sábado, 30 de agosto de 2014

XII Domingo Depois de Pentecostes "Colocou-o sobre seu jumento e teve cuidado dêle" (Ev.)

"Colocou-o sobre seu jumento e teve cuidado dêle"
A Igreja comça a ler neste tempo as parábolas de Salomão que foram escritas, como diz a escritura: "Para aprender a sabedoria e a disciplina, a justiça, para se entender as palavras da prudência e receber as intruções da doutrina, a justiça e a equidade e o juízo; para dar astúcia aos pequenos e ciência e compreenção aos mancebos. Porque o sábio que escuta, torna-se mais sábio e aos homens inteligentes é confiado o mando". Salomão era na penumbra do Velho Testamento, a figura de Jesus Cristo, sabedoria incarnada que veio trazer a terra o Verbo deslumbrante da Verdade. "Felizes, diz o Senhor no Evangelho, felizes os olhos que viram que vós vistes, pois em verdade vos digo que muitos Reis e Profetas desejaram ouvir o que estão ouvindo e ver o que estão vendo e não puderam ouvir e nem ver o que vós vistes e ouvistes." "Felizes, comenta São Beda, felizes sim, e mil vezes felizes, os que puderam conhecer os mistérios que o Senhor disse e foram revelados aos pequeninos e aos humildes." Voltemo-nos pois, todos para Crito e para sua Igreja para colhermos na sua doutrina aquela sabedoria superior que eve informar toda a nossa vida.

O Rei Salomão e a Rainha de Sabá
O Evangelho deste Domingo é o do bom samaritano. O Senhor revela-nos nele simultaneamente a lei que deve presidir a nova sociedade que vai fundar e a finalidade e necessidade da incarnação do Verbo. O homem, com efeito, depois do pecado original era um viajante que os ladrões tinham roubado e deixado quase morto a beira da estrada. Vieram os sacerdotes, os ministros do velho testamento, viram-no e foram adiantes impotentes para resgatar o gênero humano. Foi preciso que viesse o Salvador, o bom samaritano, "que se aproximou de nós, diz São Beda, fazendo-se homem e dobrando-se sobre a miséria a que tínhamos chegado, derramou nas nossas chagas o azeite e o vinho que são os sacramentos regeneradores da nossa alma. A hospedaria onde nos levou é sua Igreja. Aí nos cura e nos fortalece com o azeite dos Sacramentos e com o pão e o vinho da Eucaristia para continuarmos até o Céu a grande viagem que empreendemos".
O que o Senhor fez conosco e o que nos recomendou uma parábola do bom samaritano devemos praticá-lo sempre com todos os homens. É precisamente aqui que reside a nossa grandeza. Tornando-mos, por assim dizer, como Deus que fez chover sobre o justo e o injusto. O amor ao próximo, com efeito, possui qualquer coisa de divino. É sobrenatural na origem, porque procede do Espírito Santo; é sobrenatural no objeto, porque se dirige a Deus na pessoa de nossos irmãos. Amemos pois, e amenos todos os homens. Lancemos, nós que nos dizemos filhos da Igreja e discípulos de Cristo, lancemos contra a onda subversiva de ódio que incendeia o mundo o ataque da caridade de Cristo, porque, pensemos bem, só com esta arma poderemos vencer.
Iconografia do Rei Salomão

Epístola

Epístola de São Paulo Apóstolo aos Conríntios (IICor 3, 4-9) - Irmãos: Tal é a convicção que temos em Deus por Cristo. Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica. Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de tal glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face (embora transitório), quanto mais glorioso não será o ministério do Espírito! Se o ministério da condenação já foi glorioso, muito mais o há de sobrepujar em glória o ministério da justificação !


Continuação do Santo Evangelho segundo São Lucas. Naquele tempo: Disse
Jesus a seus discípulos: ditosos os olhos que vêem o que vós vedes. Porque eu vos afirmo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não viram; e ouvir o que vós ouvis, e não ouviram. E eis que se levantou um certo doutor da lei, e lhe disse para o tentar: Mestre, que devo eu fazer para possuir a vida eterna? Jesus disse-lhe: O que é que está escrito na lei? Como lês tu? Ele respondendo disse: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, e com todas as tuas forças, e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo. E Jesus disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverás (eternamente). Mas ele, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é meu próximo? E Jesus retomando a palavra, disse: Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu na mão dos ladrões, que o despojaram (do que levava); e, tendo-o maltratado, retiraram-se, deixando-o meio morto. Ora aconteceu que passava pelo mesmo caminho um sacerdote, o qual, quando o viu, passou de largo. Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar, e, vendo-o, passou adiante. Mas um samaritano, que ia seu caminho, chegou perto dele; e, quando o viu, moveu-se de compaixão. E, aproximando-se ligou-lhe as feridas, lançando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem, e teve cuidado dele. E no dia seguinte tirou dois dinheiros, e deu-os ao estalajadeiro, e disse-lhe: Tem cuidado dele, e quanto gastares a mais, to satisfarei quando voltar. Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? Ele respondeu: O que usou de misericórdia. Então Jesus disse-lhe: Vai, e faze tu o mesmo.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

30 de Agosto - Santa Rosa de Lima, Virgem

Isabel Flores y de Oliva nasceu na cidade de Lima, capital do Peru, no dia 20 de abril de 1586. A décima dos treze filhos de Gaspar Flores e Maria de Oliva. À medida que crescia com o rosto rosado e belo, recebeu dos familiares o apelido de Rosa, como ficou conhecida. Seus pais eram ricos espanhóis que se haviam mudado para a próspera colônia do Peru, mas os negócios declinaram e eles ficaram na miséria.

Ainda criança, Rosa teve grande inclinação à oração e à meditação, sendo dotada de dons especiais de profecia. Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Apesar dos apelos da família, que contava com sua ajuda para o sustento, ela ingressou na Ordem Terceira Dominicana, tomando como exemplo de vida santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. E, para perder a vaidade, cortou os cabelos e engrossou as mãos, trabalhando na lavoura com os pais.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana. Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. A partir do hábito, ela imprimiu ainda mais rigor às penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a eucaristia. Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus.

Rosa cumpriu sua vocação, devotando-se à eucaristia e à Virgem Maria, cuidando para afastar o pecado do seu coração, conforme a espiritualidade da época. Aos trinta e um anos de idade, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos. Assim, retirou-se para a casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, agora Mosteiro de Santa Rosa, para cumprir a profecia de sua morte. Todo ano, ela passava o Dia de São Bartolomeu em oração, pois, dizia: "este é o dia das minhas núpcias eternas". E assim foi, até morrer no dia 24 de agosto de 1617. O seu sepultamento parou toda a cidade de Lima.


Muitos milagres aconteceram por sua intercessão após sua morte. Rosa foi beatificada em 1667 e tornou-se a primeira santa da América Latina ao ser canonizada, em 1671, pelo papa Clemente X. Dois anos depois, foi proclamada Padroeira da América Latina, das Filipinas e das Índias Orientais, com a festa litúrgica marcada para o dia 23 de agosto. A devoção a santa Rosa de Lima propagou-se rapidamente nos países latino-americanos, sendo venerada pelos fiéis como Padroeira dos Jardineiros e dos Floristas.


Fonte: Paulinas

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

29 de Agosto - Degolação de São João Batista




Depois de celebrar a 24 de Junho o alegre nascimento de São João Batista na terra, a Santa Igreja honra hoje seu nascimento no Céu. Depois de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem, é o único santo cujo nascimento e morte se festeja. João o Precursor, que vivera 30 anos no deserto e que lá florescera como a palma, e como o cedro do Líbano se elevou, teve a coragem de repreender Herodes na casa por haver ilegitimamente com Herodíades, esposa de seu irmão Felipe, vivo ainda. Herodias constrangeu o rei Herodes a prendê-lo e aproveitou-se de um incidente inesperado para obter por intermédio de sua filha Salomé a decapitação do santo, que repreendia a sua criminosa paixão. São João põe hoje remate a sua missão de precursor, ajuntando aos testemunhos que de Cristo só já dera no seu nascimento, pregação e batismo, mais este, o testemunho do seu sangue. Sofreu pela festa da páscoa, um ano antes da paixão do Senhor, mas celebra-se hoje o seu aniversário por se ter encontrado neste dia a sua admirável cabeça na Síria, em 452.
Que ensinamentos grandioso podemos tirar da vida deste grande santo para os dias atuais? Quando se defende a moral e os bons costumes o que nos acontece? Vejamos este exemplo como ele é tão atual e verdadeiro para nossas vidas.

