sábado, 31 de agosto de 2013

XV Domingo Depois de Pentecostes: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te!" (Ev.)

"Jovem, eu te ordeno, levanta-te!" (Ev.)
As lições deste domingo são geralmente do livro de Jó, desse venerável patriarca da Idumeia, que Satanás quis experimentar com danada tenção para ver se este era realemante fiel a Deus com desinteresses ou porque lhe tinha cumulado de bens e riquezas. Um dia, diz o livro sagrado, Satanás apresentou-se diante de Deus e disse: Percorri a Terra inteira e vi seu servo Jó, que vós tem protegido e enriquecido de consideráveis riquezas. Estendei, no entanto, a vossa mão e tocai-lhe, juro-te que te amaldiçoará na tua face. E o Senhor respondeu: Vai e faze-lhe tudo que está em seu poder, mas não lhe retire a vida. Partiu Satanás e depois de tirar todos os bens, feriu-o com um chaga terrível e de odor insuportável, desde as plantas dos pés até a cabeça. É pensando na malícia de Satanás que a Igreja pede hoje ao Senhor que nos defenda das insídias do espírito das trevas. Jó clamava: "Na casa dos mortos é minha morada e o meu leito num lugar tenebroso. Disse ao pús que saia de suas chagas, tú és meu pai, e aos vermes, tú és a minha mãe e minha irmã. Consumiu a minha carne como um vestido roído de traças e os ossos pregaram-se na minha pele. Tende compaixão de mim, vós que ao menos que sois meus amigos, porque a mão do Senhor feriu-me". Porém ninguém atendia seu apelo, e desiludido dos falsos e ingratos, voltou-se para Deus, entoando o mais belo cântico de esperança que jamais se ouviu na face da Terra: "Eu sei que vive o meu Redentor, que me ressuscitará da terra no último dia. Então serei revestido da minha pele novamente e verei o meu Deus. Eu mesmo o verei e contemplarei com os meus olhos. Esta esperança vive dentro de mim.


A Santa Igreja, de que jó é figura, tem consciência dos ataques incessantes com que o demônio pretende destruí-la, e não cessa de pedir a Deus que a proteja, que a conduza e a defenda. A sua voz é ainda o eco da oração de Jó, a confissão humilde da sua impotência e a esperança invencível naquele que é poderoso e cheio de entranhas de misericórdia com os que o Invocam.


A Epístola é uma exortação freqüente e ansiosa para que andemos nos caminhos do Senhor e assim sejamos fiéis às aspirações do espírito. Se vivemos no espírito, andemos também em conformidade com ele, quer dizer, sejamos mais humildes, mais pacientes, tenhamos mais caridade com os que saem do caminho da justiça e pensemos que somos fracos também e que havemos de prestar apertadas contas dos nossos pecados a não dos pecados alheios.






O Evangelho, segundo a interpretação unânime dos padres, é um símbolo admirável da Igreja, deplorando os seus filhos que vivem em pecado mortal e pedindo aquele que veio a Terra para perdoar que se compadeça deles e os ressuscite.



Epístola do Domingo:

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas (5, 25-26; 6, 1-10) - Irmãos: Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós. Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que não caias também em tentação! Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo. Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine o seu procedimento. Então poderá gloriar-se do que lhe pertence e não do que pertence a outro. Pois cada um deve carregar o seu próprio fardo. Aquele que recebe a catequese da palavra, reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui. Não vos enganeis: de Deus não se zomba. O que o homem semeia, isso mesmo colherá. Quem semeia na carne, da carne colherá a corrupção; quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na fé.




Evangelho de Domingo:
 
Continuação do Santo Evangelho segundo São Lucas: Naquele tempo: Ia Jesus para uma cidade, chamada Naim; e iam com ele seus discípulo e uma multidão. E, quando chegou perto da porta da cidade, eis que era levado um defunto a sepultar, filho único de sua mãe; e esta era viúva; e ia com ela muita gente da cidade. E, tendo-a visto o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse: Não chores. E aproximou-se e tocou o esquife. E os que levavam pararam. Então disse Ele: Jovem, Eu te ordeno, levanta-te. E sentou-se o que estava morto, e começou a falar. E Jesus o entregou a sua mãe. E todos ficaram possuídos de temor, e glorificando a Deus, dizendo: Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus visitou o seu povo.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

Nossa Senhora do Sábado: Nossa Senhora Achiropita

O culto à Nossa Senhora Achiropita surgiu no período romano-bizantino do final do século VI na região da Calábria, Itália. O idioma falado era o grego e deu origem ao nome desta devoção mariana tão antiga da tradição cristã. Tudo começou no ano 580, quando a embarcação do capitão Maurício, desviada pelas correntes marítimas, aportou numa pequena aldeia calabresa. Nela havia uma comunidade eremita guiada pelo monge Éfrem, um rico nobre que abandonou o mundo para se dedicar à Deus. O monge foi ao encontro do capitão e lhe profetizou: "Não foram os ventos que te conduziram para cá, mas a Mãe de Deus, para que tu lhe construas um templo neste local". Dois anos depois, Maurício assumiu o trono de Bizâncio. 

Em 590, o monge Éfrem foi à capital do Império e pediu ajuda ao monarca para construir uma capela dedicada à Maria, na gruta onde vivia no alto do monte Rossano Calabro. O imperador não só ordenou que fosse erguida depressa, como enviou um dos melhores artistas da corte para pintar o ícone da Virgem. Mas, diz a tradição, ele não conseguia sequer fazer o esboço, porque tudo o que fazia de dia, desaparecia à noite. Aflitos com a brincadeira, o povo colocou um vigia noturno, para ninguém entrar na capela. 

Logo ao anoitecer apareceu uma bela senhora carregando uma criança e pediu ao vigia para rezar na capela. Como ela demorasse a sair, ele entrou e não encontrou ninguém, mas, iluminando melhor o interior, viu pintado numa das colunas um lindo ícone de Nossa Senhora segurando o Menino Jesus nos braços. Assustado correu ao encontro do monge Éfrem sobre aquela imagem "a - chiro - pita!", essa expressão grega significa: "não pintada pela mão humana". 

Fato ou tradição, foi desse ícone que surgiu o culto à Nossa Senhora Achiropita. O local se tornou uma linda cidade, a capela sua Catedral. Todas as reformas e ampliações da capela sempre preservaram intacta a coluna onde está o ícone. A igreja foi consagrada em 1580 e sua arquitetura atual definida na primeira década de 1.600. Desde então só foram construídos os anexos que integram o Santuário. 

Muitos milagres de cura e incontáveis graças ocorreram atribuídos à Virgem Achiropita e sua devoção se propagou em todo o mundo cristão. Eleita padroeira de Rossano Calabro, sua festa anual ocorre em 15 de agosto. Nesta data o Santuário é visitado por uma multidão de peregrinos e devotos vindos de muitos os países, para venerar o ícone milagroso da Achiropita na coluna que fica quase no centro da Catedral. 

Essa devoção acompanhou os calabreses que imigraram para as Américas, onde criou raízes através das novas gerações de devotos. Porém, curiosamente, no mundo todo só existem duas igrejas dedicadas à Nossa Senhora Achiropita: a Catedral de Rossano Calabro e a Paróquia do bairro do Bexiga em São Paulo, Brasil. 




Fonte: Paulinas

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

30 de Agosto - Santa Rosa de Lima, Virgem

Isabel Flores y de Oliva nasceu na cidade de Lima, capital do Peru, no dia 20 de abril de 1586. A décima dos treze filhos de Gaspar Flores e Maria de Oliva. À medida que crescia com o rosto rosado e belo, recebeu dos familiares o apelido de Rosa, como ficou conhecida. Seus pais eram ricos espanhóis que se haviam mudado para a próspera colônia do Peru, mas os negócios declinaram e eles ficaram na miséria.

