sábado, 29 de junho de 2013

VI Domingo depois de Pentecostes "Comeram todos e ficaram saciados" (Ev.)

Jesus e o milagre da multiplicação dos pães e peixes
Um grande pensamento domina toda a liturgia de hoje: a necessidade de destruir o pecado por meio de um arrependimento sincero, e de pedir a Deus a graça de não cair novamente nele. É pelo Batismo que morremos para o pecado e é na Eucaristia que encontramos as forças necessárias para podermos caminhar sem desfalecer no caminho da virtude. A Igreja impregna ainda do pensamento destes dois sacramentos que conferiu aos fiéis na Páscoa e no dia de Pentecostes, e continua a falar deles neste tempo. As lições de matinas conta-nos com efeito o caso lamentável de Davi, em que este poderoso monarca sucumbiu as insinuações malignas da serpente, demonstrando que todo homem conserva sempre a lama original de que Deus o formou.

Queria Davi casar-se com Betsabé, esposa de um dos oficiais do exército, e para conseguir tal feito enviu o general Urias que andava em campanha para um lugar perigoso onde o risco de morte era iminente. Urias efetivamente morreu e Davi consegui se casar com Betsabé, de quem teve um filho. Mandou então o Senhor ao Rei o profeta Natan a dizer-lhe: "Ó Rei, havia na cidade dois homens, um rico outro pobre. O rico tinha ovelhas e manadas de bois em grande número, o pobre não tinha coisa alguma senão uma ovelhinha que ele comprara e criava e que tinha crescido juntamente em sua casa com seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do mesmo copo e dormindo no seu regaço. Ele lhe queria como filha. Como pois, um forasteiro quiseste ver o rico, não querendo pois, tocar nas suas ovelhas, nem nos seus bois, para dar um banquete aquele forasteiro tomou a ovelha do pobre para dar de comer ao hóspede". Davi indgnado exclamou: "Porque Deus, que tal homem era merecedor de tal morte!" E tornou Natan a dizer: "Pois és tu este homem. Tinha todas as donzelas de Israel mas para escolher sua esposa violentasse a mulher de Urias. Por isso Deus sucitará da tua própria casa a tua desgraça." Então Davi arrependido exclamou: "Ai de mim  que pequei contra o Senhor!" E tornou Natan: "Por causa do teu arrependimento o Senhor perdoou-te. Não morrerás mas serás castigado e o filho de betsabé perecerá." Passado o tempo o pequeno morria e Davi oprimido pela dor ia prostar diante do templo  diante de Deus.

Davia, comenta Santo Ambrósio, não pode tolerar o peso do pecado que oprimia e sem dilação  confessou diante do Senhor o seu crime. A maioria dos homens não o faz assim pois, onde se encontra hoje um homem mais rico que os seus vizinhos, que não se irrita com outras coisas consideradas indignas de sua considerada posição social, se seu confessor o repreende e aconselha a seguir por caminhos mais retos e mais santos! Mas os santos do Senhor que ardem por avançar nas apertadas fendas que levam a Deus, se lhes acontece de cair, levantam-se com maior ardor para a carreira e estimulados pela vergonha da queda, redobram de coragem no combate para ressacir, e sempre com vantagem, o inadvertido lapso.

A missa completa maravilhosamente as lições do breviário. Na Epístola São Paulo nos recorda com insistência, que, uma vez mortos para o pecado, no Batismo, devemos viver a vida nova, a vida que é sem pecado e que vem de Deus. Caso venha ocorrer que caindo em pecado, estando então na grande desgraça de nos despojar dessa vida nova, deveremos então recorrer aos pés de Deus implorar o seu perdão para continuarmos a louvá-lo em torno do altar. Deus não deixará de ouvir a nossa prece e de firmar os nossos passos na vereda dos seus mandamentos, porque ele diz que é a coragem, o escudo e o guia de seu povo. O Evangelho, finalmente, aponta-nos a fonte divina aonde devemos beber a força de que precisamos para seguir o Senhor até ao Céu sem desfalecer pelo caminho.


A multiplicação dos pães é com efeito figura da Eucaristia, que é viático para todos nós, não apenas no fim da vida quando se empreende a viagem para ó além, mas durante a vida toda. Ela aperfeiçoa a graça do Batismo, dando-nos força para não cair, e alentando e desenvolvendo a vida de Deus em nós até desabrocharmos na plenitude da pátria aonde vamos.

O Rei Davi


Leitura da Epístola da Missa:

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos (Rom. 6, 3-11) - Irmãos: Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição. Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja reduzido à impotência o corpo (outrora) subjugado ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado. (Pois quem morreu, libertado está do pecado.) Ora, se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele,  pois sabemos que Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá mais domínio sobre ele. Morto, ele o foi uma vez por todas pelo pecado; porém, está vivo, continua vivo para Deus! Portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus.

Evangelho do Domingo:

Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo Segundo São Marcos (Mac 8, 1-9): Naqueles dias, como fosse novamente numerosa a multidão, enão tivessem o que comer, Jesus convocou os discípulos e lhes disse: Tenho compaixão deste povo. Já há três dias perseveram comigo e não têm o que comer. Se os despedir em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho; e alguns deles vieram de longe! Seus discípulos esponderam-lhe: Como poderá alguém fartá-los de pão aqui no deserto?  Mas ele perguntou-lhes: Quantos pães tendes? Sete, responderam. Mandou então que o povo se assentasse no chão. Tomando os sete pães, deu graças, partiu-os e entregou-os a seus discípulos, para que os distribuíssem e eles os distribuíram ao povo. Tinham também alguns peixinhos. Ele os abençoou e mandou também distribuí-los. Comeram e ficaram fartos, e dos pedaços que sobraram levantaram sete cestos. Ora, os que comeram eram cerca de quatro mil pessoas. Em seguida, Jesus os despediu.

 Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

29 DE JUNHO - FESTA DOS SANTOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO - COLUNAS DA IGREJA UNA, SANTA CATÓLICA E APOSTÓLICA










Elias, O Profeta

Toda a Igreja está em festa neste dia "consagrado pelo martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo". Nas duas grandes basílicas que se elevam em Roma sobre o túmulo destes dois príncipes " que pela cruz e pela espada conquistaram lugar de honrar no senado da vida eterna" celebrava-se outrora um duplo sacrifício. Mais tarde, por causa da grande distância que separava as duas Igrejas cindiu-se a festa e consagrou-se o dia 29 especialmente a São Pedro e o dia 30 a São Paulo. A missa de hoje dá particular relevo às prerrogativas de São Pedro, a proteção especialíssima que Deus lhe dispensou e a confiança que a Igreja deposita na intercessão dos dois grandes apóstolos a quem deve a origem. Ao cantar "tu é Petrus" sabem todos que as prerrogativas do príncipe dos apóstolos continuam na pessoa dos pontífices, sucessores dele e da sede de Roma e que pode confiar numa providência particularíssima de Deus sobre o vigário de Cristo, o qual preside na hora atual os destinos da Igreja.