Epístola

Leitura do profeta Jeremias (1, 17-19): Eis o que diz o Senhor Deus: Tu, porém, cinge-te com o teu cinto e levanta-te para dizer-lhes tudo quanto te ordenar. Não temas a presença deles; senão eu te aterrorizarei à vista deles; quanto a mim, desde hoje, faço de ti uma fortaleza, coluna de ferro e muro de bronze, (erguido) diante de toda nação, diante dos reis de Judá e seus chefes, diante de seus sacerdotes e de todo o povo da nação. Eles te combaterão mas não conseguirão vencer-te, porque estou contigo, para livrar-te - oráculo do Senhor.

 
Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (6,17-29): Naquele tempo: O próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino. Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista. Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe. Ouvindo isto, os seus discípulos foram tomar o seu corpo e o depositaram num sepulcro.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

28 de Agosto - Santo Agostinho, Bispo, Confessor e Doutor


Tão grande é a glória que Santo Agostinho adquiriu, pela sua conversão, santidade de vida e, não menos pelos seus escritos que, ao longo da história, mais de 150 congregações religiosas, quiseram ter a honra de combater sob sua bandeira e que reconhecem Santo agostinho, como fundador e pai.

Tagaste, cidade de Numídia, ao norte da África, era lugar tão insignificante, que talvez tivesse ficado completamente desconhecido, se não fosse a terra de Santo Agostinho. Seu pai era funcionário público e gozava de geral estima, pois era homem correto e leal. Chamava-se Patrício. Deus deu-lhe a graça da conversão ao cristianismo, pouco antes da morte. Agostinho nasceu aos 13 de novembro de 354. Sua mãe, Mônica, santa mulher, procurou dar ao filho uma educação correspondente à sua fé religiosa. Grande, porém, foi o desgosto que teve, ao ver que baldados lhe foram os esforços em conservá-lo no caminho do temor de Deus. Bem cedo Agostinho, esquecendo-se dos conselhos da mãe, caiu na escravidão do pecado, como mais tarde teve a nobre franqueza de confessar perante Deus. Causa desses desvarios, ele mesmo disse ter sido a leitura de maus livros.

Até a idade de 15 anos, fez os estudos em Madaura. Falta de recursos obrigou-o a interromper a freqüência da escola e voltou para Tagaste, onde permanceu, até que o pai tivesse conseguido os meios necessários para o filho poder continuar e terminar o curso em Cartago. Todos elogiavam a Patrício, pelo interesse que mostrava em proporcionar ao filho ocasião de fazer um curso brilhante nas escolas superiores. “Meu pai – assim se exprime Santo Agostinho – fez tudo para me adiantar neste mundo. Pouco se lhe dava, porém, de saber se eu era virtuoso, contanto que fosse eloquënte”.

Durante esse tempo, na idade de 16 anos, Agostinho se entregou de corpo e alma aos prazeres, invejando os companheiros, quando se ufanavam de indignidades por eles praticadas, que não lhe tinha sido possível a ele. O tempo que passou em Cartago foi a época mais triste de sua vida. Lá teve um filho, fruto do pecado. Agostinho deu-lhe o nome de Adeodato.

Indescritível era a tristeza e dor que a mãe experimentava, sabendo que o filho encontrava-se em estado tão lastimável. Essa dor ainda redobrou, quando soube que Agostinho se tinha filiado à seita dos maniqueus. Mônica chorou, como se tivesse perdido o filho pela morte. No entanto, não cessou de rezar pelo apóstata, e pediu a pessoas piedosas das suas relações, que unissem as orações às dela, para obter a graça da conversão de Agostinho. Este parecia ficar dia a dia mais orgulhoso e, completamente inacessível, se tornou aos rogos da mãe. Nove anos passou Agostinho nas trevas do erro herético. Mônica teve uma revelação de Deus, que lhe garantiu a conversão do infeliz filho.

Agostinho, entretanto, abriu em Tagaste e mais tarde em Cartago, um curso de retórica. Era um horizonte muito estreito demais Para sua ambição sem limites, que por ideal tinha, adquirir fama mundial; assim, um dia, resolveu ir para a Itália.

Mônica tudo fez para dissuadi-lo desse plano, ou pelo menos alcançar que a levasse em sua companhia. Agostinho, para se livrar das importunações da mãe, fingiu levar um amigo até as embarcações, enquanto ela se hospedaria num albergue perto do porto. Mônica passou a noite toda em oração e pranto e, quando chegou o dia, Agostinho já se achava em alto mar, em demanda de Roma. Chegado à cidade eterna, caiu gravemente doente. Logo que se restabeleceu, lecionou retórica, e as suas preleções tiveram grande afluência.

Na mesma Ocasião, achava-se em Roma uma comissão da cidade de Milão, para pedir ao Prefeito Simaco uma lente de retórica. Agostinho, por meio de proteção dos amigos maniqueus, conseguiu a preferência entre vários concorrentes e seguiu para Milão. Uma Das primeiras visitas que lá fez, foi ao santo Bispo Ambrósio, que o recebeu com toda a cordialidade.

Foi Deus quem guiou os passos do jovem que, sem o saber, já se achava nas malhas da graça divina. A amabilidade com que Ambrósio o tratava, a caridade que encontrava e, principalmente, a eloqüência arrebatadora do santo bispo, fizeram com que o coração de Agostinho se abrisse ao conhecimento da verdade. Se antes era de opinião que contra as provas do maniqueísmo não havia argumentação, as prédicas de Santo Ambrósio desfizeram essa pretensão. Pouco a pouco conheceu que o sistema da heresia apresentava grandes lacunas, e finalmente se curvou diante da força da verdade.

Agostinho pediu para ser inserido na lista dos catecúmenos. Sabendo quanta mágoa no passado causara à mãe, previa o grande prazer que lhe deveria causar a notícia de sua conversão. Mônica, de fato, veio a Milão, mas nenhuma demonstração deu de satisfação, por ter o filho deixado a heresia. Para Agostinho mesmo, seguiram-se dias de graves lutas internas, pois eram precisas resoluções hercúleas, para quebrar os grilhões de maus hábitos, adquiridos em longos anos e deixar-se levar unicamente pelo suave impulso da graça divina.

Em certa ocasião, recebeu a visita do amigo Ponticiano, que lhe contou a vida de Santo Antão. Foi a hora da graça triunfar. Agostinho confessa que, ao conhecer a vida do grande eremita, ficou profundamente comovido, e tão forte foi esta comoção, que se viu tomado de verdadeiro horror do pecado. Não foi só isto: Deus interveio diretamente na história desta célebre conversão. Quando um dia Agostinho se achava à sombra duma figueira, ouviu perfeita e distintamente as palavras: “Toma e lê”. Instintivamente abriu o primeiro livro que se lhe achava à mão. Eram as epístolas de São Paulo. Abrindo-o, topou com os versos: “Caminhemos como de dia, honestamente, e não em glutonarias e bebedeiras, não em desonestidades e dissoluções; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais uso da carnes em seus apetites”. (Rom 13, 13). Tendo lido isto, não quis mais prosseguir. Fez-se-lhe luz na alma. A tristeza estava-lhe transformada em alegria e, tomado dessa alegria, procurou o amigo Alípio, fazendo-o participante de sua satisfação. Alípio abriu o livro e leu adiante as palavras, que Agostinho não tinha visto: “Ao que é ainda fraco na fé, ajudai-o”. (Rom 14, 1) Apoderou-se também de Alípio grande comoção, que o levou a acompanhar Agostinho na conversão.