Ainda criança, Rosa teve grande inclinação à oração e à meditação, sendo dotada de dons especiais de profecia. Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Apesar dos apelos da família, que contava com sua ajuda para o sustento, ela ingressou na Ordem Terceira Dominicana, tomando como exemplo de vida santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. E, para perder a vaidade, cortou os cabelos e engrossou as mãos, trabalhando na lavoura com os pais.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana. Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. A partir do hábito, ela imprimiu ainda mais rigor às penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a eucaristia. Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus.

Rosa cumpriu sua vocação, devotando-se à eucaristia e à Virgem Maria, cuidando para afastar o pecado do seu coração, conforme a espiritualidade da época. Aos trinta e um anos de idade, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos. Assim, retirou-se para a casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, agora Mosteiro de Santa Rosa, para cumprir a profecia de sua morte. Todo ano, ela passava o Dia de São Bartolomeu em oração, pois, dizia: "este é o dia das minhas núpcias eternas". E assim foi, até morrer no dia 24 de agosto de 1617. O seu sepultamento parou toda a cidade de Lima.


Muitos milagres aconteceram por sua intercessão após sua morte. Rosa foi beatificada em 1667 e tornou-se a primeira santa da América Latina ao ser canonizada, em 1671, pelo papa Clemente X. Dois anos depois, foi proclamada Padroeira da América Latina, das Filipinas e das Índias Orientais, com a festa litúrgica marcada para o dia 23 de agosto. A devoção a santa Rosa de Lima propagou-se rapidamente nos países latino-americanos, sendo venerada pelos fiéis como Padroeira dos Jardineiros e dos Floristas.


Fonte: Paulinas

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

29 de Agosto - Degolação de São João Batista




Depois de celebrar a 24 de Junho o alegre nascimento de São João Batista na terra, a Santa Igreja honra hoje seu nascimento no Céu. Depois de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem, é o único santo cujo nascimento e morte se festeja. João o Precursor, que vivera 30 anos no deserto e que lá florescera como a palma, e como o cedro do Líbano se elevou, teve a coragem de repreender Herodes na casa por haver ilegitimamente com Herodíades, esposa de seu irmão Felipe, vivo ainda. Herodias constrangeu o rei Herodes a prendê-lo e aproveitou-se de um incidente inesperado para obter por intermédio de sua filha Salomé a decapitação do santo, que repreendia a sua criminosa paixão. São João põe hoje remate a sua missão de precursor, ajuntando aos testemunhos que de Cristo só já dera no seu nascimento, pregação e batismo, mais este, o testemunho do seu sangue. Sofreu pela festa da páscoa, um ano antes da paixão do Senhor, mas celebra-se hoje o seu aniversário por se ter encontrado neste dia a sua admirável cabeça na Síria, em 452.
Que ensinamentos grandioso podemos tirar da vida deste grande santo para os dias atuais? Quando se defende a moral e os bons costumes o que nos acontece? Vejamos este exemplo como ele é tão atual e verdadeiro para nossas vidas.

Epístola

Leitura do profeta Jeremias (1, 17-19): Eis o que diz o Senhor Deus: Tu, porém, cinge-te com o teu cinto e levanta-te para dizer-lhes tudo quanto te ordenar. Não temas a presença deles; senão eu te aterrorizarei à vista deles; quanto a mim, desde hoje, faço de ti uma fortaleza, coluna de ferro e muro de bronze, (erguido) diante de toda nação, diante dos reis de Judá e seus chefes, diante de seus sacerdotes e de todo o povo da nação. Eles te combaterão mas não conseguirão vencer-te, porque estou contigo, para livrar-te - oráculo do Senhor.

 
Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (6,17-29): Naquele tempo: O próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino. Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista. Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe. Ouvindo isto, os seus discípulos foram tomar o seu corpo e o depositaram num sepulcro.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

28 de Agosto - Santo Agostinho, Bispo, Confessor e Doutor


Tão grande é a glória que Santo Agostinho adquiriu, pela sua conversão, santidade de vida e, não menos pelos seus escritos que, ao longo da história, mais de 150 congregações religiosas, quiseram ter a honra de combater sob sua bandeira e que reconhecem Santo agostinho, como fundador e pai.

Tagaste, cidade de Numídia, ao norte da África, era lugar tão insignificante, que talvez tivesse ficado completamente desconhecido, se não fosse a terra de Santo Agostinho. Seu pai era funcionário público e gozava de geral estima, pois era homem correto e leal. Chamava-se Patrício. Deus deu-lhe a graça da conversão ao cristianismo, pouco antes da morte. Agostinho nasceu aos 13 de novembro de 354. Sua mãe, Mônica, santa mulher, procurou dar ao filho uma educação correspondente à sua fé religiosa. Grande, porém, foi o desgosto que teve, ao ver que baldados lhe foram os esforços em conservá-lo no caminho do temor de Deus. Bem cedo Agostinho, esquecendo-se dos conselhos da mãe, caiu na escravidão do pecado, como mais tarde teve a nobre franqueza de confessar perante Deus. Causa desses desvarios, ele mesmo disse ter sido a leitura de maus livros.

Até a idade de 15 anos, fez os estudos em Madaura. Falta de recursos obrigou-o a interromper a freqüência da escola e voltou para Tagaste, onde permanceu, até que o pai tivesse conseguido os meios necessários para o filho poder continuar e terminar o curso em Cartago. Todos elogiavam a Patrício, pelo interesse que mostrava em proporcionar ao filho ocasião de fazer um curso brilhante nas escolas superiores. “Meu pai – assim se exprime Santo Agostinho – fez tudo para me adiantar neste mundo. Pouco se lhe dava, porém, de saber se eu era virtuoso, contanto que fosse eloquënte”.

Durante esse tempo, na idade de 16 anos, Agostinho se entregou de corpo e alma aos prazeres, invejando os companheiros, quando se ufanavam de indignidades por eles praticadas, que não lhe tinha sido possível a ele. O tempo que passou em Cartago foi a época mais triste de sua vida. Lá teve um filho, fruto do pecado. Agostinho deu-lhe o nome de Adeodato.

Indescritível era a tristeza e dor que a mãe experimentava, sabendo que o filho encontrava-se em estado tão lastimável. Essa dor ainda redobrou, quando soube que Agostinho se tinha filiado à seita dos maniqueus. Mônica chorou, como se tivesse perdido o filho pela morte. No entanto, não cessou de rezar pelo apóstata, e pediu a pessoas piedosas das suas relações, que unissem as orações às dela, para obter a graça da conversão de Agostinho. Este parecia ficar dia a dia mais orgulhoso e, completamente inacessível, se tornou aos rogos da mãe. Nove anos passou Agostinho nas trevas do erro herético. Mônica teve uma revelação de Deus, que lhe garantiu a conversão do infeliz filho.

Agostinho, entretanto, abriu em Tagaste e mais tarde em Cartago, um curso de retórica. Era um horizonte muito estreito demais Para sua ambição sem limites, que por ideal tinha, adquirir fama mundial; assim, um dia, resolveu ir para a Itália.

Mônica tudo fez para dissuadi-lo desse plano, ou pelo menos alcançar que a levasse em sua companhia. Agostinho, para se livrar das importunações da mãe, fingiu levar um amigo até as embarcações, enquanto ela se hospedaria num albergue perto do porto. Mônica passou a noite toda em oração e pranto e, quando chegou o dia, Agostinho já se achava em alto mar, em demanda de Roma. Chegado à cidade eterna, caiu gravemente doente. Logo que se restabeleceu, lecionou retórica, e as suas preleções tiveram grande afluência.

