terça-feira, 31 de março de 2015

TERÇA-FEIRA SANTA (SEMANA SANTA)







Na Cruz do Senhor está a nossa salvação, vida e ressurreição. É o que nos diz o Intróito da missa de hoje, que se repetirá na Quinta-Feira Santa; o mesmo nas orações. A celebração dos mistérios da nossa Redenção deve operar em nós uma renovação espiritual, penhor da eternidade.

A Epístola, tirada de Jeremias, anuncia a imolação do divino Cordeiro. Sublinha a inocência e serenidade de Jesus, posta em relevo igualmente na narração da Paixão segundo São Marcos.

Epístola
Leitura do profeta Jeremias (11, 18-20) Naqueles dias: Instruído pelo Senhor, eu o desvendei. Vós me fizestes conhecer seus intentos. E eu, qual manso cordeiro conduzido à matança, ignorava as maquinações tramadas contra mim: destruamos a árvore em seu vigor. Arranquemo-la da terra dos vivos, e que seu nome caia no esquecimento. Vós sois, porém, Senhor dos exércitos, justo juiz que sondais os rins e os corações. Serei testemunha da vingança que tomarei deles e a vós confio minha causa.



Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos:

Foram em seguida para o lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse a seus discípulos: Sentai-vos aqui, enquanto vou orar. Levou consigo Pedro, Tiago e João; e começou a ter pavor e a angustiar-se. 
Disse-lhes: A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai. Adiantando-se alguns passos, prostrou-se com a face por terra e orava que, se fosse possível, passasse dele aquela hora.
Aba! (Pai!), suplicava ele. Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres. Em seguida, foi ter com seus discípulos e achou-os dormindo. Disse a Pedro: Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora! Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.
Afastou-se outra vez e orou, dizendo as mesmas palavras.
Voltando, achou-os de novo dormindo, porque seus olhos estavam pesados; e não sabiam o que lhe responder. Voltando pela terceira vez, disse-lhes: Dormi e descansai. Basta! Veio a hora! O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores.
Levantai-vos e vamos! Aproxima-se o que me há de entregar.
Ainda falava, quando chegou Judas Iscariotes, um dos Doze, e com ele um bando armado de espadas e cacetes, enviado pelos sumos sacerdotes, escribas e anciãos.
Ora, o traidor tinha-lhes dado o seguinte sinal: Aquele a quem eu beijar é ele. Prendei-o e levai-o com cuidado.Assim que ele se aproximou de Jesus, disse: Rabi!, e o beijou.
Lançaram-lhe as mãos e o prenderam.
Um dos circunstantes tirou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e decepou-lhe a orelha. Mas Jesus tomou a palavra e disse-lhes: Como a um bandido, saístes com espadas e cacetes para prender-me!Entretanto, todos os dias estava convosco, ensinando no templo, e não me prendestes. Mas isso acontece para que se cumpram as Escrituras.Então todos o abandonaram e fugiram.
Seguia-o um jovem coberto somente de um pano de linho; e prenderam-no.
Mas, lançando ele de si o pano de linho, escapou-lhes despido.
Conduziram Jesus à casa do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os sacerdotes, escribas e anciãos.
Pedro o foi seguindo de longe até dentro do pátio. Sentou-se junto do fogo com os servos e aquecia-se.
Os sumos sacerdotes e todo o conselho buscavam algum testemunho contra Jesus, para o condenar à morte, mas não o achavam.Muitos diziam falsos testemunhos contra ele, mas seus depoimentos não concordavam.Levantaram-se, então, alguns e deram esse falso testemunho contra ele:
Ouvimo-lo dizer: Eu destruirei este templo, feito por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, que não será feito por mãos de homens.Mas nem neste ponto eram coerentes os seus testemunhos.
O sumo sacerdote levantou-se no meio da assembléia e perguntou a Jesus: Não respondes nada? O que é isto que dizem contra ti?
Mas Jesus se calava e nada respondia. O sumo sacerdote tornou a perguntar-lhe: És tu o Cristo, o Filho de Deus bendito? Jesus respondeu: Eu o sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu.
O sumo sacerdote rasgou então as suas vestes. Para que desejamos ainda testemunhas?!, exclamou ele.
Ouvistes a blasfêmia! Que vos parece? E unanimemente o julgaram merecedor da morte.
Alguns começaram a cuspir nele, a tapar-lhe o rosto, a dar-lhe socos e a dizer-lhe: Adivinha! Os servos igualmente davam-lhe bofetadas.
Estando Pedro embaixo, no pátio, veio uma das criadas do sumo sacerdote.
Ela fixou os olhos em Pedro, que se aquecia, e disse: Também tu estavas com Jesus de Nazaré.
Ele negou: Não sei, nem compreendo o que dizes. E saiu para a entrada do pátio; e o galo cantou.
A criada, que o vira, começou a dizer aos circunstantes: Este faz parte do grupo deles.
Mas Pedro negou outra vez. Pouco depois, os que ali estavam diziam de novo a Pedro: Certamente tu és daqueles, pois és galileu.
Então ele começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais.
E imediatamente cantou o galo pela segunda vez. Pedro lembrou-se da palavra que Jesus lhe havia dito: Antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás. E, lembrando-se disso, rompeu em soluços.