Não tardaram a levar à Santa Mônica esta boa nova. O coração da pobre mãe transbordou de alegria, quando a recebeu e ouviu de que modo se realizara a transformação no coração do filho. Deus tinha-lhe, afinal, ouvido-lhe a oração, e não só isto: A conversão de Agostinho dera-se de maneira tão extraordinária, como nunca podia esperar.

Depois, em companhia de sua mãe, de Navígio, seu irmão, Adeodato, seu filho e Alípio, retirou-se para a casa de campo de um amigo, a fim de preparar-se para o santo Batismo. Recebido este, renunciou a tudo que é do mundo: Riqueza, dignidades e posição. O único desejo que tinha era servir a Deus, sem restrição alguma e, para poder pô-lo em prática, formou uma espécie de congregação, composta de amigos e patrícios, que já se achavam em sua companhia. Mônica cuidava de todos, como se fossem seus filhos. Havia ainda uma dificuldade: achar um lugar onde pudesse, como desejava, viver em comunidade. Resolveram voltar para a África. Quando chegaram ao porto de Óstia, morreu Mônica, e Agostinho deu-lhe sepultura lá mesmo. Chegado a Tagaste, vendeu todos os bens, em benefício dos pobres. Escolheu um lugar perto da cidade onde, durante três anos, levou com os companheiros, uma vida igual à dos primeiros eremitas do Egito.

Negócios urgentes chamaram-no a Hipona. O bispo daquela cidade era Valério. Em diversas ocasiões se dirigiu aos diocesanos, expondo-lhes a necessidade de ordenar sacerdotes. O povo, conhecendo as virtudes e talentos de Agostinho, o propôs ao Antístite, como candidato digno. Embora Agostinho relutasse, alegando indignidade, Valério conferiu-lhe as ordens maiores. Uma vez sacerdote, Agostinho pediu ao Prelado licença para fundar um convento em Hipona e, para esse fim, Valério lhe deu um grande terreno, nas proximidades da Igreja.

Muitos outros conventos ainda se fundaram na África setentrional e Agostinho, com razão, é considerado fundador e organizador da vida monástica.

Em 395, a pedido e insistência do bispo Valério, foi Agostinho sagrado bispo. A nova posição não mais lhe permitia a permanência no convento. Para não perturbar a vida monástica, com as freqüentes visitas que havia de atender, transferiu residência para outra casa, onde foi viver em companhia de sacerdotes, diáconos e subdiáconos.

Naquela pequena comunidade, reinavam os costumes dos primeiros cristãos. A ninguém era permitido ter propriedade. O que possuíam, servia à comunidade. Ninguém era admitido, que não se ligasse pela promessa de sujeitar-se a esse regulamento.

À mulher, era vedada a entrada. Nessa proibição estava a própria irmã de Agostinho, que era viúva e superiora num convento religioso. Se o múnus pastoral lhe impunha a visita a uma pessoa de outro sexo, fazia-se acompanhar por um dos sacerdotes.

Duas ordens religiosas tiveram sua origem da comunidade fundada por Santo Agostinho em Tagaste: A dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e dos Agostinianos, propriamente ditos, chamados também Eremitas de Santo Agostinho. Ambas as Ordens acham-se também estabelecidas no Brasil. Outra Congregação baseada nos ensinamentos de Santo Agostinho foi a da Congregação das Religiosas de Nossa Senhora, Cônegas Regulares de Santo Agostinho, fundada em 1597 por São Pedro Fourier e o venerável Aleixo lê Clerc.

No ano de 1244, durante o pontificado de Inocente IV, eremitas de Toscana também adotaram a regra. Duas outras congregações menores, que já viviam sob a regra agostiniana, acabaram unindo-se e os três segmentos uniram-se, formando uma só congregação. Posteriormente, a Ordem sofreu reforma e, dois novos segmentos (filiais) foram criados, ou seja, Ordem dos Agostinianos Descalços e a Ordem dos Agostinianos Recoletos.

35 anos tinha Santo Agostinho governado a Igreja de Hipona, quando a África sofreu a invasão dos Vândalos e Alanos que, vindo das Gálias e da Espanha, comandados por Genserico, devastaram toda a região norte-africana. Para Agostinho, havia a possibilidade de se pôr a seguro. Preferiu, entretanto, partilhar a sorte do seu rebanho. Esperando a cada momento a tomada da cidade pelas hordas invasoras, rodeado de amigos e de bispos fugitivos, a alma cheia de dor e amor, pediu a Deus que salvasse a África ou aceitasse o sacrifício de sua vida. Acometido de uma febre violenta, sob a recitação dos salmos penitenciais, morreu na idade de 76 anos, em 28 de agosto de 430. Levou consigo ao túmulo a Igreja africana, a própria África com sua alta cultura e civilização. Depois dos Vândalos vieram os maometanos, e com eles o extermínio do cristianismo naquelas regiões.

Grandes são os tesouros espirituais que Agostinho deixou à Igreja, nos seus livros, que apresentam eterno valor. Por especial providência, aconteceu que no grande incêndio que os Vândalos causaram na tomada de Hipona, fossem poupadas a Igreja e a biblioteca do grande Bispo.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

27 de Agosto - São José Calazans, Confessor

Foi com surpresa que os habitantes do palácio do nobilíssimo D. Pedro de Urgel, Barão de Peralta de la Sal, na Católica Espanha, viram seu filho de cinco anos, em 1561, correr pela casa armado de um punhal, que havia tirado da panóplia paterna, atrás de algo. Do quê? Indagavam-se. De nobre estirpe guerreira, o sangue bélico fervia-lhe nas veias. Dotado também de profundo senso religioso, ouvira dizer que o demônio, inimigo dos homens, procurava por toda parte e meios possíveis perdê-los eternamente. Resolvera então, como bom filho de batalhadores, aniquilá-lo. Chegando assim armado ao sótão do imenso edifício onde só havia trastes e coisas fora de uso, viu de repente, de um canto, sair voando negra figura alada – provavelmente um morcego – em espavorida fuga: “Foges, covarde?! Não te atreves a enfrentar minha ira?” interpelou com desprezo o valente campeão de calças curtas (1).
Esse traço mostra a têmpera de alma desse intrépido soldado de Jesus Cristo, que de diferentes formas muito dano iria causar ao demônio, e que por ele seria perseguido até o fim de sua longa vida.
Coube-lhe a glória de “haver aberto a primeira das escolas gratuitas para meninos do povo”, e é graças a ele que “a religião pode dizer que o ensinamento dos pobres lhe pertence por direito de nascença e de conquista” (2).
Da Espanha para o centro da Cristandade
O jovem filho do Barão de Peralta, tendo estudado nas melhores universidades, e falando perfeitamente a língua latina, doutorou-se em Direito civil e eclesiástico. Um conceituado biógrafo do Santo observa que ele, “escuta os teólogos, discute com agudeza os subtis problemas da metafísica, faz versos, freqüenta o trato dos homens sábios e santos, e, aos 20 anos, tem todo o prestígio dos grandes mestres. .... Alto, robusto, atlético, ombros largos, organismo de aço, cabeleira loura abundante, José parecia chamado a aumentar com bélicas façanhas os brasões de seus antepassados” (3). Entretanto o brilhante estudante resolvera seguir a carreira eclesiástica.
Mas, falecendo-lhe o irmão mais velho, o pai quis forçá-lo a casar-se para substituí-lo na baronia e assegurar a dinastia. José recomendou-se à Rainha do Céu, de quem era devotíssimo. Foi atacado então por uma moléstia mortal, que o levou à beira do sepulcro. Quando todos choravam à sua cabeceira, perguntou ao pai se lhe seria permitido seguir sua vocação caso se curasse. O Barão, que já via o filho defunto, em lágrimas concordou. Contra todas as esperanças, José começou a recuperar-se tão rapidamente, que em pouco tempo preparava-se para o sacerdócio. Assim recebeu a ordenação sacerdotal no ano de 1583.
Depois de trabalhar nas dioceses de Huesca, Albarracín e Urgel, atendendo a uma voz interior, o herdeiro dos Calazans trasladou-se para Roma, onde se tornou teólogo do Cardeal Colonna. Para satisfazer à sua extrema caridade, entrou em várias arquiconfrarias pias para atendimento de presos, doentes e crianças.
Congregação das Escolas Pias: obra providencial, de futuro, traída
Ao passar pela área do Transtevere, bairro popular de Roma, em suas obras de caridade, José sentia o coração opresso ao ver meninos vagabundeando pelas ruas, sem instrução e expostos a todos os riscos e vícios. Tentou obter para eles lugar nas escolas subvencionadas pelo Poder Público, mas encontrou as maiores dificuldades. Concebeu então o plano de fundar uma escola inteiramente gratuita para meninos, encontrando eco no pároco de Santa Dorotéia. Este não só lhe ofereceu duas salas paroquiais, mas associou-se a ele na labuta.