Celebremos pois com grande alegria a festas destas duas colunas da nossa amada Igreja católica. Neste momento em que a Igreja e o mundo ocidental passam por uma crise terrível de fé, moral e ética, não podemos nos desanimar e ser levados por correntes contrária a fé que o próprio Deus nos depositou. Muitos são os ataques à Igreja de Cristo na Terra. Recordo-vos pois que estes ataques acompanham a Igreja desde sua origem à dois mil anos atrás. Atacaram e continuam atacando a divindade de Cristo, a virgindade perpétua da santíssima Virgem e muitas outras verdades de fé, que a Igreja para preservar a pureza de sua doutrina teve que organizar Concílios durante estes vinte séculos de cristianismo. Os ataques chegam a tamanho absurdo que muitos dizem que o Papa não é uma hierarquia instituída pelo Senhor negando pois a passagem do evangelho "Tu és Pedro e sobre esta pedra erguerei a minha Igreja, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela. Te dou as chaves do reino dos Céus, tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus" (Mt 16,18-19). Meus caros irmãos, poderia citar muitas outras passagens em que Jesus colocou São Pedro em uma posição Hierárquica acima dos demais apóstolos mudando o nome do apóstolo Simão para Pedro (Céfas que significa rocha). Preferível é, pois, confiar os que estão nas trevas do erro nas mãos do Espírito Santo. Deus nosso Senhor continue iluminando sua Igreja para que seja a porta do céu de seu reino aos homens. Amém.

Epístola

Leitura dos Atos dos Apóstolos (12,1-11): Naquele tempo: Por aquele mesmo tempo, o rei Herodes mandou prender alguns membros da Igreja para os maltratar. Assim foi que matou à espada Tiago, irmão de João. Vendo que isto agradava aos judeus, mandou prender Pedro. Eram então os dias dos pães sem fermento. Mandou prendê-lo e lançou-o no cárcere, entregando-o à guarda de quatro grupos, de quatro soldados cada um, com a intenção de apresentá-lo ao povo depois da Páscoa. Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus. Ora, quando Herodes estava para o apresentar, naquela mesma noite dormia Pedro entre dois soldados, ligado com duas cadeias. Os guardas, à porta, vigiavam o cárcere. De repente, apresentou-se um anjo do Senhor, e uma luz brilhou no recinto. Tocando no lado de Pedro, o anjo despertou-o: Levanta-te depressa, disse ele. Caíram-lhe as cadeias das mãos. O anjo ordenou: Cinge-te e calça as tuas sandálias. Ele assim o fez. O anjo acrescentou: Cobre-te com a tua capa e segue-me. Pedro saiu e seguiu-o, sem saber se era real o que se fazia por meio do anjo. Julgava estar sonhando. Passaram o primeiro e o segundo postos da guarda. Chegaram ao portão de ferro, que dá para a cidade, o qual se lhes abriu por si mesmo. Saíram e tomaram juntos uma rua. Em seguida, de súbito, o anjo desapareceu. Então Pedro tornou a si e disse: Agora vejo que o Senhor mandou verdadeiramente o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus.



Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (16,13-19): Naquele tempo: Chegando ao território de Cesaréia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: No dizer do povo, quem é o Filho do Homem? Responderam: Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou um dos profetas. Disse-lhes Jesus: E vós quem dizeis que eu sou? Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo! Jesus então lhe disse: Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não revalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.



Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

28 de Junho - Vigília dos Apóstolos Pedro e Paulo

Graffiti do século IV em uma catacumba romana.
Celebramos amanhã a festa dos dois apóstolos, que são o fundamento sobre o qual o Senhor quis estabelecer a Igreja como sobre a rocha firme de que nos fala o Evangelho de hoje. Pedro recebeu de Jesus o múnus de Pastor e deu a vida pela Igreja. Paulo seguiu o príncipe dos Apóstolos no caminho do martírio.

Epístola

Leitura dos Atos dos Apóstolos (3,1-10): Naquele tempo: Pedro e João iam subindo ao templo para rezar à hora nona. Nisto levavam um homem que era coxo de nascença e que punham todos os dias à porta do templo, chamada Formosa, para que pedisse esmolas aos que entravam no templo. Quando ele viu que Pedro e João iam entrando no templo, implorou a eles uma esmola. Pedro fitou nele os olhos, como também João, e disse: Olha para nós. Ele os olhou com atenção esperando receber deles alguma coisa. Pedro, porém, disse: Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda! E tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente os pés e os tornozelos se lhe firmaram. De um salto pôs-se de pé e andava. Entrou com eles no templo, caminhando, saltando e louvando a Deus. Todo o povo o viu andar e louvar a Deus. Reconheceram ser o mesmo coxo que se sentava para mendigar à porta Formosa do templo, e encheram-se de espanto e pasmo pelo que lhe tinha acontecido.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (21,15-19): Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes? Respondeu ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe outra vez: Simão, filho de João, amas-me? Respondeu-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta os meus cordeiros. Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro entristeceu-se porque lhe
perguntou pela terceira vez: Amas-me?, e respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres. Por estas palavras, ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: Segue-me!


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Santo Ofício: A Igreja Católica proibiu a leitura da Bíblia?


É praxe da apologética desonesta protestante, se valer de fatos históricos distorcidos e adulterados, no intuito de angariar alguma prova que incrimine a Igreja Católica de algo. Não é diferente em relação as Sagradas Escrituras, eles se valem de contextos históricos determinados pra dizer que a Igreja Católica proibiu a leitura da Bíblia.

Não há nada mais estúpido do que pensar que algum dia a Igreja já tenha proibido a leitura da bíblia por algum motivo, logo ela que preservou os textos Sagrados até os dias de hoje para que os mesmos protestantes que hoje a carregam debaixo do “suvaco”, venham acusá-la descaradamente.

A Igreja sempre estimou as Sagradas Escrituras como fonte de fé e a reserva um lugar especiacialíssimo. A leitura pública da Bíblia sempre foi usada nas celebrações e nos Sacramentos, especialmente na Missa, tudo na vida da Igreja é voltado para as Sagradas Escrituras juntamente com a Sagrada Tradição, essas duas juntas, formam toda a fonte de fé revelada da Igreja.

O cuidado na leitura da Bíblia

Em determinadas circunstancias históricas as autoridades eclesiásticas tiveram que a vigiar sobre o uso da Bíblia, especialmente na Idade Média.

A heresias dos Cátaros ou Albigenses, que abusavam da Bíblia, obrigou os padres dos concílios regionais de Tolosa (1229) e Tarragona (1234) a proibir provisoriamente aos cristãos a leitura da bíblia, para não serem enganados. Mas isso duro muito pouco tempo e se restringiu a leituras de textos vernáculos que não tivessem aprovações eclesiásticas.
O católico deve estar atento que estes dois concílios são os dois principais usados pelos hereges para dizer que a Igreja proibiu a leitura da bíblia. Devemos ter em mente que estes dois concílios são regionais, logo não tem efeito sobre toda a Igreja e se restringiram as regiões onde foram realizados, ou seja, a leitura na lingua vernácula não foi permitida somente onde estava se propagando a heresia dos cátaros.