Na mesma Ocasião, achava-se em Roma uma comissão da cidade de Milão, para pedir ao Prefeito Simaco uma lente de retórica. Agostinho, por meio de proteção dos amigos maniqueus, conseguiu a preferência entre vários concorrentes e seguiu para Milão. Uma Das primeiras visitas que lá fez, foi ao santo Bispo Ambrósio, que o recebeu com toda a cordialidade.

Foi Deus quem guiou os passos do jovem que, sem o saber, já se achava nas malhas da graça divina. A amabilidade com que Ambrósio o tratava, a caridade que encontrava e, principalmente, a eloqüência arrebatadora do santo bispo, fizeram com que o coração de Agostinho se abrisse ao conhecimento da verdade. Se antes era de opinião que contra as provas do maniqueísmo não havia argumentação, as prédicas de Santo Ambrósio desfizeram essa pretensão. Pouco a pouco conheceu que o sistema da heresia apresentava grandes lacunas, e finalmente se curvou diante da força da verdade.

Agostinho pediu para ser inserido na lista dos catecúmenos. Sabendo quanta mágoa no passado causara à mãe, previa o grande prazer que lhe deveria causar a notícia de sua conversão. Mônica, de fato, veio a Milão, mas nenhuma demonstração deu de satisfação, por ter o filho deixado a heresia. Para Agostinho mesmo, seguiram-se dias de graves lutas internas, pois eram precisas resoluções hercúleas, para quebrar os grilhões de maus hábitos, adquiridos em longos anos e deixar-se levar unicamente pelo suave impulso da graça divina.

Em certa ocasião, recebeu a visita do amigo Ponticiano, que lhe contou a vida de Santo Antão. Foi a hora da graça triunfar. Agostinho confessa que, ao conhecer a vida do grande eremita, ficou profundamente comovido, e tão forte foi esta comoção, que se viu tomado de verdadeiro horror do pecado. Não foi só isto: Deus interveio diretamente na história desta célebre conversão. Quando um dia Agostinho se achava à sombra duma figueira, ouviu perfeita e distintamente as palavras: “Toma e lê”. Instintivamente abriu o primeiro livro que se lhe achava à mão. Eram as epístolas de São Paulo. Abrindo-o, topou com os versos: “Caminhemos como de dia, honestamente, e não em glutonarias e bebedeiras, não em desonestidades e dissoluções; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais uso da carnes em seus apetites”. (Rom 13, 13). Tendo lido isto, não quis mais prosseguir. Fez-se-lhe luz na alma. A tristeza estava-lhe transformada em alegria e, tomado dessa alegria, procurou o amigo Alípio, fazendo-o participante de sua satisfação. Alípio abriu o livro e leu adiante as palavras, que Agostinho não tinha visto: “Ao que é ainda fraco na fé, ajudai-o”. (Rom 14, 1) Apoderou-se também de Alípio grande comoção, que o levou a acompanhar Agostinho na conversão.

Não tardaram a levar à Santa Mônica esta boa nova. O coração da pobre mãe transbordou de alegria, quando a recebeu e ouviu de que modo se realizara a transformação no coração do filho. Deus tinha-lhe, afinal, ouvido-lhe a oração, e não só isto: A conversão de Agostinho dera-se de maneira tão extraordinária, como nunca podia esperar.

Depois, em companhia de sua mãe, de Navígio, seu irmão, Adeodato, seu filho e Alípio, retirou-se para a casa de campo de um amigo, a fim de preparar-se para o santo Batismo. Recebido este, renunciou a tudo que é do mundo: Riqueza, dignidades e posição. O único desejo que tinha era servir a Deus, sem restrição alguma e, para poder pô-lo em prática, formou uma espécie de congregação, composta de amigos e patrícios, que já se achavam em sua companhia. Mônica cuidava de todos, como se fossem seus filhos. Havia ainda uma dificuldade: achar um lugar onde pudesse, como desejava, viver em comunidade. Resolveram voltar para a África. Quando chegaram ao porto de Óstia, morreu Mônica, e Agostinho deu-lhe sepultura lá mesmo. Chegado a Tagaste, vendeu todos os bens, em benefício dos pobres. Escolheu um lugar perto da cidade onde, durante três anos, levou com os companheiros, uma vida igual à dos primeiros eremitas do Egito.

Negócios urgentes chamaram-no a Hipona. O bispo daquela cidade era Valério. Em diversas ocasiões se dirigiu aos diocesanos, expondo-lhes a necessidade de ordenar sacerdotes. O povo, conhecendo as virtudes e talentos de Agostinho, o propôs ao Antístite, como candidato digno. Embora Agostinho relutasse, alegando indignidade, Valério conferiu-lhe as ordens maiores. Uma vez sacerdote, Agostinho pediu ao Prelado licença para fundar um convento em Hipona e, para esse fim, Valério lhe deu um grande terreno, nas proximidades da Igreja.

Muitos outros conventos ainda se fundaram na África setentrional e Agostinho, com razão, é considerado fundador e organizador da vida monástica.

Em 395, a pedido e insistência do bispo Valério, foi Agostinho sagrado bispo. A nova posição não mais lhe permitia a permanência no convento. Para não perturbar a vida monástica, com as freqüentes visitas que havia de atender, transferiu residência para outra casa, onde foi viver em companhia de sacerdotes, diáconos e subdiáconos.

Naquela pequena comunidade, reinavam os costumes dos primeiros cristãos. A ninguém era permitido ter propriedade. O que possuíam, servia à comunidade. Ninguém era admitido, que não se ligasse pela promessa de sujeitar-se a esse regulamento.

À mulher, era vedada a entrada. Nessa proibição estava a própria irmã de Agostinho, que era viúva e superiora num convento religioso. Se o múnus pastoral lhe impunha a visita a uma pessoa de outro sexo, fazia-se acompanhar por um dos sacerdotes.

Duas ordens religiosas tiveram sua origem da comunidade fundada por Santo Agostinho em Tagaste: A dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e dos Agostinianos, propriamente ditos, chamados também Eremitas de Santo Agostinho. Ambas as Ordens acham-se também estabelecidas no Brasil. Outra Congregação baseada nos ensinamentos de Santo Agostinho foi a da Congregação das Religiosas de Nossa Senhora, Cônegas Regulares de Santo Agostinho, fundada em 1597 por São Pedro Fourier e o venerável Aleixo lê Clerc.

No ano de 1244, durante o pontificado de Inocente IV, eremitas de Toscana também adotaram a regra. Duas outras congregações menores, que já viviam sob a regra agostiniana, acabaram unindo-se e os três segmentos uniram-se, formando uma só congregação. Posteriormente, a Ordem sofreu reforma e, dois novos segmentos (filiais) foram criados, ou seja, Ordem dos Agostinianos Descalços e a Ordem dos Agostinianos Recoletos.

35 anos tinha Santo Agostinho governado a Igreja de Hipona, quando a África sofreu a invasão dos Vândalos e Alanos que, vindo das Gálias e da Espanha, comandados por Genserico, devastaram toda a região norte-africana. Para Agostinho, havia a possibilidade de se pôr a seguro. Preferiu, entretanto, partilhar a sorte do seu rebanho. Esperando a cada momento a tomada da cidade pelas hordas invasoras, rodeado de amigos e de bispos fugitivos, a alma cheia de dor e amor, pediu a Deus que salvasse a África ou aceitasse o sacrifício de sua vida. Acometido de uma febre violenta, sob a recitação dos salmos penitenciais, morreu na idade de 76 anos, em 28 de agosto de 430. Levou consigo ao túmulo a Igreja africana, a própria África com sua alta cultura e civilização. Depois dos Vândalos vieram os maometanos, e com eles o extermínio do cristianismo naquelas regiões.