Logo pela manhã se reuniram os sumos sacerdotes com os anciãos, os escribas e com todo o conselho. E tendo amarrado Jesus, levaram-no e entregaram-no a Pilatos.
Este lhe perguntou: És tu o rei dos judeus? Ele lhe respondeu: Sim.
Os sumos sacerdotes acusavam-no de muitas coisas.
Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam!
Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos ficou admirado.
Ora, costumava ele soltar-lhes em cada festa qualquer dos presos que pedissem.
Havia na prisão um, chamado Barrabás, que fora preso com seus cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio. 
O povo que tinha subido começou a pedir-lhe aquilo que sempre lhes costumava conceder.
Pilatos respondeu-lhes: Quereis que vos solte o rei dos judeus?
(Porque sabia que os sumos sacerdotes o haviam entregue por inveja.)
Mas os pontífices instigaram o povo para que pedissem de preferência que lhes soltasse Barrabás. Pilatos falou-lhes outra vez: E que quereis que eu faça daquele a quem chamais o rei dos judeus? Eles tornaram a gritar: Crucifica-o!
Pilatos replicou: Mas que mal fez ele? Eles clamavam mais ainda: Crucifica-o!
Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado.
Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é, ao pretório, onde convocaram toda a coorte.Vestiram Jesus de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na sua cabeça. E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus!
Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido dele, tiraram-lhe a púrpura, deram-lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar.
Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz.
Conduziram Jesus ao lugar chamado Gólgota, que quer dizer lugar do crânio.
Deram-lhe de beber vinho misturado com mirra, mas ele não o aceitou.
Depois de o terem crucificado, repartiram as suas vestes, tirando a sorte sobre elas, para ver o que tocaria a cada um. Era a hora terceira quando o crucificaram. 
A inscrição que motivava a sua condenação dizia: O rei dos judeus.
Crucificaram com ele dois bandidos: um à sua direita e outro à esquerda.
[Cumpriu-se assim a passagem da Escritura que diz: Ele foi contado entre os malfeitores (Is 53,12).] Os que iam passando injuriavam-no e abanavam a cabeça, dizendo: Olá! Tu que destróis o templo e o reedificas em três dias,
salva-te a ti mesmo! Desce da cruz!
Desta maneira, escarneciam dele também os sumos sacerdotes e os escribas, dizendo uns para os outros: Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar!
Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos! Também os que haviam sido crucificados com ele o insultavam.
Desde a hora sexta até a hora nona, houve trevas por toda a terra.
E à hora nona Jesus bradou em alta voz: Elói, Elói, lammá sabactáni?, que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?
Ouvindo isto, alguns dos circunstantes diziam: Ele chama por Elias!
Um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de uma vara, deu-lho para beber, dizendo: Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo.
Jesus deu um grande brado e expirou.
O véu do templo rasgou-se então de alto a baixo em duas partes.
O centurião que estava diante de Jesus, ao ver que ele tinha expirado assim, disse: Este homem era realmente o Filho de Deus.
Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé,
que o tinham seguido e o haviam assistido, quando ele estava na Galiléia; e muitas outras que haviam subido juntamente com ele a Jerusalém.
Quando já era tarde - era a Preparação, isto é‚ é a véspera do sábado -,
veio José de Arimatéia, ilustre membro do conselho, que também esperava o Reino de Deus; ele foi resoluto à presença de Pilatos e pediu o corpo de Jesus.
Pilatos admirou-se de que ele tivesse morrido tão depressa. E, chamando o centurião, perguntou se já havia muito tempo que Jesus tinha morrido.
Obtida a resposta afirmativa do centurião, mandou dar-lhe o corpo.
Depois de ter comprado um pano de linho, José tirou-o da cruz, envolveu-o no pano e depositou-o num sepulcro escavado na rocha, rolando uma pedra para fechar a entrada.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

segunda-feira, 30 de março de 2015

SEGUNDA-FEIRA SANTA (SEMANA SANTA)






A Igreja convida a reviver, em espírito, os últimos dias de vida do Divino Mestre, e os sentimentos que o animaram ao aproximar-se da Paixão.


Na Epístola, Isaías descreve as obediências e o trabalho do Salvador e anuncia a vitória que lhe pertence, por ter posto em Deus a sua confiança. O evangelho refere no episódio da ceia em casa de Simão o leproso e como já o demônio se apossara da alma de Judas, que se irrita com a ação generosa de Santa Maria Madalena. O Senhor, via aproximar a Paixão e, na censura que dirigiu a Judas, deu a entender a irmã de Lázaro que seria aquela a última vez que tocaria no seu corpo mortal. As reclamações indignadas de Judas já nos afazem temer o crime horroroso que prepara. No entanto, a sentença de Lázaro ressuscitado enche-nos de esperança, instila-nos na alma o presságio confirmante duma grande vitória. A oração sobre o povo diz-nos com que alegria devemos viver os mistérios da Paixão do Salvador, o aniversário do nosso resgate e uma nova aplicação dos benefícios da Redenção.