Pra refutar esta idéia protestante, vamos a alguns testemunhos de alguns autores protestantes,  portanto acima de qualquer suspeita, que derrubam esta falsa tese criada pelo próprio protestatismo:

O Catolicismo Romano tem um grande respeito pela Escritura como fonte de conhecimento. . . Na verdade, as declarações oficiais da Igreja Católica Romana sobre a inspiração e inerrância das Escrituras satisfariam o mais rigoroso fundamentalista protestante. [1]
Nunca houve um momento na história da Igreja ocidental durante a Idade ‘negra’ ou ‘Média’, que as Escrituras fossem oficialmente rebaixadas. Pelo contrário, eles foram consideradas infalíveis e inerrantes, e foram mantidas na mais alta honra.” [2]
Da mesma forma que os papas, Concílios, teólogos, sempre recorreram ao argumento bíblico como o realmente fundamental, a prática dos grandes escritores espirituais de todas as épocas atesta o carácter plenamente tradicional de uma devoção baseada na Bíblia.. . O mesmo aconteceu com os grandes mestres da Idade Média. . . Não só eles conheceram a Bíblia, e fizeram uso abundante dela, mas eles se guiaram nela como em um mundo espiritual que formou o universo habitual de todos os seus pensamentos e sentimentos. Para eles, não era simplesmente uma fonte, entre outras, mas a fonte por excelência, em um sentido único. . .
Não só com a aprovação da hierarquia, mas pela insistência positiva e enfática do próprio Papa, houve um retorno geral ao estudo minucioso das Escrituras, que foi restaurada, não só como base, mas como a fonte, de todos os ensinamentos da teologia.” [3]
Caso isso não fosse verdade, qual o interesse desses protestantes em mostrar que a Igreja sempre estimou e sempre insetivou o estudo das Sagradas Escrituras?  Mais uma vez mostramos protestantes refutando as próprias mentiras protestantes.

Em 1408 o sínodo regional de Oxford, por causa dos erros de J. Wicleff, proibiu as edições da S. Escritura que não tivesse aprovação eclesiástica por que os hereges estavam novamente deturpavam o texto sagrado.

Fica claro que a Igreja não proibiu a leitura da bíblia, mas a leitura de edições deturpadas da bíblia, como faz ainda hoje. Já postamos algumas matérias aqui no site que podem ser lidas aqui (Sola Scriptura Adulterada), onde mostramos as várias deturpações que ocorrem nas edições protestantes. Se hoje com todas as fontes de informações, facilidades de várias versões, os textos gregos amplamente divulgados, já acontecem essas adulterações e deturpações, imagine em um tempo onde pouquíssimos sabiam ler e poucos ainda sabiam traduzir um texto. Não foi corretíssima essa atitude dos bispos no intuito de preservar os fiéis dessas aberrações?

Estas medidas nunca visaram impedir a propagação das Sagradas Escrituras. Por exemplo, na Alemanha, o primeiro livro a ser impresso da História foi uma Bíblia, que foi impressa por Gutenberg,  e foi a bíblia em 2 volumes (1453-1456). Até 1477 saíram cinco edições da bíblia em alemão; de 1477 à 1522 houve nove edições novas (sete em Ausburgo, uma em Nurenberg e uma em Estrasburgo); de 1470 a 1520 apareceram 100 edições de “plenários”, ou seja, livros que continham as epistolas e os evangelhos de cada domingo. Isto mostra de forma claríssima como a Igreja estava longe de querer, a proibição da leitura da bíblia.

Na Itália, houve mais de 40 edições da Bíblia antes da primeira versão protestante aparecer, começando em Veneza em 1471 e 25 delas foram traduzidas em italiano antes de 1500, com a autorização expressa de Roma. Na França haviam 18 edições antes de 1547, a primeira foi impressa em 1478. A Espanha começou a publicar edições no mesmo ano, e emitiu Bíblias com a plena aprovação da Inquisição espanhola (é claro que dificilmente se pode esperar que os protestantes acreditem nisto). Na Hungria, até o ano de 1456, na Boêmia no ano de 1478, na Flandres antes de 1500, e em outras terras, sobre a jurisdiçào  de Roma, sabemos que as edições das Sagradas Escrituras tinha sido dadas largamente ao povo. Em suma de 626 edições da Bíblia,  198 eram em lingua vernácula, e haviam sido emitidas a partir da invensão imprensa, com a sanção e aprovação da Igreja, nos países onde ela reinou suprema, antes da primeira versão protestante das Escrituras sonhar em ser traduzida.  O que, então, torna-se uma ilusão patética, as argumentações protestantes de que o herege Lutero proporcionou alguma coisa para o mundo em relação a bíblia.  (GRAHAM, 1939)

No século XVI, quando Lutero e os seus discípulos fizeram da Escritura a “única fonte de fé”, donde manipulavam e retiravam suas inovações doutrinárias, os bispos da Igreja Católica novamente foram obrigados a tomar medidas necessárias para que o povo católico não fosse enganado pelas novas edições da Bíblia protestante. Por exemplo, Lutero quando traduziu a Bíblia para o Alemão, acrescentou várias palavras que não se encontravam no original grego como em Romanos 3, 28, em que ele diz que o “homem é justificado somente pela fé”: a palavra somente não se encontra no original grego. Esta palavra foi acrescentada para fundamentar os seus delírios e sua incompreensão da obra salvifíca divinda, alterando assim a Palavra de Deus. O texto grego nos mostra:

Λογιζόμεθα ον πίστει δικαιοσθαι νθρωπον (Rom 3, 28)

Em nenhum lugar vemos a palavra somente, que no grego seria μόνον,  presente no texto. De fato o homem é justificado pela fé, mas não somente por ela, São Tiago vem nos mostrar que as boas obras também nos justificam:

“Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.” (Tiago 2, 24)
A bíblia refuta sumariamente a tradução falsificada de Lutero, bem como a sua doutrina de Justificação somente por fé. Esta mesma passagem de Tiago, levou Lutero rejeitar também este livro por ser incompatível com sua doutrina, assim como ele fez com vários outros livros ao seu bel prazer.

Isto obrigou a Igreja Católica a restringir o uso das versões bíblicas vernáculas não autorizadas. Por isso, o Papa Pio IV, em 24 de Março de 1564, a bula “Dominici grecis” (Regra 4ª), determinou que o uso de traduções vernáculas da Sagrada Escritura ficava reservado aos fiéis a juízo do respectivo bispo ou de algum oficial com o proveito, para a sua fé e piedade. Em Portugal, os reis católicos, fiéis à Igreja, já haviam antecipadamente tomado essas medidas. (AQUINO, 2009)

As restrições eram apenas para as traduções vernáculas, ficando o texto latino da vulgata de uso livre para todos os fiéis. Não há dúvida, no século XVI, período de confusão religiosa e de inovações protestantes, mais ou menos subjetivas, a leitura da bíblia podia construir perigo para os fiéis não preparados.