Grandes são os tesouros espirituais que Agostinho deixou à Igreja, nos seus livros, que apresentam eterno valor. Por especial providência, aconteceu que no grande incêndio que os Vândalos causaram na tomada de Hipona, fossem poupadas a Igreja e a biblioteca do grande Bispo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Preparação para a morte: Do amor de Deus

PONTO II

Deus não se limitou a dar-nos todas essas formosas criaturas do universo, mas não viu satisfeito o seu amor enquanto não veio a dar a si próprio por nós (Gl 2,20). O maldito pecado nos fez perder a graça divina e o céu, tornando-nos escravos do demônio. Mas o Filho de Deus, com espanto do céu e da terra, quis vir a este mundo, fazer-se homem para remir-nos da morte eterna e reconquistar-nos a graça e o paraíso perdido. Que maravilha seria ver um poderoso monarca tomar a forma e a natureza de um verme por amor aos homens. “Humilhou-se a si mesmo, tomando a forma de servo... e reduzindo-se à condição de homem...” (Fl 2,7). Um Deus revestido de carne mortal! E o Verbo se fez carne (Jo 1,14). Mas o prodígio ainda aumenta, quando se considera o que fez e sofreu depois por nosso amor esse Filho de Deus. Para nos remir, era bastante uma só gota de seu sangue preciosíssimo, uma só lágrima, uma só súplicas, porque esta oração, sendo um ato de pessoa divina, teria infinito valor e era suficiente para resgatar não só um mundo, mas uma infinidade de mundos que houvesse. Observa, entretanto, São João Crisóstomo que aquilo que bastava para resgatar-nos, não era bastante para satisfazer o imenso amor, que Deus nos tinha. Não queria unicamente salvar-nos, mas que muito o amássemos, porque ele muito nos amava. Escolheu vida de trabalhos e de humilhações e a morte mais amargurada entre todas as mortes, a fim de nos fazer compreender o infinito e ardentíssimo amor em que ardia por nós. “Humilhou- se a si mesmo, fez-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Ó excesso de amor divino que nunca os anjos nem os homens chegarão a compreender! Digo excesso, porque é exatamente assim que se exprimiam Moisés e Elias no Tabor, falando da Paixão de Cristo (Lc 9,31). “Excesso de dor, excesso de amor”, disse São Boaventura.

Se o Redentor não tivesse sido Deus, mas simplesmente um parente ou amigo, que maior prova de afeto nos poderia dar do que morrer por nós? “Ninguém tem amor em maior grau do que ele, porque dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Se Jesus Cristo tivesse de salvar seu próprio pai, que mais poderia ter feito por amor dele? Se tu, meu irmão, fosses Deus e Criador de Jesus Cristo, que mais poderia fazer por ti além de sacrificar sua vida num abismo de humilhações e de dores? Se o mais vil dos homens deste mundo tivesse feito por ti o que fez o Redentor, poderias viver sem o amar? Crês na encarnação e na morte de Jesus Cristo?... Crês e não o amas? Podes sequer pensar em outras coisas, que não seja Jesus Cristo? Duvidas, talvez, do seu amor?... O divino Salvador, diz Santo Agostinho, veio ao mundo para sofrer e morrer por vós, a fim de vos patentear o amor que vos tem. Antes da Encarnação o homem, talvez, poderia pôr em dúvida que Deus o amasse ternamente; mas, depois da Encarnação e morte de Jesus Cristo, quem pode duvidá-lo? Que prova mais evidente e terna podia dar-nos do seu amor do que sacrificar a sua vida por nós?... Estamos habituados a ouvir falar de criação e redenção, de um Deus que nasce num presépio e morre numa cruz... Ó santa fé, ilumina nossas almas!

AFETOS E SÚPLICAS

Meu Jesus, vejo que fizestes tudo o que pudestes para obrigar-me a vos amar, e que eu, com minhas ingratidões, vos pus na obrigação de me abandonardes. Bendita seja vossa paciência, que me tem aturado tanto tempo! Merecia um inferno criado de propósito para mim, mas vossa morte me inspira esperança firme de perdão. Ensinai-me, Senhor, quanto mereceis ser amado e o dever que tenho de amar-vos, ó Bondade infinita! Bem sabia que morrestes por mim, ó Jesus; e como pude viver esquecido de vós, tantos anos?... Se pudesse recomeçar a minha vida, ó Senhor, toda inteira vo-la quisera consagrar, mas os anos passados não voltam... Fazei ao menos que empregue o que me resta da existência unicamente em vos servir e amar. Meu amantíssimo Redentor, amo-vos de todo o coração. Aumentai em mim o a-mor, recordando- me quanto bem me fizestes, e não permitais que volte a ser ingrato.

Não quero resistir por mais tempo à luz que me dais. Desejais que vos ame e eu desejo amar-vos. A quem hei de amar senão amar a meu Deus, beleza infinita e infinita bondade, a um Deus que morreu por mim e me suportou com tanta paciência, e em vez de castigar-me como o merecia, transformou o castigo em graças e favores? Sim, amo-vos, ó Deus digno de infinito amor, e não desejo nem aspiro a outra coisa do que dedicar-me ao vosso amor, esquecido de todo mundo. Ó caridade infinita de meu Senhor: socorrei a uma alma que arde no desejo de ser toda vossa para sempre.

Auxiliai-me também com vossa intercessão, ó Maria, excelsa Mãe de Deus! Rogai a Jesus Cristo que me conceda a graça de ser todo dele para sempre.

V/: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. R:/ Amém.


Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004 

27 de Agosto - São José Calazans, Confessor

Foi com surpresa que os habitantes do palácio do nobilíssimo D. Pedro de Urgel, Barão de Peralta de la Sal, na Católica Espanha, viram seu filho de cinco anos, em 1561, correr pela casa armado de um punhal, que havia tirado da panóplia paterna, atrás de algo. Do quê? Indagavam-se. De nobre estirpe guerreira, o sangue bélico fervia-lhe nas veias. Dotado também de profundo senso religioso, ouvira dizer que o demônio, inimigo dos homens, procurava por toda parte e meios possíveis perdê-los eternamente. Resolvera então, como bom filho de batalhadores, aniquilá-lo. Chegando assim armado ao sótão do imenso edifício onde só havia trastes e coisas fora de uso, viu de repente, de um canto, sair voando negra figura alada – provavelmente um morcego – em espavorida fuga: “Foges, covarde?! Não te atreves a enfrentar minha ira?” interpelou com desprezo o valente campeão de calças curtas (1).
Esse traço mostra a têmpera de alma desse intrépido soldado de Jesus Cristo, que de diferentes formas muito dano iria causar ao demônio, e que por ele seria perseguido até o fim de sua longa vida.
Coube-lhe a glória de “haver aberto a primeira das escolas gratuitas para meninos do povo”, e é graças a ele que “a religião pode dizer que o ensinamento dos pobres lhe pertence por direito de nascença e de conquista” (2).
Da Espanha para o centro da Cristandade
O jovem filho do Barão de Peralta, tendo estudado nas melhores universidades, e falando perfeitamente a língua latina, doutorou-se em Direito civil e eclesiástico. Um conceituado biógrafo do Santo observa que ele, “escuta os teólogos, discute com agudeza os subtis problemas da metafísica, faz versos, freqüenta o trato dos homens sábios e santos, e, aos 20 anos, tem todo o prestígio dos grandes mestres. .... Alto, robusto, atlético, ombros largos, organismo de aço, cabeleira loura abundante, José parecia chamado a aumentar com bélicas façanhas os brasões de seus antepassados” (3). Entretanto o brilhante estudante resolvera seguir a carreira eclesiástica.
Mas, falecendo-lhe o irmão mais velho, o pai quis forçá-lo a casar-se para substituí-lo na baronia e assegurar a dinastia. José recomendou-se à Rainha do Céu, de quem era devotíssimo. Foi atacado então por uma moléstia mortal, que o levou à beira do sepulcro. Quando todos choravam à sua cabeceira, perguntou ao pai se lhe seria permitido seguir sua vocação caso se curasse. O Barão, que já via o filho defunto, em lágrimas concordou. Contra todas as esperanças, José começou a recuperar-se tão rapidamente, que em pouco tempo preparava-se para o sacerdócio. Assim recebeu a ordenação sacerdotal no ano de 1583.
Depois de trabalhar nas dioceses de Huesca, Albarracín e Urgel, atendendo a uma voz interior, o herdeiro dos Calazans trasladou-se para Roma, onde se tornou teólogo do Cardeal Colonna. Para satisfazer à sua extrema caridade, entrou em várias arquiconfrarias pias para atendimento de presos, doentes e crianças.
Congregação das Escolas Pias: obra providencial, de futuro, traída
Ao passar pela área do Transtevere, bairro popular de Roma, em suas obras de caridade, José sentia o coração opresso ao ver meninos vagabundeando pelas ruas, sem instrução e expostos a todos os riscos e vícios. Tentou obter para eles lugar nas escolas subvencionadas pelo Poder Público, mas encontrou as maiores dificuldades. Concebeu então o plano de fundar uma escola inteiramente gratuita para meninos, encontrando eco no pároco de Santa Dorotéia. Este não só lhe ofereceu duas salas paroquiais, mas associou-se a ele na labuta.

Aos poucos o número de alunos foi crescendo e mais dois sacerdotes uniram-se aos já existentes. Tornou-se então necessário mudar para lugar mais amplo, sendo-lhes oferecido o Palácio Vestri, junto à igreja Santo Andrea della Valle. Com a vinda de mais auxiliares, tomou aí corpo a congregação dos Pobres da Mãe de Deus e das Escolas Pias, que o Papa Paulo V “quis que se chamasse Paulina, honrando-a com seu nome para dar a entender que era obra sua” (4).
Os novos religiosos ensinavam aos alunos as primeiras letras, aritmética e gramática, instruindo-os ao mesmo tempo nos princípios religiosos e bons costumes.

A princípio, a obra de São José de Calazans encontrou aplauso universal e a proteção de Cardeais, Príncipes, nobres. Houve no início grande número de candidatos dessa classe social, que foram modelos de perfeição. Mesmo assim o Santo não podia atender a todos os pedidos de fundação por falta de religiosos em número suficiente.

“Luta de Classes” interna: irmãos leigos X Clérigos

Aos 20 anos da fundação, as Escolas Pias já se haviam difundido pela maior parte das cidades italianas, pela França, Alemanha, Hungria e Polônia, havendo pedidos insistentes para seu estabelecimento provenientes da Espanha e Boêmia. O fundador escrevia a um súdito que, “se eu tivesse 10 mil religiosos, em menos de um ano teria onde empregá-los” (5).

Contribuía muito para a popularidade dessa obra o fato de seu fundador ser um taumaturgo a quem se atribuíam milagres estupendos, inclusive ressurreições.

José de Calazans pedia constantemente a Deus a graça de morrer pregado à Cruz, com Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa Cruz lhe veio da parte de quem menos podia esperar: dos seus próprios filhos! Imitou assim o Divino Redentor não só na Crucifixão mas também como vítima da traição de novos Judas.

Apesar de possuir todas as graças de fundador, a Providência permitiu que São José, para atender às contínuas demandas, aceitasse em sua Congregação, sem muita seleção, principalmente para irmãos leigos, pessoas que depois ser-lhe-iam causa de muita tristeza. Pois, mais adiante, devido à escassez de pessoal docente, começou a escolher os mais inteligentes desses irmãos leigos para a docência.

Ora, assim promovidos e esquecendo-se de todo espírito religioso, iniciaram eles uma revolução interna na Congregação. “No princípio, os alvoroços tiveram um caráter que poderíamos chamar mais bem de democrático e social. Foi uma luta de classes de [irmãos] leigos contra clérigos, de coadjutores contra sacerdotes” (6). Os irmãos leigos promovidos quiseram primeiro obter o privilégio de usar chapéu, como os professores sacerdotes. Foi-lhes concedido. Exigiram então a tonsura, que a custo obtiveram. Aspiraram em seguida ao sacerdócio. E, “resolvidos a conquistar a igualdade suspirada, começaram a conjurar, a rebelar-se, a inquietar o instituto e a buscar os apoios de gente do século” (7). A rebelião chegou mesmo à agressão física.

“Compreendendo que havia sido demasiado acessível na admissão do pessoal, o fundador esforçava-se agora para selecioná-lo, animando os dissidentes a passar para outras Ordens, e mostrando-se mais rigoroso com os noviços. ‘Não temais ¾ escrevia a seus lugares-tenente ¾ abrir 100 portas em lugar de uma para que saiam todos os religiosos; e fechem noventa e nove e meia para permitir a entrada aos que se apresentem’” (8).


Provincial ambicioso lidera a rebelião

Como sempre acontece, logo surgiu um ambicioso: um dos provinciais do Santo, aproveitando-se da situação, lidera a revolta. E, “seu caso é tão monstruoso, quanto incrível seu triunfo”, comenta o mencionado biógrafo (9). Apoiado nada menos do que pelo Santo Ofício, obteve ele a prisão do venerando fundador nos cárceres da Inquisição. E o povo de Roma viu atônito aquele ancião de 86 anos, até então um dos homens mais populares da cidade e já tido como Santo, levado como prisioneiro pelas ruas, com seus quatro principais assessores. Foram libertos na mesma tarde e carregados em triunfo pelo povo, mas... o Santo fundador via-se destituído do cargo de superior perpétuo passando a simples religioso, enquanto os chefes rebeldes assumiam as rédeas do governo.

Houve reação, principalmente da parte de vários Príncipes, tendo o Pontífice Inocêncio X, que sucedeu a Urbano VIII encarregado “ uma congregação de cardeais entendida nos assuntos das ordens religiosas [a estudar a questão], os quais determinaram que o servo de Deus devia ser reintegrado no generalato com seus quatro assistentes depostos. Não obstante ... não só não teve efeito esta resolução senão que, exageradas por seus fomentadores as turbações domésticas, e fomentadas ou não corrigidas pelo segundo visitador, o Sumo Pontífice expediu, em 1646, um Breve reduzindo a Congregação das Escolas Pias à congregação de sacerdotes regulares, como a de São Felipe Néri” (10). Em outros termos, de religiosos com os três votos e obediência ao superior da Congregação, passaram a ser sacerdotes seculares, sob a dependência dos Ordinários locais...Era o fim da obra.