Aos poucos o número de alunos foi crescendo e mais dois sacerdotes uniram-se aos já existentes. Tornou-se então necessário mudar para lugar mais amplo, sendo-lhes oferecido o Palácio Vestri, junto à igreja Santo Andrea della Valle. Com a vinda de mais auxiliares, tomou aí corpo a congregação dos Pobres da Mãe de Deus e das Escolas Pias, que o Papa Paulo V “quis que se chamasse Paulina, honrando-a com seu nome para dar a entender que era obra sua” (4).
Os novos religiosos ensinavam aos alunos as primeiras letras, aritmética e gramática, instruindo-os ao mesmo tempo nos princípios religiosos e bons costumes.

A princípio, a obra de São José de Calazans encontrou aplauso universal e a proteção de Cardeais, Príncipes, nobres. Houve no início grande número de candidatos dessa classe social, que foram modelos de perfeição. Mesmo assim o Santo não podia atender a todos os pedidos de fundação por falta de religiosos em número suficiente.

“Luta de Classes” interna: irmãos leigos X Clérigos

Aos 20 anos da fundação, as Escolas Pias já se haviam difundido pela maior parte das cidades italianas, pela França, Alemanha, Hungria e Polônia, havendo pedidos insistentes para seu estabelecimento provenientes da Espanha e Boêmia. O fundador escrevia a um súdito que, “se eu tivesse 10 mil religiosos, em menos de um ano teria onde empregá-los” (5).

Contribuía muito para a popularidade dessa obra o fato de seu fundador ser um taumaturgo a quem se atribuíam milagres estupendos, inclusive ressurreições.

José de Calazans pedia constantemente a Deus a graça de morrer pregado à Cruz, com Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa Cruz lhe veio da parte de quem menos podia esperar: dos seus próprios filhos! Imitou assim o Divino Redentor não só na Crucifixão mas também como vítima da traição de novos Judas.

Apesar de possuir todas as graças de fundador, a Providência permitiu que São José, para atender às contínuas demandas, aceitasse em sua Congregação, sem muita seleção, principalmente para irmãos leigos, pessoas que depois ser-lhe-iam causa de muita tristeza. Pois, mais adiante, devido à escassez de pessoal docente, começou a escolher os mais inteligentes desses irmãos leigos para a docência.

Ora, assim promovidos e esquecendo-se de todo espírito religioso, iniciaram eles uma revolução interna na Congregação. “No princípio, os alvoroços tiveram um caráter que poderíamos chamar mais bem de democrático e social. Foi uma luta de classes de [irmãos] leigos contra clérigos, de coadjutores contra sacerdotes” (6). Os irmãos leigos promovidos quiseram primeiro obter o privilégio de usar chapéu, como os professores sacerdotes. Foi-lhes concedido. Exigiram então a tonsura, que a custo obtiveram. Aspiraram em seguida ao sacerdócio. E, “resolvidos a conquistar a igualdade suspirada, começaram a conjurar, a rebelar-se, a inquietar o instituto e a buscar os apoios de gente do século” (7). A rebelião chegou mesmo à agressão física.

“Compreendendo que havia sido demasiado acessível na admissão do pessoal, o fundador esforçava-se agora para selecioná-lo, animando os dissidentes a passar para outras Ordens, e mostrando-se mais rigoroso com os noviços. ‘Não temais ¾ escrevia a seus lugares-tenente ¾ abrir 100 portas em lugar de uma para que saiam todos os religiosos; e fechem noventa e nove e meia para permitir a entrada aos que se apresentem’” (8).


Provincial ambicioso lidera a rebelião

Como sempre acontece, logo surgiu um ambicioso: um dos provinciais do Santo, aproveitando-se da situação, lidera a revolta. E, “seu caso é tão monstruoso, quanto incrível seu triunfo”, comenta o mencionado biógrafo (9). Apoiado nada menos do que pelo Santo Ofício, obteve ele a prisão do venerando fundador nos cárceres da Inquisição. E o povo de Roma viu atônito aquele ancião de 86 anos, até então um dos homens mais populares da cidade e já tido como Santo, levado como prisioneiro pelas ruas, com seus quatro principais assessores. Foram libertos na mesma tarde e carregados em triunfo pelo povo, mas... o Santo fundador via-se destituído do cargo de superior perpétuo passando a simples religioso, enquanto os chefes rebeldes assumiam as rédeas do governo.

Houve reação, principalmente da parte de vários Príncipes, tendo o Pontífice Inocêncio X, que sucedeu a Urbano VIII encarregado “ uma congregação de cardeais entendida nos assuntos das ordens religiosas [a estudar a questão], os quais determinaram que o servo de Deus devia ser reintegrado no generalato com seus quatro assistentes depostos. Não obstante ... não só não teve efeito esta resolução senão que, exageradas por seus fomentadores as turbações domésticas, e fomentadas ou não corrigidas pelo segundo visitador, o Sumo Pontífice expediu, em 1646, um Breve reduzindo a Congregação das Escolas Pias à congregação de sacerdotes regulares, como a de São Felipe Néri” (10). Em outros termos, de religiosos com os três votos e obediência ao superior da Congregação, passaram a ser sacerdotes seculares, sob a dependência dos Ordinários locais...Era o fim da obra.

Revanche da Providência Divina:restauração da Congregação post-mortem
O calvário de São José de Calazans chegara ao fim. Assistiu assim com tranqüilidade a extinção da obra à qual dedicara meio século de sua existência, vendo em todo o ocorrido somente a vontade de Deus.
Morreu aos 92 anos, alegre, teve a revelação ¾ que comunicou aos presentes junto ao seu leito de morte ¾ de que sua obra ressuscitaria. E assim foi, pois em 1656 sua querida Congregação foi restaurada.
A honra de Deus e de Seu fiel servidor foram desagravadas com a beatificação de José de Calazans, em 1748, e posterior canonização, menos de 20 anos depois.
O que aconteceu com seus verdugos? É certo que já prestaram sérias contas a Deus por seus atos, e que não deixaram traço de seus nomes para a posteridade...
_______________________________
Notas
1 – Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones FAX, Madrid, 3ª edição, 1945, tomo III, pp. 454,455.
2 – Les Petits Bollandistes – Vies des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo X, p. 265.
3 – Fr. Justo de Urbel, op. cit., p. 455.
4 – Dr. Eduardo María Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González Y Compañía, Barcelona, 1897, tomo III, p. 403.
5 – Id. ib. p. 406.
6 – Fr. Justo Pérez de Urbel, op. cit., p. 459.
7 - Id. ib., p. 460.
8 – Id. ib., p. 461.
9 – Id. ib., p. 461.
10 – Dr. Eduardo Vilarrasa, op. cit., p. 406.

Fonte: Catolicismo

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Preparação para a morte: Da conformidade com a vontade de Deus


Et vita in voluntate ejus. E a vida, em sua vontade (Sl 29,6).

