post-mortem
 
O calvário de São José de Calazans chegara ao fim. Assistiu assim com tranqüilidade a extinção da obra à qual dedicara meio século de sua existência, vendo em todo o ocorrido somente a vontade de Deus.
Morreu aos 92 anos, alegre, teve a revelação ¾ que comunicou aos presentes junto ao seu leito de morte ¾ de que sua obra ressuscitaria. E assim foi, pois em 1656 sua querida Congregação foi restaurada.
A honra de Deus e de Seu fiel servidor foram desagravadas com a beatificação de José de Calazans, em 1748, e posterior canonização, menos de 20 anos depois.
O que aconteceu com seus verdugos? É certo que já prestaram sérias contas a Deus por seus atos, e que não deixaram traço de seus nomes para a posteridade...
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Notas
1 – Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones FAX, Madrid, 3ª edição, 1945, tomo III, pp. 454,455.
2 – Les Petits Bollandistes – Vies des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo X, p. 265.
3 – Fr. Justo de Urbel, op. cit., p. 455.
4 – Dr. Eduardo María Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González Y Compañía, Barcelona, 1897, tomo III, p. 403.
5 – Id. ib. p. 406.
6 – Fr. Justo Pérez de Urbel, op. cit., p. 459.
7 - Id. ib., p. 460.
8 – Id. ib., p. 461.
9 – Id. ib., p. 461.
10 – Dr. Eduardo Vilarrasa, op. cit., p. 406.

Fonte: Catolicismo