Revanche da Providência Divina:restauração da Congregação post-mortem
O calvário de São José de Calazans chegara ao fim. Assistiu assim com tranqüilidade a extinção da obra à qual dedicara meio século de sua existência, vendo em todo o ocorrido somente a vontade de Deus.
Morreu aos 92 anos, alegre, teve a revelação ¾ que comunicou aos presentes junto ao seu leito de morte ¾ de que sua obra ressuscitaria. E assim foi, pois em 1656 sua querida Congregação foi restaurada.
A honra de Deus e de Seu fiel servidor foram desagravadas com a beatificação de José de Calazans, em 1748, e posterior canonização, menos de 20 anos depois.
O que aconteceu com seus verdugos? É certo que já prestaram sérias contas a Deus por seus atos, e que não deixaram traço de seus nomes para a posteridade...
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Notas
1 – Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones FAX, Madrid, 3ª edição, 1945, tomo III, pp. 454,455.
2 – Les Petits Bollandistes – Vies des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo X, p. 265.
3 – Fr. Justo de Urbel, op. cit., p. 455.
4 – Dr. Eduardo María Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González Y Compañía, Barcelona, 1897, tomo III, p. 403.
5 – Id. ib. p. 406.
6 – Fr. Justo Pérez de Urbel, op. cit., p. 459.
7 - Id. ib., p. 460.
8 – Id. ib., p. 461.
9 – Id. ib., p. 461.
10 – Dr. Eduardo Vilarrasa, op. cit., p. 406.

Fonte: Catolicismo

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Liturgia Católica II: A PROPÓSITO DA REFORMA DO “ORDO MISSAE” (Parte II)


Mas voltemos à nossa questão propriamente dita: As reformas empreendidas como resultado do Concílio eram necessárias em sua totalidade? O que a pastoral ganhou nisso tudo? Sobretudo: Era isto o que desejavam os padres conciliares?

Uma das maiores preocupações do Concílio foi “que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada”.

Depois do Concílio, as missas são mais atraentes para os fiéis? A nova liturgia contribuiu para o aumento da fé e da piedade? Só parece que foi assim, mas pouco depois da introdução em 1969 do novo “ordo missae”, nossas igrejas se esvaziavam mais e mais e diminuía o número de nossos sacerdotes e religiosos em proporções preocupantes. São muitas as possíveis causas. Não obstante, a reforma litúrgica não foi capaz de parar esta evolução negativa e provavelmente contribuiu não pouco para fomentá-la.

Demonstraremos a seguir que a reorganização do “ordo” da missa de 1969 foi mais longe do que o que teria sido necessário aos olhos do Concílio e que não o exigia uma pastoral adaptada à época atual; e, além disso, as exigências do Concílio em matéria litúrgica poderiam ser satisfeitas sem modificações essenciais do rito da missa já existente. 

O “ordo missae” publicado em 1965, pouco depois do Concílio, e ao qual se fez referência anteriormente, mostrava claramente que num princípio não se tinha pensado numa reforma fundamental do “ordo missae”. Como expressamente se faz notar em sua introdução, tiveram em conta as exigências da Constituição litúrgica, de que o antigo rito permanecera intacto exceto por algumas alterações e supressões secundárias (como a do Salmo 42, nas orações ao pé do altar e o último evangelho). Certamente se estará de acordo que nas instruções para a aplicação da Constituição sobre a liturgia (Instructio ad exsequendam Constitutionem de liturgia) de 26 de setembro de 1965, do que se tratava era somente de uma mera “restauração dos livros litúrgicos” (“librorum liturgicorum instauratio”) (nº 3). Um teólogo desprevenido, que conhece os costumes romanos, pensaria numa revisão moderada, particularmente num enriquecimento dos textos litúrgicos existentes, mas nunca numa nova modificação do rito da missa. Se não, por que o decreto de introdução do “ordo missae” de 1965 ordenava que este “ordo” “seja levado em conta para as novas edições do ‘Missale romanum’ (“in novis missali romani editionibus assumeretur”)? Não se fazem imprimir uns missais destinados a ter somente quatro anos de validade. Por conseguinte o novo “ordo missae” de 1965 era, evidentemente, o previsto para os novos missais, revisados segundo a “Instructio”.

Fonte: A Reforma Litúrgica Romana - Monsenhor Klaus Gamber - Fundador do Instituto - Tradução por Luís Augusto Rodrigues Domingues (Teresina, PI - 2009) - Litúrgico de Ratisbona - Revisão por Edilberto Alves da Silva

domingo, 25 de agosto de 2013

25 de Agosto - São Luis, Rei de França, Confessor

Rei, estadista e cruzado. Cada época histórica tem um homem que a representa. Luís IX é o homem modelo da Idade Média: é um legislador, um herói e um santo… “Marco Aurélio [Imperador romano pagão] mostrou o poder unido à filosofia; Luís IX, o poder unido à santidade. Avantajou-se o cristão” (Chateaubriand, Estudos históricos).

Não surpreende muito que um homem, retirado num claustro e separado das ocasiões de pecado, domine as inclinações desregradas da natureza e progrida na prática das mais belas virtudes do Cristianismo. Mas que um príncipe, ao qual não se tem a liberdade de repreender nem contradizer, e que vivendo em meio às honrarias e às mais perigosas volúpias, domine suas paixões, conservando a inocência e a pureza de coração, é realmente admirável, podendo ser chamado um prodígio na ordem da graça.



Entretanto, aquilo que é impossível para as forças do homem, não o é para Deus. E se a História do Antigo Testamento nos apresenta muitas cabeças coroadas que souberam aliar a santidade com a autoridade soberana, e a qualidade de profeta à de chefe, de juiz e de rei, a História do Novo Testamento nos fornece um número bem maior em quase todos os reinos cristãos.

Nesse mês, dia 25, a Igreja nos propõe um príncipe, que podemos chamar de pérola dos soberanos, glória da coroa da França, modelo de todos os príncipes cristãos; e para dizer tudo em duas palavras, um Monarca verdadeiramente segundo o coração de Deus, da Igreja e do povo.

É o incomparável São Luís, quadragésimo Rei da França desde o início da monarquia, e o nono da terceira raça, da qual Hugo Capeto foi o tronco.

Seu pai foi Luís VIII, filho de Filipe Augusto, e sua mãe a princesa Branca, de quem os historiadores atribuem a glória de haver sido filha, sobrinha, esposa, irmã e tia de reis. Com efeito, seu pai foi Afonso IX, Rei de Castela, que infligiu aos mouros sério revés na batalha de Navas de Tolosa, quando mais de duzentos mil infiéis pereceram no campo de batalha; era sobrinha dos reis Ricardo e João, da Inglaterra; esposa de Luís VIII, Rei da França; irmã de Henrique, Rei de Castela; mãe de São Luís IX e de Carlos, Rei de Nápoles e da Sicília; e tia, através de suas irmãs Urraca e Berengüela, de Sanches, Rei de Portugal, e de São Fernando III, Rei de Leão.

Nasceu São Luís no Castelo de Poissy, a 30 quilômetros de Paris, no dia 25 de abril de 1215, quando em toda a Cristandade procissões solenes comemoravam o dia de São Marcos. Vivia ainda seu avô, Filipe Augusto, o qual acabava de ganhar a célebre batalha de Bouvines, oito anos antes de lhe suceder seu filho, o futuro Luís VIII.

A infância de São Luís foi um espelho de honestidade e sabedoria. Seu pai, que unia virtude e zelo pela religião a uma bravura marcial que lhe valeu o nome de Leão, foi particularmente zeloso na sua educação. Deu-lhe bons preceptores e um sábio governante: Mateus II de Montmorency, primeiro barão cristão; Guilherme des Barres, Conde de Rochefort; e Clemente de Metz, marechal-da-França, que lhe inspiraram os sentimentos que deve ter um rei cristianíssimo e um filho primogênito da Igreja.

Sua mãe, Branca, não poupou esforços para torná-lo um grande rei e um grande Santo, sobretudo após a morte de seu filho primogênito, Filipe. Ela lhe repetia com freqüência estas palavras, dignas de serem imitadas por toda mãe verdadeiramente católica: “Meu filho, eu gostaria muito mais ver-te na sepultura, do que maculado por um só pecado mortal”.