PONTO I

Todo fundamento da saúde e da perfeição das nossas almas consiste no amor de Deus. “Quem não ama está morto. A caridade é o vínculo da perfeição” (Jó 3,14; Cl 3,14). Mas a perfeição do amor é a união da nossa própria vontade com a vontade divina; por-que nisto se cifra — como disse o Areopagita — o principal efeito do amor, em unir de tal modo a vontade dos amantes, que não tenham mais que um só coração e um só querer. Portanto, as nossas obras, penitências, esmolas, comunhões, só agradam ao Senhor enquanto se conformam com sua divina vontade; de outra maneira não seriam virtuosas, mas vi-ciosas e dignas de castigo.

Isto, particularmente, nos manifestou com seu exemplo o nosso Salvador, quando do céu desceu à terra. Isto, como ensina o Apóstolo, disse o Senhor ao entrar neste mundo: “Vós, meu Pai, recusastes as vítimas oferecidas pelo homem e quereis que vos sacrifique a vida deste corpo que me destes. Cumpra-se vossa divina vontade” (Hb 10,57).

Isto também declarou muitas vezes, dizendo que tinha vindo à terra só para fazer a vontade de seu Pai (Jo 6,38). Quis assim patentear-nos o infinito amor que tem ao Pai, a ponto de entregar-se à morte para obedecer à sua divina ordem (Jo 14,31). Declarou, além disso, que reconheceria por seus unicamente aqueles que fazem a vontade de seu Pai (Mt 12,50) e, por esta razão, o único fim e desejo dos Santos em todas as suas obras tem sido o cumprimento da mesma. O beato Henrique Suso exclama: “Preferiria ser o verme mais miserável da terra, por vontade de Deus, do que um serafim por minha vontade própria”. Santa Teresa disse que aquele que se exercita na oração terá que procurar conformar sua vontade com a divina e que nisto consiste a mais elevada perfeição; o que mais sobressair nesta prática receberá de Deus maiores dons e se adiantará mais na vida interior. Os bem-aventurados na glória amam a Deus perfeitamente porque sua vontade está unida e conforme inteiramente com a vontade divina. Por isso, Jesus Cristo nos ensinou a pedir a graça de fazer na terra a vontade de Deus assim como os Santos a fazem no céu. Fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Quem assim o fizer será homem segundo o co-ração de Deus, como o Senhor chamava David1, porque este estava sempre pronto a cumprir o que Deus queria (Sl 6,8: 107,1); e continuamente lhe pe-dia que lhe ensinasse a executá-lo (Sl 142,10).

Que merecimento tem um só ato de perfeita resignação à vontade de Deus! Bastaria para santificar-nos... Quando Paulo persegue a Igreja, Cristo lhe a-parece, ilumina-o e o converte com sua graça. O Santo, então, se oferece a cumprir o que Deus lhe mandar... “Senhor, que queres que eu faça? (At 9,6). E Jesus Cristo o proclama “vaso de eleição e apóstolo das gentes” (At 9,15). Aquele que jejua, dá esmola e se mortifica por amor de Deus, dá uma parte de si mesmo; aquele, porém, que submete a Deus a sua vontade dá-lhe tudo quanto tem. É isto o que Deus nos pede, quer dizer, o coração, a vontade (Pr 23,26). Este fito hão de ter, em suma, todos os nossos desejos, devoções, comunhões e demais obras de piedade: o cumprimento da vontade divina. Este é o norte e a mira de nossa oração: impetrar a graça de fazer o que Deus exige de nós. Para a execução destas resoluções, incumbe pedir a intercessão de nossos santos protetores, especialmente a de Maria Santíssima, a fim de que nos alcancem luzes e forças para conformidade da nossa vontade com a de Deus em todas as coisas e sobretudo naquelas que repugnam ao nosso amor próprio... Dizia o beato M. P. Ávila: “Mais vale um bendito seja Deus dito na adversidade, que mil ações de graças nas ocasiões prósperas”.

AFETOS E SÚPLICAS

Ah, meu Senhor! Todas as minhas desgraças procedem de não querer render-me à vossa santa vontade. Maldigo e aborreço mil vezes aqueles dias e aquelas ocasiões em que, para satisfazer ao meu de-sejo, contradisse e me opus ao vosso querer, ó Deus de minha alma!...

Agora vos consagro minha vontade sem reserva. Aceitai-a, meu Deus, e prendei-a de tal modo ao vosso amor, que não possa rebelar-se outra vez. Amo-vos, Bondade infinita, e pelo amor que vos professo, ofereço-me inteiramente a vós. Disponde de mim e de todas as minhas coisas como vos aprouver e que eu em tudo me resigne gostosamente à vossa 118 santíssima vontade. Livrai-me da desgraça de contrariar os vossos desejos, e fazei de mim o que vos a-grada. Ouvi-me, ó Pai Eterno, pelo amor a Jesus Cristo. Ouvi-me, meu Jesus, pelos merecimentos de vossa Paixão.

E vós, Maria Santíssima, socorrei-me e alcançai-me a graça de cumprir sempre a vontade divina, na qual se cifra minha salvação. E nada mais vos pedi-rei.

V/: Requiem aeternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. R:/ Amém.


Fonte: Preparação para a Morte - Santo Afonso Maria de Ligório - Considerações sobre as verdades eternas - Tradução de Celso de Alencar - Versão PDF de FL. Castro - 2004 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

25 de Agosto - São Luís Rei de França, Confessor


Luís IX, rei da França, nasceu no dia 25 de abril de 1215, no castelo real de Poissy. Era filho de Luís VIII e de Branca de Castela, ambos piedosos e zelosos, que o cercaram de cuidados, especialmente após a morte do primogênito. Trataram pessoalmente da sua educação e formação religiosa. Foram tão bem sucedidos que Luís IX tornou-se um dos soberanos mais benevolentes da história, um fervoroso cristão e fiel da Igreja.

Com a morte prematura do seu pai em 1226, a rainha, sua mãe, uma mulher caridosa, de grandes dotes morais, intelectuais e espirituais, tutelou o filho, que foi coroado rei Luís IX, pois ele era muito novo para dirigir uma Corte sozinho. Tomou as rédeas do poder e manteve o filho longe de uma vida de depravação e de pecado, tão comum das cortes. Mas Luís, já nessa idade, possuía as virtudes que o levaram à santidade - a piedade e a humildade -, e que o fizeram o modelo de "rei católico".

Em 1235, casou-se com Margarida de Provença, uma jovem princesa, que, assim como ele, cultivava grandes virtudes. O marido reinou com justiça e solidariedade. Possuía um elevado senso de piedade, incomum aos nobres e poderosos de sua época. Tinha coração e espírito sempre voltados para as coisas de Deus, lia com freqüência a Sagrada Escritura e as obras dos santos Padres e aconselhava-as a todos os seus nobres da Corte. Com o auxilio da rainha, fundou igrejas, conventos, hospitais, abrigos para os pobres, órfãos, velhos e doentes. O casal real teve dez filhos, todos educados como eles e por eles. E o resultado dessa firme educação cristão foram reis e rainhas de muitas cortes, que governaram com sabedoria, prudência e caridade.

Depois de ter adquirido de Balduíno II, imperador de Constantinopla, a coroa de espinhos de Cristo, que, segundo a tradição, era a mesma usada na cabeça de Jesus, ele mandou erguer uma belíssima igreja para abrigá-la numa redoma de cristal. Trata-se da belíssima Sainte-Chapelle, que pode ser visitada em Paris.

Acometido de uma grave doença, em 1245 Luís IX quase morreu. Então, fez uma promessa: caso sobrevivesse, empreenderia uma cruzada contra os turcos muçulmanos que ocupavam a Terra Santa. Quando recuperou a saúde, em 1248, apesar das oposições da Corte, cumpriu o que havia prometido. Preparou um grande exército e, por várias vezes, comandou as cruzadas para a Terra Santa. Mas em nenhuma delas teve êxito. Primeiro, foi preso pelos muçulmanos, que o mantiveram no cativeiro durante seis anos. Depois, numa outra investida, quando se aproximava de Tunis, foi acometido pela peste e ali morreu, no dia 25 de agosto de 1270.