Após esta fase, os Papas voltaram a estimular a leitura da Bíblia. Pio VI (1775-1799) escreveu ao arcebispo A. Martini, editor de um tradução italiana do texto bíblico, numa época em que os católicos ainda hesitavam sobre a oportunidade de tal obra:
Vossa excelência procede muito bem recomendando vivamente à leitura dos Livros Sagrados, pois são fontes particularmente ricas, às quais cada um deve ter acesso. ”
São Pio X (1903-1914) em carta ao cardeal Casseta declarou :
Nós, que tudo queremos instaurar em Cristo, desejamos com o máximo ardor que nossos filhos tomem o costume de ler os Evangelhos, não dizemos freqüentemente, mas todos os dias, pois é principalmente por este livro que se aprende como tudo pode e deve ser instaurado no Cristo… O desejo universalmente esparso de ler o Evangelho, provocado por vosso zelo, deve ser secundado por Vós, na medida em que se aumentar o número dos respectivos exemplares. E Oxalá jamais sejam propalados sem sucesso! Tudo isso será útil para dissipar a opinião de que a Igreja se opõe à leitura da Escritura Sagrada em língua vernácula ou lhe suscita alguma dificuldade” (Revista PR, Nº 11, Ano 1958, Página 452).
Muitas outras citações poderiam ser paqui colocadas. Se o  leitor desejar mais algumas provas é convidado a ler o documento do Vaticano II “Revelação Divina”, e as encíclicas papais de Leão XIII (1878-1903): “Sobre o estudo da Sagrada Escritura” (Providentissimus Deus – 1893), e Pio XII (1939-1958): “Promoção de Estudos Bíblicos” (Divino afflante Spiritu – 1943). Estes são encontrados às vezes no início de Bíblias católicas, e pode ser facilmente localizados na internet e no site Oficial do Vaticano.

BIBLIOGRAFIA

[1] BROWN, Robert McAfee, The Spirit of Protestantism, Oxford: Oxford Univ. Press, 1961, 172-173
[2] TOON, Peter, Protestants and Catholics, Ann Arbor, MI: Servant Books, 1983, 39)
[3] BOUYER, Louis, The Spirit and Forms of Protestantism, translated by A.V. Littledale, London: Harvill Press, 1956, 164-165
GRAHAM,  Henry G. Where We Got the Bible, St. Louis: B. Herder, revised edition: 1939.
ARMSTRONG, Dave.  Was the Catholic Church an Avowed Enemy of Scripture in the Middle Ages (or at any other time)?  Disponível em : < http://socrates58.blogspot.com.br/2006/08/was-catholic-church-avowed-enemy-of.html> . Acesso em 23/04/2012.
AQUINO, Felipe. Ciência e Fé em Harmonia. São Paulo: Editora Cleofas, 2009.
PARA CITAR

 RODRIGUES, Rafael. A Igreja católica proibiu a leitura da Bíblia? Disponível em <http://www.apologistascatolicos.com/index.php/apologetica/protestantismo/516-a-igreja-catolica-proibiu-a-leitura-da-biblia>. Desde 23/04/2012

quarta-feira, 26 de junho de 2013

26 de Junho - São João e São Paulo, Mártires


João e Paulo eram irmãos e servos de Constantina, filha do imperador Constantino, que, como o pai, era cristã.  Quando o imperador Juliano assumiu o poder, ele, que não era cristão, deu início a uma perseguição violenta aos seguidores de Jesus.

Como os irmãos se recusaram a renegar sua fé, o imperador concedeu-lhes o prazo de 10 dias para rever sua posição.  Porém, eles continuaram firme em suas proposições e, com isso, o chefe da guarda os executou em sua própria casa. 

Algumas tradições populares permeiam a vida desses santos.  Uma delas atribui a eles uma vitória do general Galicanus em uma batalha importante.  Conta-se que o general, antes da batalha, em uma conversa com os irmãos, ouviu deles a afirmação de que se ele se convertesse ao cristianismo sairia vitorioso; e assim sucedeu: o general, convertido pela expressão de fé dos dois, venceu o inimigo cujo exército era mais poderoso que o seu.

Fonte: Amai-vos

terça-feira, 25 de junho de 2013

Preparação para a morte: Da perseverança

Santa Joana D'Arc
PONTO III

Consideremos o terceiro inimigo, a carne, que é o pior de todos, e vejamos como deveremos combatê-la. Em primeiro lugar por meio da oração, conforme já 

vimos acima. Em segundo lugar, evitando as ocasiões como iremos ver e ponderar atentamente. Disse São Bernardino de Sena que o conselho mais excelente (que é para bem dizer a base e o 100 funda-mento da vida religiosa) consiste em evitar sempre as ocasiões do pecado. Constrangido pelos exorcismos, confessou certa vez o demônio que, entre todos os sermões, o que mais detesta é aquele em que se exortam os fiéis a fugirem das más ocasiões. E com efeito, o demônio se ri de todas as promessas e propósitos que formule o pecador arrependido, se este não evitar tais ocasiões.

Em matéria de prazeres sensuais, a ocasião é como uma venda posta diante dos olhos e que não permite ver nem propósitos, nem instruções, nem verdades eternas; numa palavra, cega o homem e o faz esquecer-se de tudo. Tal foi a perdição de nossos primeiros pais: não fugiram da ocasião. Deus lhes havia dito que não colhessem o fruto proibido. “Ordenou Deus — disse Eva à serpente — que não o comêssemos nem tocássemos”(Gn 3,3). Mas o imprudente “o viu, o tomou e comeu”. Começou a admirar a maçã, colheu-a depois com a mão, até que por fim comeu dela. Quem voluntariamente se expõe ao perigo, nele perecerá (Ecl 3,27). Adverte São Pedro que o demônio anda ao redor de nós, procurando a quem devorar. Para tornar a entrar numa alma donde foi expulso, diz São Cipriano, somente aguarda a ocasião oportuna. Quando a alma se deixa seduzir pela ocasião do pecado, o inimigo se apoderará novamente dela e a devorará irremediavelmente.

O abade Guerico diz que Lázaro ressuscitou com as mãos e pés atados, e por isso ficou sujeito à mor-te. Infeliz daquele que ressuscitar e ficar preso nos laços das ocasiões do pecado! Apesar de sua ressurreição, tornará a morrer. Quem quiser salvar-se, precisa renunciar, não somente ao pecado, mas também às ocasiões de pecado, isto é, deve afastar-se deste companheiro, daquela casa, de certas relações de amizade...

Poderá alguém objetar que, ao mudar de vida, abandonou inteiramente o fim ilícito em suas relações com determinadas pessoas e que, portanto, já não há receio de tentações. A propósito, recordarei o que se conta de certa espécie de ursos da Mauritânia, que vão à caça de macacos.
Estes animais, ao ver o inimigo, trepam para o alto das árvores.

O urso estende-se junto ao tronco, fingindo-se morto, e quando os macacos, confiados, descem ao solo, levanta-se, apanha-os e os devora.