Com a morte prematura do Rei aos 40 anos, em 1226, na cidade de Montpellier, quando voltava da guerra contra os hereges albigenses, nosso Santo subiu ao trono, sob a tutela da mãe, tendo sido sagrado na Catedral de Reims em 30 de novembro daquele mesmo ano.

Sua minoridade foi pródiga em guerras intestinas, causadas pela ambição e orgulho de senhores feudais do reino, que desejavam valer-se da pouca idade do soberano para impor as suas pretensões. Mas Deus dissipou todas as facções por uma proteção visível sobre a pessoa sagrada desse jovem Monarca.

Uma minoridade tão conturbada serviu de ocasião para fazer reluzir a prudência, o valor e a bondade daquele que se tornaria um protótipo do Rei Católico.
 



Matrimônio abençoado por Deus

No dia 27 de maio de 1235, pouco depois de completar 20 anos, casou-se com Margarida, filha mais velha de Raimundo Béranger, Conde de Provence e de Forcalquier, e de Beatriz de Sabóia. Era uma princesa que a graça e a natureza haviam dotado de toda sorte de perfeições, e que lhe daria, ao longo de uma santa e harmoniosa existência, 10 filhos, cinco homens e cinco mulheres. Acompanhou ela o jovem esposo na sua primeira expedição além-mar, e após a morte deste, retirou-se no Mosteiro de Santa Clara, onde terminou seus dias em 20 de dezembro de 1285. Seu corpo, precedido e seguido por pobres, que a chamavam de mãe, foi enterrado em Saint-Denis.

Luís IX procurava acima de tudo tributar a Deus o serviço e a honra que Lhe eram devidos. Este lhe retribuía assistindo-o em todas as necessidades, aconselhando-o nos empreendimentos, protegendo-o dos inimigos e conduzindo a bom termo todas as suas iniciativas.

O segundo de seus filhos varões foi Filipe III, que lhe sucedeu no trono, e cujos filhos foram, por sua vez, Reis, até Henrique III. O caçula de São Luís foi Roberto de Bourbon, cuja descendência subiu ao trono francês durante nove gerações. Das filhas, com exceção de uma, falecida prematuramente, todas foram esposas de Reis.

Educação cristã dos filhos: modelo de pai

Ao contrário de outros Monarcas, que negligenciam a educação dos filhos, ou os deixam, sem maior preocupação, aos cuidados de governantes, São Luís chamava pessoalmente a si o cuidado de os instruir, imprimindo-lhes na alma o desprezo pelos prazeres e vaidades do mundo e o amor pelo soberano Criador. Ele os exercitava normalmente à noite, após as horas Completas, quando os fazia vir a seu quarto a fim de ouvir as suas piedosas exortações. Ensinava-lhes, além disso, a rezar diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, obrigava-os a assistir às Missas de preceito, e  incutia-lhes a necessidade da mortificação e da penitência. Às sextas-feiras, por exemplo, não permitia que portassem qualquer ornamento na cabeça, porque foi o dia da coroação de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ainda hoje existem os manuscritos das instruções por ele deixadas à sua filha Isabel, Rainha da Navarra: são tão santas e cheias do espírito de Nosso Senhor, que nenhum diretor espiritual, por mais esclarecido que seja, seria capaz de apresentar outras mais excelentes.

O governante: justiceiro e moralizador dos costumes

Se São Luís soube educar tão bem os filhos, foi entretanto ainda mais admirável em governar os negócios públicos. Nunca a França experimentou tanta paz e prosperidade como em sua época. Enquanto as outras nações, em todas as latitudes, estavam em convulsão, os franceses por ele governados gozavam de uma feliz tranqüilidade, assegurada pela sabedoria do Monarca. Ele soube banir do Estado, através de sábias leis, todos os desregramentos então existentes. O primeiro deles foi a blasfêmia e os juramentos ímpios e execráveis. Foram tão rigorosas as punições contra eles estipulados, que o Papa Clemente IV julgou dever atenuá-las.

Outros desregramentos que se esforçou em exterminar foram os duelos, os jogos de azar e a freqüentação a lugares de tolerância. Antes de São Luís, nenhum Rei havia proibido os duelos: toleravam-no, e às vezes o ordenavam, a fim de se conhecer o direito das partes; o que importava  meio enganoso e contrário aos preceitos da justiça.

Modelo em tudo para os homens públicos de todos os tempos e sobretudo de nossos dias, Luís IX o era de modo especial no tocante à boa administração dos bens do Estado e ao exímio cumprimento da lei. Assim, por exemplo, quando enviava juizes, oficiais e outros emissários às províncias para ali exercerem durante algum tempo Justiça, proibia-lhes de adquirir bens e empregar seus filhos, com receio de que isso pudesse ensejar a que viessem cometer injustiças.

Nomeava, acima deles, juizes extraordinários para examinar sua conduta e rever seus julgamentos, a exemplo de Deus, que assegura que julgará a Justiça. E se por acaso encontrava que em algo haviam agido mal, impunha-se primeiramente a si mesmo uma severa penitência, como se tivesse sido o culpado pelo excesso praticado por eles, e em seguida ministrava-lhes severa punição, obrigando-os a restituir o que haviam tomado do povo, se fosse esse o caso, ou a reparar aqueles que haviam sido condenados injustamente. Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e os fazia ascender a funções mais honrosas.

Além de administrar Justiça, não negligenciava o Santo Monarca o cuidado dos pobres.

Zelo pela ortodoxia e piedade

Se foi notório seu zelo em extirpar a libertinagem no reino de França, o que dizer de seu empenho em relação ao extermínio da heresia e ao estabelecimento da Fé e da disciplina cristã? Para isso tomou-se de grande afeição pelos religiosos de São Domingos e de São Francisco, a quem ele via como instrumentos sagrados dos quais a Providência queria se servir para a salvação de uma infinidade de almas resgatadas pelo precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele os convidava com certa freqüência para jantar, sobretudo São Tomás de Aquino e São Boaventura, dois luzeiros a iluminar o firmamento da Santa Igreja a partir da Idade Média.

Um dos traços em que a religiosidade desse grande Monarca mais se manifestou foi a aquisição, junto a Balduíno II, Imperador de Constantinopla, da Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a qual mandou edificar essa verdadeira maravilha da arquitetura gótica que é a Sainte-Chapelle, no coração de Paris.



Voto de cruzar-se: realiza-se a VI Cruzada

Deus, quando suscita numa alma um grande desejo, fá-la não raro passar por uma grande provação antes de atendê-la. Foi o que sucedeu com São Luís, que em 1245 caiu gravemente enfermo, a ponto de alguns terem como certa sua morte. Nessa contingência os franceses, que o amavam como a um pai, fizeram violência ao Céu, organizando vigílias, procissões e outros atos de piedade pela sua convalescença. O Monarca fez então um voto: caso sobrevivesse, partiria para libertar o Santo Sepulcro.

Cumpriu-o três anos depois, ao partir para Lyon, onde se encontrou com o Papa Inocente IV, de quem recebeu a bênção apostólica. Dirigiu-se em seguida para Aigues-Mortes, onde o aguardavam as embarcações que deveriam conduzi-lo com os cruzados ao Oriente. Era o dia 25 de agosto de 1248, data em que se iniciava a VI Cruzada da História.

As naus tocaram inicialmente a Ilha de Chipre, onde o Monarca se viu obrigado a permanecer durante o inverno, devido a uma peste que arrebatou a sexta parte de seu exército. Sua demora e essas perdas foram contudo de algum modo recompensadas pela conquista do Rei de Chipre, a quem São Luís conseguiu convencer de juntar-se à expedição.