Os cruzados voltaram para a França trazendo o corpo do rei Luís IX, que já tinha fama e odor de santidade. O seu túmulo tornou-se um local de intensa peregrinação, onde vários milagres foram observados. Assim, em 1297 o papa Bonifácio VIII declarou santo Luís IX, rei da França, mantendo o culto já existente no dia de sua morte.





Fonte: Paulinas

sábado, 23 de agosto de 2014

XI Domingo Depois de pentecostes: "Ephpheta! - Abre-te!" (Ev.)

"Ephpheta! - Abre-te!"
Separado das doze tribos do Norte, apenas morto Salomão e o reino de Judá durou 350 anos e contou vinte monarcas. Muitos entre eles foram ímpios e maus, tendo alguns como Salmão, acabado no pecado, quatro no entanto se distinguiram-se na virtude e armas que mereçam ser colocados em veneração do povo da Galiléia e dos varões ilustres de Israel. Ezequias que hoje nos recorda o breviário: "Confiou no Senhor, Deus de israel, e não teve semelhantes nos reis de judá. Por isso Deus foi sempre com ele. Quando Senacarib, rei dos assírios, se quis apoderar de Jerusalém, Ezequias subiu no templo e orou com tanto fervor como teria orado Davi e Salomão. Mandou-lhe então o Senhor o profeta Isaías para anunciar-lhe que não temesse. E com efeito o anjo exterminador do Senhor feriu de peste 185.000 assírios e Senacarib teve que retornar em marchas forçadas para Nínive. Alguns anos mais tarde caia o rei doente, e Isaías tinha anunciado-lhe que havia terminado seus dias. Temeu então Ezequias que Senacarib aproveitasse de sua morte para se vingar da derrota e cercar Jerusalém e pediu ao Senhor que prolongasse sua vida. Mais uma vez o Senhor ouviu as orações de Ezequias como nos descreve as Sagradas Escrituras: "Ouvi tuas orações e ouvi tuas lágrimas e curar-te-ei e subirás ao templo no terceiro dia." O Rei convalesceu, com efeito e Jerusalém foi libertada do terror dos inimigos. Ezequias prostado no leito e levantando três dias depois para defender o reino é a figura da morte e ressurreição do Senhor. Este pensamento domina toda a missa.

Santo Ezequias diante do Templo
O intróito proclama a vitória do povo de Deus e a fuga dos inimigos. Na epístola insiste São Paulo na ressurreição de Cristo, fundamento e garantia de nossa predestinação. No Evangelho, finalmente a cura do surdo e mudo com o Ephpheta que o Senhor pronunciou e a Igreja aplicou sabiamente no rito do batismo, recorda-nos que, passados da morte para a vida, ficamos daí em diante também "abertos" as coisas da fé.

Podemos também dizer que a escolha para o ofertório de um dos versículos do salmo 29 aplicado pela tradição da Igreja à ressurreição e ascensão do Senhor fora inspirada pela mesma ordem de idéias. De modo que a missa de hoje apresenta-se como uma espécie de tríptico. No primeiro plano, destaca-se a figura de Cristo ressurgindo glorioso do sepulcro; no painel da esquerda, Ezequias prostrado pela doença e curado por deus; à direita os frutos da vitória de Cristo aplicados ao povo pelo batismo.

É pois um programa de vida magnífico. Oxalá o ponhamos em práticas para vivermos com Cristo a vida nova e a que fomos chamados pela fé.

Profeta Santo Isaías

 Epístola:
leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Coríntios (ICor 15, 1-10) - Irmãos: Eu vos lembro, irmãos, o Evangelho que vos preguei, e que tendes acolhido, no qual estais firmes. Por ele sereis salvos, se o conservardes como vo-lo preguei. De outra forma, em vão teríeis abraçado a fé. Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado, e ressurgiu ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas, e em seguida aos Doze. Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos); depois apareceu a Tiago, em seguida a todos os apóstolos. E, por último de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a graça de Deus que está comigo.
Evangelho de domingo:



Continuação do santo evangelho segundo São Marcos. Naquele tempo: Saindo Jesus dos confins de Tiro, foi por Sidônia ao mar da Galiléia, atravessando o território da Decápole. E trouxeram-lhe um surdo-mudo, e suplicavam-lhe que lhe impusesse a mão. Então Jesus, tomando a parte dentre a multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos, e cuspindo, com saliva tocou a sua língua. E, levantando os olhos ao Céu, deu um suspiro, e disse-lhe: Ephpheta, que quer dizer, abre-te. E imediatamente se lhe abriram os ouvidos, e se lhe soltou a prisão da língua, e falava claramente. E Jesus ordenou-lhes que a ninguém o dissessem. Porém, quanto mais lho proibia, tanto mais o publicavam, e tanto mais se admiravam, dizendo: Tudo tem feito bem, fez que ouçam os surdos e falem os mudos.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

24 DE AGOSTO - SÃO BATORLOMEU APÓSTOLO





Bartolomeu é provável o discípulo que Felipe apresentou ao Senhor pelo nome de Natanael e que mereceu do Divino Mestre o seguinte elogio: "Eis aqui um verdadeiro israelita em quem não há engano" (São João 1,47). São Lucas conta-o entre os doze que Jesus escolheu, depois de orar toda a noite, para serem testemunhas da sua vida, de sua doutrina e milagres, e depois da ressurreição, pregadores do Evangelho. Não é fácil determinar qual foi o seu campo de apostolado. É de crer a tradição, que teria sido esfolado vivo, e desta maneira o represanta na iconografia e na magnífica estátua de mámore de Cibó, na catedral de Milão. As suas relíquias foram tranladadas de Benevento para a Igreja de São Bartolomeu na pequena ilha formada pelo Tibre. O seu nome vem no Cânon da missa. A oração da Santa missa exprime a preocupação da Santa Igreja em continuar a obra dos Apóstolos em guardar o sagrado depósito da fé que deles herdou.

Epístola

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Corintios (I Cor 12,27-31). Irmãos: Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros. Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os apóstolos, em segundo lugar os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm o dom dos milagres, o dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas. São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (6, 12-19) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Jesus retirou-se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles que chamou de apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor. Descendo com eles, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judéia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

22 de Agosto - FESTA DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA



Depois de ter em plena guerra consagrado o gênero humano ao imaculado coração de Maria para o colocar por esse modo por debaixo da particular proteção da Mãe do Salvador, S. Santidade Pio XII decretou que em 1944 que todos os anos se celebrasse doravante na Igreja inteira uma festa especial em honra de Coração Imaculado no dia 22 de Agosto. É já antiga a devoção ao Coração Imaculado de Nossa Senhora. No século XVII propagou-a muito São João Eudes juntamente com a do Sagrado Coração de jesus. No século XIX o Papa Pio VII e Pio IX concederam as várias Igrejas particulares uma festa "do Coração Puríssimo de Maria", fixada primeiramente no domingo depois da Assunção e mais tarde no sábado que se segue a festa do Sagrado Coração. Pio XII transferiu-a para 22 de Agosto e designou como principal intenção pedir, por intercessão da Santíssima Virgem, a "paz para os povos, a liberdade da Igreja, a conversão dos pecadores, o amor da pureza, e prática da virtude" (decreto de 4 de maio de 1944).