Tal é a astúcia do demônio: persuade que as tentações estão mortas e quando os homens condescendem com as ocasiões perigosas, apresenta- lhes de súbito a tentação que os faz sucumbir. Quantas almas infelizes, que praticavam a oração, que frequentavam a comunhão e que se podiam chamar santas, deixaram-se prender nos tentáculos do inferno, porque não evitaram as más ocasiões. Lê-se na História Eclesiástica que uma senhora virtuosa, no tempo da perseguição aos cristãos, dedicava-se à piedosa obra de recolher e enterrar os corpos dos mártires. Entre eles encontrou um que ainda respira-va. Levou-o para casa, tratou-o e chegou a curá-lo. Aconteceu, porém, que pela ocasião próxima, essas duas pessoas, que se podiam chamar santas, perderam primeiramente a graça de Deus e depois até a fé cristã.

O Senhor ordenou a Isaías que pregasse que to-da a carne não é mais que feno (Is 40,6). Comentando este texto, disse São João Crisóstomo: É possível que o feno deixe de arder, quando se lhe deita o fogo? Com efeito, acrescenta São Cipriano: É impossível ficar numa fogueira e não queimar-se. A nossa força, adverte o profeta, é como a estopa posta ao fogo (Is 1,31). Também Salomão nos diz que seria um louco aquele que quisesse caminhar por cima de um braseiro sem que se lhe queimassem as plantas dos pés (Pr 6,27-28). Não é menor a loucura daquele que pretende expor-se às ocasiões e não cair em falta.

É preciso fugir do pecado, como de uma serpente venenosa (Ecl 21,2).

É preciso evitar, não apenas a mordedura da ser-pente, escreve Gualfrido, mas também o seu contato e até a sua aproximação.

Dirás, talvez, que aquela casa, aquela amizade favorecem os teus interesses. Entretanto, se aquela casa é para ti caminho do inferno (Pr 7,27) e não re-nuncias a salvar-te, torna-se, em absoluto, necessário que a abandones resolutamente. Se teu olho direi-to, disse o Senhor, te pode ser causa de condenação, deves arrancá-lo e atirá-lo para longe de ti... (Mt 5,29). Note-se a expressão abstê do texto: é necessário atirá-lo, não a teu lado, mas para longe de ti, isto é: impende evitar todas as ocasiões.

Disse São Francisco de Assis que o demônio tenta as pessoas espirituais, que se dão a Deus, de modo mui diferente do que costuma tentar as de má vi-da. A princípio não as prende com uma corda, mas com um cabelo; depois, com um fio; a seguir, com um barbante e, por fim, com uma corda grossa, que as arrasta ao pecado. Aquele, portanto, que deseja escapar de tais ardis, deve evitar, desde o princípio, o enredar de um cabelo, fuja de todas as ocasiões perigosas, relações, cumprimentos, obsequiosidades e outras semelhantes; e, sobretudo, aquele que já teve o hábito da impureza não se limite a evitar as ocasiões próximas; pois, se não fugir também das remo-tas, cairá de novo.

Quem quiser verdadeiramente salvar-se, terá de robustecer e renovar com muita freqüência a resolução de nunca mais se separar de Deus, repetindo muitas vezes aquela máxima dos Santos: “Antes per-der tudo do que perder a Deus”. Não basta, porém, a resolução de não perder a Deus, se não empregamos os meios estabelecidos para a conservação desse bem supremo. O primeiro é, como já ficou dito, evitar as 101 ocasiões. O segundo, frequentar os sacramentos da confissão e comunhão, porque a casa que muitas vezes se limpa não pode deixar de ser asseada. A confissão mantém a alma pura e alcança, não somente a remissão dos pecados, mas também a força necessária para resistir às tentações. A sagrada comunhão chama-se pão do céu, porque, assim como o corpo não pode viver sem sustento terrestre, assim a alma não pode viver sem o alimento celeste. “Se não comerdes a carne do Filho do homem nem beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,54). Ao contrário, a vida eterna é prometida a quem come com freqüência este pão divino (Jo 6,52). Por isso, o Concílio de Trento chama a comunhão antídoto que nos livra dos pecados veniais e nos preserva dos mortais. O terceiro meio é a meditação ou oração mental: “Lembra- te de teus novíssimos, e não peca-rás jamais” (Ecl 7,40). Aquele que não perder de vista as verdades eternas, a morte, o juízo, a eternidade, não cairá no pecado. Deus ilumina-nos na meditação (Sl 53,6) e nos fala interiormente, ensinando-nos o que devemos praticar e o que temos a evitar. “Levá-lo-ei ao deserto e lhe falarei ao coração” (Os 2,14).

A meditação assemelha-se a uma fogueira benfazeja, na qual nos inflamamos de amor divino (Sl 38,4). Enfim, como já temos considerado, para conservar-nos na graça de Deus, é absolutamente necessário rezar sempre e pedir as graças de que hemos mister. Quem não pratica a oração mental dificilmente reza; e não rezando se perderá certamente.

Impende, pois, empregar todos esses meios para nos salvar e levar vida regrada. De manhã, ao levantar-nos, temos de fazer os atos cristãos de agradeci-mento, de amor, de oferecimento e bom propósito, com orações a Jesus e a Maria para que nos preservem do pecado nesse dia. A seguir, faremos a meditação e assistiremos à santa missa.

Durante o dia dediquemo-nos à leitura espiritual, visitemos a Jesus Sacramentado e a divina Mãe. À noite, rezemos o rosário e não deixemos o exame de consciência. Devemos comungar uma ou duas vezes por semana, segundo o conselho do diretor espiritual que escolhemos para lhe obedecer constantemente. Muito útil seria fazer exercícios espirituais em alguma casa religiosa. Cumpre honrar também a Maria Santíssima com alguma prática especial, como, por exemplo, jejuar aos sábados. É Mãe da perseverança e promete este dom a quem a serve.

“Aqueles que por mim trabalham, não pecarão” (Ecl 24,30). Por fim, e sobretudo, é necessário que peçamos a Deus a santa perseverança, especialmente no tempo das tentações, invocando então freqüentemente os santíssimos nomes de Jesus e Maria enquanto a tentação persistir.

Se assim o fizeres, serás salvo; contrariamente a condenação será certa.

AFETOS E SÚPLICAS

Meu amantíssimo Redentor, agradeço-vos as luzes com que me iluminais e os meios que me ofereceis para salvar-me. Prometo empregá-los com diligência. Dai-me vosso auxílio para vos ser fiel. Desejais que me salve e eu também o desejo principalmente para agradar ao vosso Coração amantíssimo, que tanto deseja a minha felicidade. Não quero, meu Deus, resistir por mais tempo ao amor que me manifestais, e pelo qual me suportastes com tanta paciência quando eu vos ofendia.

Convidais-me a que vos ame e amar-vos, Se-nhor, é o meu único desejo...

Amo-vos, bondade infinita... Amo-vos, infinito bem. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, rogo-vos que não permitais que me torne ingrato novamente. Ou acabai com minha ingratidão ou acabai com minha vida... Concluí, meu Deus, a obra que começastes (Sl 67,26). Dai-me luzes, força e amor...

Maria Santíssima, que sois a dispensadora das graças, socorrei-me! Admiti-me, como o desejo, por vosso servo, e rogai a Jesus por mim. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, e depois pelos vossos, espero salvar-me.

V/: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. R:/ Amém.



Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

24 DE JUNHO - SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA






Elias, O Profeta

Profeta do altíssimo, foi no antigo testamento figurado já por Isaías e Jeremias e de modo superior consagrado no ventre materno para anunciar o redentor e preparar os homens para anunciar o Redentor e preparar os homens para sua vinda. O evangelho refere os prodígios que acompanharam seu nascimento. Zacarias dá ao filho um nome que Deus lhe indicara pelo anjo e logo recupera a voz que perdera e cheio do Espírito Santo prediz o glorioso destino da criança; "Irás a frente do Altíssimo para aplanar os caminhos e anunciar ao povo a sabedoria da salvação". Gabriel dissera ao velho sacerdote que muitos seriam os que se haviam de regozijar com o nascimento do seu filho. Ele era com efeito a aurora da salvação e é ainda como tal que a Santa Igreja nos convida a celebrar todos os anos no dia 24 de Junho. Considerado o nascimento do Batista uma espécie de Natal do estio (Hemisfério Norte), prelúdio do Natal do Salvador e inteiramente pendente dele.


Santo Agostinho viu nas datas respectivas das duas festas, 24 de junho e 25 de dezembro, o símbolo duma relação essencial entre ambas. O nascimento do Batista ocorre numa data em que os dias (no hemisfério norte) se apaga diante daquele que anuncia e cuja influência irá gradualmente crescendo, porque "é necessário que ele cresça e eu diminua".

As fogueiras de São João derivam de uma velha tradição popular que acende pelos outeiros e que vem completar a solenidade litúrgica, simbolizando a luz que surge das trevas.

Peçamos a São João Batista que continue junto de nós o seu papel de percursor e que nos guie nos caminhos da vida eterna, e que São João Batista rogue por nós e por toda a Igreja universal.

Epístola

Leitura do profeta Isaías (49, 1-3,6 e 7) : Ilhas, ouvi-me; povos de longe, prestai atenção! O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome. Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua aljava. E disse-me: Tu és meu servo, (Israel), em quem me rejubilarei. E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu Servo, para trazer-lhe de volta Jacó e reunir-lhe Israel, (porque o Senhor fez-me esta honra, e meu Deus tornou-se minha força). Disse-me: Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel; vou fazer de ti a luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo. Eis o que diz o Senhor, o Redentor, o Santo de Israel, ao objeto de desprezo dos homens e de horror das nações, ao escravo dos tiranos: diante de ti, reis se levantarão e príncipes se prostrarão, por causa do Senhor que é fiel, e do Santo de Israel que te elegeu.

Evangelho

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (1,57-68) : Naquele tempo Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho. Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifestara a sua misericórdia, e congratulavamse com ela. No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias. Mas sua mãe interveio: Não, disse ela, ele se chamará João. Replicaram-lhe: Não há ninguém na tua família que se chame por este nome. E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: João é o seu nome. Todos ficaram pasmados. E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia. Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele. Zacarias, seu pai, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou, nestes termos: Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

domingo, 23 de junho de 2013

23 de Junho - Vigília de São João Batista

A Santa Igreja faz preceder de Vigília o nascimento de São João Batista que ocorre amanhã, três meses após a anunciação, em que o anjo Gabriel anunciou  a Maria que a sua parenta Isabel estava grávida de seis meses e que em breve teria um filho.

Epístola

Leitura do profeta Jeremias (1,4-10): Naqueles dias: Foi-me dirigida nestes termos a palavra do Senhor: Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações. E eu respondi: Ah! Senhor, eu nem sei falar, pois que sou apenas uma criança. Replicou porém o Senhor: Não digas: Sou apenas uma criança: porquanto irás procurar todos aqueles aos quais te enviar, e a eles dirás o que eu te ordenar. Não deverás temê-los porque estarei contigo para livrar-te - oráculo do Senhor. E o Senhor, estendendo em seguida a sua mão, tocou-me na boca. E assim me falou: Eis que coloco minhas palavras nos teus lábios. Vê: dou-te hoje poder sobre as nações e sobre os reinos para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (1,5-17) : Naquele tempo: Nos tempos de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias; sua mulher, descendente de Aarão, chamava-se Isabel. Ambos eram justos diante de Deus e observavam irrepreensivelmente todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas não tinham filho, porque Isabel era estéril e ambos de idade avançada. Ora, exercendo Zacarias diante de Deus as funções de sacerdote, na ordem da sua classe, coube-lhe por sorte, segundo o costume em uso entre os sacerdotes, entrar no santuário do Senhor e aí oferecer o perfume. Todo o povo estava de fora, à hora da oferenda do perfume. Apareceu-lhe então um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do perfume. Vendo-o, Zacarias ficou perturbado, e o temor assaltou-o. Mas o anjo disse-lhe: Não temas, Zacarias, porque foi ouvida a tua oração: Isabel, tua mulher, dar-te-á um filho, e chamá-lo-ás João. Ele será para ti motivo de gozo e alegria, e muitos se alegrarão com o seu nascimento; porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto. 


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sábado, 22 de junho de 2013

V Domingo depois de Pentecostes "Vai primeiro e reconcilia-te com seu irmão" (Ev.)

A liturgia deste domingo nos ensina o modo como devemos perdoar as injúrias e, como no anterior, tem aqui esta doutrina dois elementos por base: a história de Davi que continua a ler-se no breviário e uma passagem da Epístola de S. Pedro cuja festa celebramos nesta altura. Esta semana era até chamada outrora, por este motivo, a dos Apóstolos

Logo depois que Davi derrotou Golias, Israel triunfante comemoravam a vitória os soldados e cantavam: Saul matou mil e Davi dez mil. Saul ao ouvir isto se irritou e com isso a inveja mordeu-lhe o coração: "Mil eu e dez mil Davi!" Dizia então Saul. Então será Davi mais do que Eu? Que lhe falta então agora ser rei?

E desde esses dias, nunca mais o pode ver com bons olhos, como se adivinhasse que Davi teria sido escolhido por Deus. A Inveja fê-lo um criminoso pois, por duas vezes tentou matar Davi e por tantas outras Davi evitou o golpe. Então mandou-o para a guerra, na esperança que lá ele morreria. Davi, porém, regressou vitorioso à frente do exército de Saul. Com este fato Saul desesperou e começou uma perseguição aberta. Um dia que andava a procurá-lo desceu para repousar a uma caverna tenebrosa onde Davi se ocultara; desceu e dormiu. Disse então a Davi um de seus companheiros: "Eis o Rei; o Senhor respondeu a Davi o Senhor entregou-o na tuas mãos. É sem dúvida o momento de o matares". "Não! - Respondeu Davi. Não permita Deus que eu desrespeite jamais o que recebeu a unção sagrada".