Reencetou o Santo Cruzado a sua expedição no dia 13 de maio de 1249, à frente de uma formidável armada de 1800 embarcações, grandes e pequenas. Entretanto, devido às tempestades, mais da metade delas desviou-se da rota. De sorte que, ao passar em revista suas tropas, encontrou apenas 700 cavaleiros, dos 2800 de que se compunha seu exército.

De batalha em batalha; vitorioso numas e com reveses em outras; passando por humilhações pelos pecados de seus soldados ou por honrarias em pleno cativeiro (os emires do Egito quiseram elegê-lo Sultão!); sendo informado do nascimento de um dos filhos em Damiette, em plena época de negociação com os algozes, e do falecimento de sua bondosa mãe, a Rainha Branca, na França; enfrentando pestes e naufrágios, retomou o Rei-Cruzado, em 25 de abril de 1254, festa de São Marcos, o caminho da doce França, onde aportou no dia 19 de julho do mesmo ano. Em 5 de setembro encontrava-se no Castelo de Vincennes, e no dia seguinte entrava solenemente em Paris.

Seu regresso foi acolhido com eloqüentes manifestações de dileção do Papa Clemente IV e de Henrique III, Rei da Inglaterra.

Provações e santa morte do Rei Cruzado

Decidiu então o Santo lançar uma VII Cruzada, a última da História, para a qual se apresentaram seus filhos e Ricardo, Rei da Inglaterra, além de numerosos príncipes e senhores. Após terem sido tomadas todas as providências, partiram em direção a Túnis, no dia 4 de julho de 1270.

Mais uma vez no mar, e eis que outra grande tempestade dispersa as embarcações, fazendo com que muitas sejam impedidas de partir. São entretanto reparadas e chegam todas a Túnis. Mas o rei daquelas terras, bárbaro, traidor e infiel, que havia chamado São Luís à África dizendo que queria tornar-se cristão, sequer permitiu que sua armada descesse. O embate começou então ali mesmo, com os franceses assediando vários pontos nevrálgicos dos infiéis e a própria capital. Como esta resistisse, decidiram dominá-la cortando os víveres.

Mas a decomposição da cidade atingiu o exército francês, que  foi logo empestado por todos os lados, ceifando inúmeras vidas. São Luís viu morrer seu filho Jean Tristan, nascido por ocasião do seu cativeiro no Egito, e pouco depois ele mesmo entregaria serena e santamente sua bela alma a Deus, o que se deu no dia 25 de agosto de 1270, precisamente 22 anos após sua partida para a VI Cruzada.

As relíquias de São Luís foram levadas para a França por seu filho Filipe, com exceção das entranhas, destinadas à Abadia de Montréal, na Sicília, a pedido do Rei Carlos, irmão do Santo Monarca. O resto de seu corpo repousa na Abadia de Saint-Denis. Seu culto foi juridicamente examinado e aprovado pelo Papa Bonifácio VIII, que o canonizou em 1297.

Fonte de referência:

Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, Typographie des Célestins, ancienne Maison L. Guérin, 1874, t. V, p. 192 a 217, Bar-le-Duc.


Artigo oferecido pela Revista Catolicismo

Fonte: Lepanto

sábado, 24 de agosto de 2013

XIV Domingo depois de Pentecostes: "Salomão jamais se vestiu com um desses lírios" (Ev.)

"Salomão jamais se vestiu com um desses lírios" (Ev.)
As lições do breviário são tiradas do livro do Eclesiástico se o Domingo que vem for de Agosto ou caso o Domingo que vem seja Setembro será do livro de Jó. São Gregório ensina-nos comentando o livro do Eclesiástico assim: "Há homens ue sentregam inteiramente ao´prazer dos bens materiais, ignorantes sem dúvidas ou pelo menos esquecidos do tesouro deslumbrante e inexaurível que a matéria vela. Sem a saudades dos bens que ficam para além e que eles culpavelmente perderam, semtem-se felizes os mesquinhos, com um punhado de terra. Criados para a luz da verdade, não sente o dentro em si o desejo de olhar, e compreender, de se perderem nela. Desorientados no meio dos prazeres em que se precipitaram, chegam lhes a pensar que é a pátria ou exílio em que vivem e que é luz radiosa as trevas que os envolvem. Ao contrário, os eleitos para quem os bens da terra não tem valor algum, procuram sem descanso, entre as areias amargas do deserto amargo, a pérola preciosa que sua alma anseia. Presos pela terra na carne que também é terra, debatem-se, absolutamente destinados a desprezar o que passa para recolhe e o que permanece".
Para Jó é o tipo genuíno de homem desprendido da vontade e da plena resignação na vontade adorável a Deus: "Se de Deus recebemos os bens, porque também não deveriamos receber dele os males, se for servido no-lo mandar?" - dizia ele.
A Missa de hoje está rica nestes pensamentos. O Espírito Santo, que a Igreja recebeu no dia de pentecostes, formou em nós o homem novo que se opõe e procura destruir as inveteradas tendências do homem velho, que são as intemperanças da carne e busca insaciável das riquezas para satisfazer. O Espírito de Deus, o espírito de liberdade que habita em nós torna filhos do pai e irmãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, segrega-nos da servidão ignóbil do pecado, porque os que pertencem a Jesus Cristo, crucificaram a própria carne com os seus vícios e baixeza. Caminham em oposição irredutível com o espírito.



Convencido da verdade evangélica de que ninguém pode servir a dois senhores, o cristão põe-se de guarda contra si mesmo, contra as velhas paixões amortecidas talvez nas cinzas funerárias do velho homem, não vão às vezes ressuscitarem. "O que se deixa escravizar pelos bens deste mundo, diz Santo Agostinho, está as ordens de um senhor duro e terrível. Está debaixo da tirania do demônio. Sem dúvida, ele não o ama, pois quem é que pode amar o demônio? Todavia suporta-o. Por outro lado, também não odeia a Deus. Ninguém odeia a Deus no fundo da sua consciência. No entanto despreza e não o teme, como se estivesse seguro de está perdoado. Mas o Espírito Santo põe-no de atalaia contra estes perigos, quando nos diz pelo profeta que a misericórdia de Deus é infinita e que sua paciência nos convida a penitência. Se alguém pois quer amar a Deus em sinceridade e verdade, se alguém tem o desejo normal de ser feliz, considere a sentença do Senhor, procure em primeiro lugar o reino de Deus, e tudo mais virá por acréscimo."

Epístola do Domingo:

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas (5, 16-24) - Irmãos: Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis. Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências.

Evangelho de Domingo:

Continuação do Santo Evangelho de Jesus Cristo, segundo São Mateus: Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: Ninguém pode servir a dois Senhores ao mesmo tempo, porque ou odiará um e amará o outro, ou há de se afeiçoar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a riqueza. Portanto vos digo: Não andeis (demasiadamente) inquietos, nem o com o que (vos é preciso) para alimentar a vossa vida, nem com o que (vos é preciso) para vestir o vosso corpo. Porventura não vale mais a alma do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisão nos celeiros, e contudo vosso Pai Celeste as sustentam. Por ventura não sois vós muito mais do que elas? E quais de vós, por muito que pense, pode acrescentar um côncavo a sua estatura? E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam. E digo vos todavia que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu jamais com um lírio deste. Se pois Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais vós, homens de pouca fé! Não vos aflijais pois dizendo: O que comeremos, ou o que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque os pagãos procuram com (excessivo cuidado) todas essas coisas. Vosso pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e sua Justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.