Epístola

Leitura do Livro de Sabedoria (24, 23-31): Naqueles dias: Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância. Sou a mãe do puro amor, do temor (de Deus), da ciência e da santa esperança, em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos de meus frutos; pois meu espírito é mais doce do que o mel, e minha posse mais suave que o favo de mel. A memória de meu nome durará por toda a série dos séculos. Aqueles que me comem terão ainda fome, e aqueles que me bebem terão ainda sede. Aquele que me ouve não será humilhado, e os que agem por mim não pecarão. Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São (19, 25-27) : Naquele tempo: Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Santo Ofício: Desmascarando as Testemunhas de jeová - Deve se acreditar na Trindade? (Parte II)

4. A antiga Tradição
Na geração que se seguiu imediatamente aos Apóstolos, há testemunhos de fé trinitária em continuidade com os do Novo Testamento. Tenham-se em vista, por exemplo, os seguintes:
1) o rito batismal era ministrado em nome das três Pessoas Divinas, em conformidade com Mt 28,19. Assim atesta a Didaqué, catecismo da Igreja nascente redigido no fim do século I:
"No que diz respeito ao Batismo, batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo em água corrente. . . Derramai três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (no 7).
S. Justino (+165 aproximadamente) escreve:
"Os que devem ser batizados, são levados por nós a um lugar onde haja água, e são regenerados da mesma maneira como nós fomos regenerados. Com efeito; é em nome do Pai de todos e Senhor Deus e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo que recebem a loção na água. Este rito nos foi entregue pelos Apóstolos" (Apologia I, no 61).
Tertuliano (+220): "Foi estabelecida a lei de batizar e prescrita a fórmula: 'Ide, ensinai os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo' (Mt 28,19)" (De Baptismo c 13).
2) Os escritores mais antigos expressam a sua fé trinitária em passagens como:
"Um Deus, um Cristo, um Espírito de graça" (S. Clemente Romano, +100 aproximadamente, Aos Coríntios 46,6).
"Como Deus vive, vive o Senhor e vive o Espírito Santo" (S. Clemente Romano, ib. 58,2).

"Vos sois as pedras do templo do Pai, elevado para o alto pelo guindaste de Jesus Cristo que é sua Cruz, com o Espírito Santo como corda" (S. Inácio de Antioquia, 1107, Aos Efésios 9,1). •

"Mantende-vos. . . na fé e na caridade, no Filho e no Pai e no Espírito, no princípio e no fim. . . Sede submissos ao Bispo e uns aos outros, como Cristo segundo a carne se submeteu ao Pai, e os Apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, a fim de que a unidade seja, ao mesmo tempo, carnal e espiritual" (Aos Magnésios, 13,1s).

"Eu te louvo, Deus da verdade. Te bendigo, Te glorifico por teu Filho Jesus Cristo, nosso eterno e sumo Sacerdote no céu; por Ele, com Ele e o Espírito Santo, glória seja dada a Ti, agora e nos séculos futurosl Amém" (S. Policarpo, 1/56, Martírio, 14,1-3).

"Já temos mostrado que o Verbo, isto é, o Filho esteve sempre com o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espírito estava igualmente junto dele antes de toda a criação" (S. Ireneu, acerca de 202, Adversus Haereses IV 20,4).

Muito significativo é o texto do apologista cristão Atenágoras, +180:

"Como não se admiraria alguém de ouvir chamar ateus os que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e o Espírito Santo, ensinando que o seu poder é único e que sua distinção é apenas distinção de ordens?" (Súplica pelos Cristãos, c 10).-,

3) A palavra "tríade" ou "trindade" (triás, em grego) aparece pela primeira vez nos escritos de Teófilo de Antioquia (+ após 181), exprimindo de maneira mais sistemática a doutrina consagrada pela S. Escritura; com efeito, ao referir-se aos dias da criação em Gn 1, diz o autor: "Os três dias que precedem o aparecimento dos luzeiros, são tipos da Trindade: de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria" (A Autólico, I. II, c. 14). O fato de que Teófilo usa a palavra triás como um termo corrente, sem necessidade de explicação, leva a crer que tal vocábulo não foi introduzido por Teófilo, mas já era usual antes dele.

No século III, como se compreende, a fé dos cristãos na SS. Trindade se manifesta ainda mais eloqüentemente. Os dados bíblicos suscitaram nos teólogos da Igreja o desejo de penetração sistemática, pois a teologia é fides quasrens intellectumfé que procura compreender. Registrou-se então o debate teológico, do qual vão, a seguir, reproduzidos os principais traços.

5. As controvérsias trinitárias
As primeiras tentativas de conciliar unidade e trindade em Deus foram falhas: tendiam a subordinar o Filho ao Pai (o Espírito Santo era menos estudado). Tal teoria nos séculos II e III tomou o nome de monarquianismo (defendia a monarquia divina).
No século IV, o subordinacionismo foi representado por Ario de Alexandria a partir de 315: afirmava ser o Filho a primeira e mais excelente criatura do Pai. Tendo sido concedida a paz aos cristãos em 313, compreende-se que a controvérsia tenha tomado vulto que nunca tivera. Em conseqüência, reuniu-se o primeiro Concílio Ecumênico da história em Nicéia (Ásia Menor) no ano de 325, o qual redigiu uma profissão de fé, que afirmava:
"Cremos. . . em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Pai como Unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz. Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por guem foi feito tudo que há no céu na terra" (DS 125 [54]).
Vê-se que o texto acentua a identidade de substância do Pai e do Filho para afirmar que o Filho não foi criado (quem cria, tira do nada), mas gerado (quem gera se prolonga no filho gerado); o Filho é Deus de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Todavia a disputa não se encerrou em 325. Entre outras questões, restava a das relações do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Após decênios de debates, reuniu-se o Concílio de Constantinopla I em 381, que acrescentou à profissão nicena de fé os dados referentes ao Espírito Santo:
"Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai (cf. Jo 15,26), com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o qual falou pelos Profetas" (DSn° 150 [86]).
Afirmando que o Espírito Santo é adorado com o Pai e o Filho, os padres conciliares queriam incutir a identidade de substância (ou a Divindade) do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Não há, pois, subordinação do Espírito ao Filho ou ao Pai.
Só foi possível aos teólogos chegar à formulação exata do dogma após recorrerem à distinção entre ousía (essência, natureza) e hypóstasis (pessoa). Aquela é única (a Divindade); as pessoas, porém, são três, sem esfacelar nem retalhar a natureza divina, como três são os ângulos de um triângulo sem esfacelar a superfície do triângulo.
A filosofia grega, que primava pelo seu acume lógico, forneceu aos teólogos cristãos o instrumental necessário para que pudessem elaborar a reta fórmula da fé. Não há inconveniente na utilização da razão e dos seus conceitos para se ilustrarem as verdades da fé, contanto que se preserve incólume o conteúdo de Revelação divina. O recurso à filosofia grega não implicou em helenização do Cristianismo; os cristãos eram muito ciosos da identidade da sua fé, a ponto de morrerem como mártires para não a trair. De resto, o estudo objetivo e sereno das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento bem mostra que a doutrina da SS. Trindade é genuinamente bíblica; foi professada na Igreja antes de qualquer apelo à filosofia grega.
O mistério da SS. Trindade estará sempre acima do alcance da razão humana, como, aliás, a vida do próprio Deus em sua unidade é "algo que o olho não viu, o ouvido não ouviu, o coração do homem jamais percebeu" (1Cor 2,9). Isto, porém, não quer dizer que a razão humana não possa descobrir nos seus conceitos e na imagem das criaturas noções que ilustrem de algum modo o mistério de Deus; é precisamente esta a tarefa da teologia. Como todos os estudiosos, os teólogos procedem lentamente, formulando teorias e hipóteses, que o debate vai eliminando e purificando; assim preparam a via para o magistério oficial da Igreja, que não raro mediante Concílios foi definindo nos primeiros séculos as genuínas fórmulas da fé católica.
Podemos aqui referir ainda a objeção que as Testemunhas levantam contra o dogma trinitário, ao dizerem que 1 + 1 + 1 = 3, ou seja, se o Pai é Deus, se o Filho é Deus, se o Espírito Santo é Deus, temos três deuses. Ao que respondemos na mesma linguagem popular: 1x1x1 = 1; vê-se, pois, que a trindade não exclui a unidade desde que o fiel cristão a entenda devidamente: em Deus as três pessoas não multiplicam a natureza e a substância divina, como os três ângulos de um triângulo não multiplicam a figura geométrica.
Quanto à tendência a identificar o Espírito Santo com a Mãe do Filho, ao lado do Pai, na SS. Trindade, deve-se a uma corrente judaica representada pelo apócrifo "Evangelho dos Hebreus" (datado dos séculos I/II). Teve origem em uma seita judeo-cristã dita dos "Nazarenos de Beréia", que estavam distantes das linhas doutrinárias dos demais cristãos; queriam, por exemplo, eliminar do Novo Testamento as epístolas de S. Paulo, tido como apóstata da Lei de Moisés; menosprezavam os Evangelhos canônicos para se aterem somente ao Evangelho segundo os Hebreus. Tal corrente não encontrou ressonância no Cristianismo; em conseqüência, também a interpretação aí dada ao Espírito Santo e à SS. Trindade não teve continuidade.
6. Jeová ou Javé?