Davi derrota o gigante Golias com Cinco Pedrinhas
que pode ser a imagem de Cristo destruindo a
morte e o pecado com suas Cinco chagas
E contentou-se de cortar-lhe a orla do manto e de lhe mostrar quando estivesse longe quando o dia rompeu. Então Saul chorou e disse: "O meu vassalo Davi é melhor do que eu!" Surpreendeu-o ainda Davi em pleno sono, com a lança à cabeceira e apenas pegou nela e na taça, Saul então abençoou de novo Davi sem no entanto o deixar de perseguir. Mais tarde os filisteus recomeçaram a guerra e os Israelitas foram derrotados. Suicidou-se Saul  lançando-se sobre a própria Espada. Davi longe de se alegrar com a morte do Rei, rasgou as vestes e chorou amargamente e mandou cortar a cabeça ao Amalecita que atribuía o prestígio de matar a Saul, e assim trouxeram a notícia com a coroa "Montanhas de Geboé, exclamou que nem o orvalho e nem a chuva desçam jamais sobre vós, que vistes tombar os heróis de Israel Saul e Jônatas  tão amáveis e tão belos durante a vida e que a morte não pode separar.

Uma grande lição de caridade se desprende destas considerações e compreendemos agora a escolha do Evangelho e da Epístola que nos pregam ambos o dever impreterível de perdoar. "Sede pois unânimes na oração e não deis mal por mal, nem ultraje por ultraje", diz a Epístola. "Se apresentares a tua oferta no altar, diz o Evangelho, e te lembrares de que o teu irmão tem algo contra ti, deixa diante do altar a tua oferta e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão". A comunhão da missa exprime os sentimentos de Davi ao apoderar-se da cidade de Sião e mandar colocar nela a Arca do Senhor. Isto foi a recompensa da sua invencível caridade, dessa virtude indispensável para que o culto tributado a Deus pelo homem no templo santo lhe seja verdadeiramente agradável. A Epístola e o Evangelho salientam o que é sobretudo quando nos reunirmos para orar que mais nos devemos unir. O melhor meio para alcançar esta virtude é o amor de Deus e desejo veemente dos bens eternos e da felicidade que reina na corte do Deus vivo, onde se entra senão pela porta estreita da renúncia e da abnegação cristã.

Saul ataca Davi por Inveja

Leitura da Epístola:

Leitura a primeira Epístola de São Pedro Apóstolo (IPedro 3 8-15): Carríssimos: Finalmente, tende todos um só coração e uma só alma, sentimentos de amor fraterno, de misericórdia, de humildade. Não pagueis mal com mal, nem injúria com injúria. Ao contrário, abençoai, pois para isto fostes chamados,para que sejais herdeiros da bênção. Com efeito, quem quiser amar a vida e ver dias felizes, refreie sua língua do mal e seus lábios de palavras enganadoras;  aparte-se do mal e faça o bem, busque a paz e siga-a. Porque os olhos do Senhor estão sobre os justos e seus ouvidos, atentos a seus rogos; mas a força do Senhor está contra os que fazem o mal (Sl 33,13-17). Se fordes zelosos do bem, quem vos poderá fazer mal? E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça! Portanto, não temais as suas ameaças e não vos turbeis. Antes santificai em vossos corações Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito.

Evangelho do Domingo:

Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo Segundo São Mateus (Mt 5, 20-24): 20. Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus.21. Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás, mas quem matar será castigado pelo juízo do tribunal. 22. Mas eu vos digo: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Raca, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena. 23. Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24. deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua
oferta.

 Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.                                                                                              

sexta-feira, 21 de junho de 2013

21 de Junho - São Luis Gonzaga, Confessor (Padroeiro dos seminaristas e da juventude)

Luís nasceu no dia 9 de março de 1568, na Itália. Foi o primeiro dos sete filhos de Ferrante Gonzaga, marquês de Castiglione delle Stiviere e sobrinho do duque de Mântua. Seu pai, que servia ao rei da Espanha, sonhava ver seu herdeiro e sucessor ingressar nas fileiras daquele exército. Por isso, desde pequenino, Luís era visto vestido como soldado, marchando atrás do batalhão ao qual seu pai orgulhosamente servia.
 

Entretanto, Luís não desejava essa carreira, pois, ainda criança fizera voto de castidade. Quando tinha dez anos, foi enviado a Florença na qualidade de pajem de honra do grão-duque de Toscana. Posteriormente, foi à Espanha, para ser pajem do infante dom Diego, período em que aproveitou para estudar filosofia na universidade de Alcalá de Henares. Com doze anos, recebeu a primeira comunhão diretamente das mãos de Carlos Borromeu, hoje santo da Igreja.
 

Desejava ingressar na vida religiosa, mas seu pai demorou cerca de dois anos para convencer-se de sua vocação. Até que consentiu; mas antes de concordar definitivamente, ele enviou Luís às cortes de Ferrara, Parma e Turim, tentando fazer com que o filho se deixasse seduzir pelas honras da nobreza dessas cortes.
 

Luís tinha quatorze anos quando venceu as resistências do pai, renunciou ao título a que tinha direito por descendência e à herança da família e entrou para o noviciado romano dos jesuítas, sob a direção de Roberto Belarmino, o qual, depois, também foi canonizado.
 

Lá escolheu para si as incumbências mais humildes e o atendimento aos doentes, principalmente durante as epidemias que atingiram Roma, em 1590, esquecendo totalmente suas origens aristocráticas. Consta que, certa vez, Luís carregou nos ombros um moribundo que encontrou no caminho, levando-o ao hospital. Isso fez com que contraísse a peste que assolava a cidade.
 

Luís Gonzaga morreu com apenas vinte e três anos, em 21 de junho de 1591. Segundo a tradição, ainda na infância preconizara a data de sua morte, previsão que ninguém considerou por causa de sua pouca idade. Mas ele estava certo.
 

O papa Bento XIII, em 1726, canonizou Luís Gonzaga e proclamou-o Padroeiro da Juventude.

A igreja de Santo Inácio, em Roma, guarda as suas relíquias, que são veneradas no dia de sua morte. Enquanto a capa que são Luís Gonzaga usava encontra-se na belíssima basílica dedicada a ele, em Castiglione delle Stiviere, sua cidade natal.

Fonte: Últimas e Derradeiras Graças

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Santo Ofício: Alguns mitos sobre as Cruzadas


Por Thomas F. Madden

Muitas pessoas, no Oriente e no Ocidente, consideram as Cruzadas uma mancha negra na História da Civilização Ocidental em geral, e da Igreja Católica em particular. Citadas por ambas as partes no conflito entre os Estados Unidos e os terroristas árabes, as Cruzadas voltaram aos noticiários, aos filmes e às séries de televisão. Propalam-se velhos mitos e reacendem-se discussões. Um bom exame da História das Cruzadas é, portanto, indispensável

O Presidente George W. Bush foi infeliz quando chamou a guerra contra o terrorismo de “Cruzada”, tendo recebido inúmeras críticas por empregar uma palavra que seria tão ferina e ofensiva para com os muçulmanos de todo o mundo. No entanto, os próprios árabes também fazem uso desse termo. Osama bin Laden e o Mullah Omar com freqüência chamaram os norte-americanos de “cruzados”, e qualificaram os atuais conflitos como uma “Cruzada contra o Islã”. De fato, as Cruzadas estão bem presentes na memória do mundo muçulmano.