As Testemunhas de Jeová têm como fundador Charles-Taze Russell (1852-1916), nascido em Pittsburg (U.S.A.) de família presbiteriana. Em 1870 tornou-se adventista. Como tal, refez os cálculos referentes à segunda vinda de Cristo, que os adventistas tinham previsto para 1843/44; Russell assinalou-a para 1914 e, finalmente, para 1918. Infelizmente, porém, Russell faleceu em 1916.
O sucessor foi o juiz Rutherford, que, tendo ido à Europa em 1920, aí anunciou o início da idade de ouro para 1925. Esse novo líder da seita, até então dita "dos Estudiosos da Bíblia", fez que tomasse o nome de "Testemunhas de Jeová". Rutherford morreu em 1942.
Atualmente as Testemunhas têm seu centro principal em Brooklyn (Nova Iorque), onde são editados dois jornais também traduzidos para o português: 'Torre de Vigia" e "Despertai-vos!"
As Testemunhas acentuaram o retorno ao Antigo Testamento, que os Adventistas já tinham iniciado. Chegam ao ponto de negar a SS. Trindade; chamam Deus pelo apelativo Jeovah, forma tardia e errônea do nome Jahweh. — Com efeito; o nome com que Deus se revelou a Moisés é Vahweh (cf. Ex 3,13-17). Tal era a reverência tributada a este apelativo que os judeus não o ousavam pronunciar a partir do exílio (século VI a.C). Era tido como "o nome que se escreve, mas não se lê". Ao encontrarem escrito tal nome, os Israelitas pronunciavam Adonay (1) (= meu Senhor). Em conseqüência, após o século VI d.C. os rabinos fizeram a fusão das consoantes de I H W H com as vogais de E d O n A y; donde resultou JEHOWAH. Notemos, porém, que ainda no início da Idade Média a pronúncia do vocábulo assim oriundo era sempre Adonay. A pronúncia Jeová é, pela primeira vez, atestada por Raimundo Martini, autor da obra "Pugio Fidei" no ano de 1270; parece, porém, que já estava em uso nas escolas rabínicas anteriores. Só foi adotada pelos cristãos no século XVI; principalmente os protestantes, tendo à frente o calvinista Teodoro Beza de Genebra, lhe deram voga, de modo que as Bíblias protestantes de língua inglesa freqüentemente aduzem o nome Jeová.
Além disto, para as Testemunhas de Jeová, Jesus Cristo é apenas criatura. Esta afirmação faz cair por terra todo o edifício do Cristianismo.
Vê-se, pois, como é infundada a posição antitrinitária das Testemunhas: nem na Bíblia, nem na Tradição encontra apoio; faz, antes, parte da tendência das Testemunhas a retornar ao Antigo Testamento em detrimento da Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

(1) O primeiro era mudo, correspondendo a um e.

7. A SS. Trindade e as fórmulas pagãs
O estudo das religiões comparadas mostra que em algumas correntes religiosas aparecem tríades.
1. A mais simples é a de Pai, Mãe e Filho, ocorrente no Egito antigo sob a forma de Osíris, Isis e Horus. - Ora tal concepção antropomórfica está bem distante da Revelação cristã; o Espírito Santo não é a Mãe de Deus Filho nem é a Esposa de Deus Pai. Ademais a noção do Filho de Deus feito homem e crucificado é totalmente estranha às tradições do Egito e dos povos antigos em geral.
2. Na Índia existe a Trimurti. Tri lembra o no 3, ao passo que murti, em sânscrito e em híndi, quer dizer: corpo sólido, matéria, forma e, principalmente, estátua ou imagem. Designando imagem, murti significa também uma manifestação divina. Trimurti seria, portanto, a tríplice manifestação da Divindade.
Há diversas Trimurti ou manifestações da Divindade na Índia. Assim, por exemplo, existe a Tríade:
Brahma, princípio criador do mundo (ou princípio donde emana o mundo, visto que a noção de produzir a partir do nada ou criar era estranha à Índia); Vishnu, princípio protetor do mundo; Shiva, princípio destruidor do mundo.
Todavia na concepção do hinduísmo não há igualdade entre essas três manifestações da Divindade: Brahma é o deus supremo, impessoal, que no plano dos fenômenos ou das aparências, se manifesta em três deuses diferentes. Brahma assim pode aparecer como a Divindade em seus três aspectos de Criador, Conservador e Destruidor do mundo. Quase não há templos dedicados a Brahma, ao passo que os templos e oratórios consagrados a Vishnu e Shiva se contam aos milhares.
O pensamento filosófico hinduísta pode também dizer que Brahma é, ao mesmo tempo, Existência (Sat), Consciência (Cft) e Felicidade (Ananda) ou Sacádanandabrahma. Estas concepções se distinguem bem da noção cristã de Pai, Filho e Espírito Santo.
A índia é o berço de uma multidão de concepções religiosas, de modo que na mitologia e na iconografia shivaítas, Brahma e Vishnu são algumas vezes um tanto ridicularizados. A tendência do pensamento hinduísta não é a de fazer alternativas e exclusivismos, mas, antes, prefere as sínteses e as complementações (em lugar das oposições).
Encontram-se na índia outras tríades:
Agni, o deus Fogo; Vayu, o deus Vento; Surya, o deus Sol, cada qual reinando no seu próprio setor, ou respectivamente sobre a terra, os ares e o céu.
Sejam mencionados outrossim: os três Vedas ou tipos de escritos sagrados, os três fogos do sacrifício, o tríplice mundo, os três gumas ou qualidades constitutivas do universo .. .
O número 3 é tão estimado pelos antigos e, por isto, tão utilizado na Mística, porque lembra o triângulo eqüilátero, que é imperturbável ou inderrubável e invencível. Três, em conseqüência, era tido como símbolo de perfeição.
A SS. Trindade cristã, embora pareça corresponder à tendência meramente humana de valorizar o número 3, tem um significado e conteúdo teológico que a distanciam de qualquer tríade não cristã, como se verá às pp. 16-21 deste fascículo.
Não nos surpreende o fato de que a SS. Trindade seja considerada um mistério. . . Trata-se da essência do próprio Deus, que definimos como sendo a máxima perfeição; por conseguinte, há de ultrapassar, em riqueza de vida, os limites da inteligência humana. Ultrapassa, porém, sem contradizer as verdades racionais ou a lógica.
A própria fé é um ato racional. Com outras palavras: quem crê, não está renunciando à sua racionalidade. Ao contrário, está a exercê-la, pois a própria razão humana afirma ao homem que a verdade não acaba onde os horizontes do raciocínio acabam. A lógica nos leva a crer; é inteligente ter fé.
A propósito ver
CURSO DE INICIAÇÃO TEOLÓGICA POR CORRESPONDÊNCIA, Módulos 6 e 7, Rua Benjamin Constant, 23, 39 andar. Caixa Postal 1362, 20001 Rio de Janeiro (RJ).

GOMES, CIRILO FOLCH, Riquezas da Mensagem Cristã, 1979.
PATFOORT, ALBERT, O mistério, do Deus Vivo, Ed. Lumen Christi, Caixa Postal 2666, Rio de Janeiro (RJ).

Fonte: Pergunte e Responderemos 1438