O Ocidente, por sua vez, também não esqueceu as Cruzadas. Qualquer um que queira intimidar os católicos não demorará a jogar-lhes no rosto as Cruzadas e a Inquisição. As Cruzadas são com freqüência apresentadas como um exemplo clássico do mal que pode ser feito por uma religião organizada. O homem médio, tanto no Cairo como em Nova York, tende a concordar com a idéia de que as Cruzadas foram um ataque não-provocado, cínico e insidioso, promovido por fanáticos contra o pacífico, próspero e sofisticado mundo muçulmano da época.

Isso não foi sempre assim. Na Idade Média, não havia cristão na Europa que não tivesse certeza de que as Cruzadas eram sumamente boas e justas. Os próprios muçulmanos respeitavam os ideais das Cruzadas e a nobreza dos homens que nelas lutavam.

As coisas começaram a mudar com a Reforma Protestante. Para Martinho Lutero – que já havia rejeitado a autoridade do Papa e a doutrina sobre as indulgências – as Cruzadas não passavam de manobras de um papado sedento de poder. Chegava a afirmar que lutar contra os muçulmanos equivalia a lutar contra o próprio Cristo, pois Ele tinha enviado os turcos para punir a Cristandade pelos seus pecados. Quando o sultão Suleiman o Magnífico (1495?-1566) começou a invadir a Áustria com os exércitos otomanos, Lutero mudou de opinião sobre a necessidade de lutar, mas manteve-se firme em suas críticas às Cruzadas.

Ao longo dos duzentos anos seguintes, as pessoas tendiam a ver as Cruzadas com olhos confessionais: os protestantes lançavam-lhes vitupérios e os católicos, elogios. Quanto a Suleiman e seus sucessores, ambos concordavam: queriam livrar-se dele.

A atual visão a respeito das Cruzadas nasceu do Iluminismo do século XVIII. Muitos dos então chamados “filósofos”, como Voltaire, pensavam que a Cristandade medieval fora apenas uma vil superstição. Para eles as Cruzadas foram uma migração de bárbaros devida ao fanatismo, à ganância e à luxúria. A partir desse momento, a versão iluminista sobre as Cruzadas entrou e saiu de moda algumas vezes. As Cruzadas receberam boa imprensa e foram consideradas como guerras de nobreza (mas não de religião) durante o Romantismo e até o início do século XX. Depois da Segunda Guerra, contudo, a opinião geral voltou-se decisivamente contra as Cruzadas. Na esteira de Hitler, Mussolini e Stalin, os historiadores concluíram que a guerra por motivos ideológicos – seja qual for a ideologia em questão – é abominável.

Esse sentimento de aversão foi resumido por Steven Runciman nos três volumes do seu livro A History of the Crusades (Uma História das Cruzadas, 1951-1954). Para Runciman, as Cruzadas foram atos de intolerância moralmente repugnantes praticados em nome de Deus. Os homens medievais que brandiam a cruz e marchavam rumo ao Oriente Médio eram ou perversos cínicos, ou avarentos vorazes, ou crédulos ingênuos. Esse livro, aliás literariamente bem escrito, tornou-se logo o padrão: com esse único golpe, Runciman conseguiu definir a moderna visão popular sobre as Cruzadas.

A partir de 1970, as Cruzadas receberam a atenção de centenas de pesquisadores, que as esquadrinharam meticulosamente. Como resultado, sabemos hoje muito mais a respeito das guerras santas da Cristandade do que jamais soubemos. Contudo, os frutos de décadas de pesquisa histórica só lentamente vão penetrando nas mentes do grande público. Isso se deve em parte aos próprios historiadores profissionais, sempre propensos a publicar estudos que pela sua própria natureza exigem uma linguagem muito técnica, de difícil compreensão para quem não é especialista. Contribui também para essa situação a clara relutância das elites contemporâneas em abandonar a visão “runcimaniana” das Cruzadas. Sendo assim, os livros populares sobre o tema – livros que as pessoas continuam querendo ler, apesar de tudo – tendem a repetir a conversa de Runciman.

O mesmo vale para as outras mídias, como o cinema e a televisão. Um exemplo é o documentário As Cruzadas, uma produção da BBC/AE de 1995, estrelada por Terry Jones. Para dar um certo ar de autoridade ao que mostravam, os produtores intercalaram as cenas com entrevistas a importantes historiadores das Cruzadas, que expressavam suas opiniões sobre cada evento retratado. O problema é que os historiadores de hoje discordam das idéias de Runciman. Mas os produtores não se importaram com isso: simplesmente editaram as gravações das entrevistas, selecionando fragmentos e seqüências que, uma vez montados, davam a impressão de que os historiadores concordavam com Runciman. Um deles, o Dr. Jonathan Riley-Smith, veio dizer-me depois, num tom irado: “Eles me mostraram dizendo coisas nas quais eu não acredito!”

Mas afinal, qual é a verdadeira história das Cruzadas? Como o leitor pode imaginar, trata se de uma longa história. Mas existem muitos bons historiadores que ao longo dos últimos vinte anos vêm colocando as coisas no seu devido lugar. Por agora, tendo em vista o bombardeio que as Cruzadas vêm recebendo atualmente, o melhor será esclarecer justamente o que as Cruzadas não foram. Enumeramos a seguir alguns dos mitos mais comuns, dizendo por que eles são falsos.

Mito nº 1: As Cruzadas foram guerras contra um pacífico mundo muçulmano que nada fizera contra o Ocidente.

Não há nada de mais falso. Desde os tempos de Maomé, os muçulmanos lançaram-se à conquista do mundo cristão. E fizeram um ótimo trabalho: após poucos séculos de incessantes conquistas, os exércitos muçulmanos tomaram todo o norte da África, o Oriente Médio, a Ásia Menor e a maior parte da Península Ibérica. Em outras palavras: ao findar o século XI, as forças islâmicas já haviam capturado dois terços do mundo cristão. A Palestina, terra de Jesus Cristo; o Egito, berço do monaquismo cristão; a Ásia Menor, onde São Paulo estabeleceu as primeiras comunidades cristãs. Não conquistaram a periferia da Cristandade, mas o seu núcleo. E os impérios muçulmanos não pararam por aí: continuaram pressionando pelo leste em direção a Constantinopla, até que finalmente a tomaram e invadiram a própria Europa.

Se uma agressão não-provocada existiu, foi a muçulmana. Chegou-se a um ponto em que só restava à Cristandade defender-se ou simplesmente sucumbir à conquista muçulmana. A Primeira Cruzada foi convocada pelo Papa Urbano II em 1095 para atender aos apelos urgentes do Imperador bizantino de Constantinopla, Aleixo I Comneno (1081-1118). Urbano convocou os cavaleiros cristãos para irem em socorro dos seus irmãos do Leste. Foi uma obra de misericórdia: livrar os cristãos do Oriente de seus conquistadores muçulmanos. Em outras palavras, as Cruzadas foram desde o início uma guerra defensiva. Toda a história das Cruzadas do Ocidente foi a história de uma resposta à agressão muçulmana.

Fonte: Blog Bíblia Católica Online
Extraído do site: Apostolado Spiritus Paraclitus