Epístola



Leitura do profeta Isaías (50, 5-10) Naqueles dias: O Senhor Deus abriu-me o ouvido e eu não relutei, não me esquivei. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros. Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado. Aquele que me fará justiça aí está. Quem ousará atacar-me? Vamos medir-nos! Quem será meu adversário? Que se apresente! O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me? Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá. Que aqueles dentre vós que temem o Senhor ouçam a voz de seu Servo! Que aqueles que caminham no escuro, privados de luz, confiem no nome do Senhor e contem com o seu Deus!



Evangelho do dia:



Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (12, 1-9) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de trair, disse: Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres? Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam. Jesus disse: Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura. Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a mim nem sempre me tereis. Uma grande multidão de judeus veio a saber que Jesus lá estava; e chegou, não somente por causa de Jesus, mas ainda para ver Lázaro, que ele ressuscitara. Mas os príncipes dos sacerdotes resolveram tirar a vida também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus. No dia seguinte, uma grande multidão que tinha vindo à festa em Jerusalém ouviu dizer que Jesus se ia aproximando.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

domingo, 29 de março de 2015

O terror cor-de-rosa. A nova cor da esquerda



Felipe Marques Pereira*

Quando um movimento utópico pretende conduzir massas inteiras a mudanças culturais e passa a julgar o passado em vista de um estado ideal hipotético de igualdade, liberdade ou qualquer outra coisa, passa, também, a catalogar como homofóbicas e/ou machistas situações cotidianas que, tiradas do seu contexto e ambiente históricos, podem parecer opressivas. Por exemplo, é natural que a ameaça constante da guerra junto com o trabalho pastoril e/ou agrícola que caracterizaram as civilizações ocidentais e orientais durante milênios exigissem dos homens que esses desenvolvessem a força física e características grosseiras. 

O desenvolvimento da força e da coragem também favorecia o trabalho pesado que sempre foi realizado pelos homens e só o avanço técnico e científico permitiu que as mulheres pudessem exercê-los e hoje não é mais exclusividade dos homens, embora eles ainda constituam a maior parcela da mão de obra nos serviços pesados e de alto risco.

Dentro desse cenário é natural uma menor participação da mulher na vida pública e uma divisão doméstica do trabalho bem diferente da atual.

Sempre que eu ouço um porta-voz do movimento gay, feminista ou mais alguém da esquerda cor-de-rosa falar que a hetero-normatividade é uma construção social da cultura cristã ocidental, a mim, parece que ele ignora que essa construção dos gêneros masculinos e femininos é não só ocidental, mas também oriental e que todas as culturas na história; a grega, a romana a dinastia Ming ou as tribos do alto do Xingu, são machistas e homofóbicas a sua maneira. A universalidade e quase unanimidade na definição dos gêneros e na sua expressão social são indícios claros de que se baseiam em valores que não são somente cristãos ou ocidentais, mas sim, valores transculturais.

A ideologia de gênero é uma construção social essa sim dirigida conscientemente por um grupo que pretende conduzir historicamente uma civilização inteira ao que eles acreditam ser o reino de igualdade, liberdade ou de qualquer outra coisa. Que pode ser qualquer coisa mesmo, não se espante!

Nesse processo se tanto o homossexual, a mulher ou o negro ganham mais espaço é as custas do aumento do poder do Estado que passa a mediar todas as relações controlando inclusive a maneira como nos relacionamos e nos comunicamos. Certas palavras passam a ser taxadas de preconceituosas e passam a ser consideradas crimes, quando proferidas. A censura, as restrições cada vez mais sufocantes as liberdades individuais e A REMODELAGEM RADICAL DA CONDUTA HUMANA acompanham pari passu as propostas dos movimentos utópicos.

Citemos a título de exemplo a criminalização da homofobia ou do racismo que nos impede de usar certas palavras para nos referirmos aos afrodescendentes ou aos homossexuais (pretos sodomitas e etc.). Igualmente alguns países pretendem trocar as palavras pai e mãe substituindo nos documentos pessoais por filiação um e filiação dois, a proibição de escrever em obras de circulação pública as palavras O homem para se referir a humanidade em geral e a retirada do dia dos pais e das mães do calendário de comemorações.

O utopista enxerga a humanidade como uma massa coloidal que pode ser modelada ou remodela, conduzida ou reconduzida. Cioranescu, que estudou o caráter utópico dos regimes totalitários modernos como o nazismo e o comunismo e tem interessantes estudos sobre essa relação, atesta esse pensamento mágico por trás dos lideres de movimentos utópicos e revolucionários:

["Na realidade, a utopia não segue se não o conto o Cocagne no pensamento mágico (...) é, com efeito, um mito, ou um ato mágico esta crença, que não parece ter se perdido em nenhum momento, que a humanidade é uma massa coloidal, idêntica a ela própria em todas as suas partes e predisposta a se dobrar as formas, as distribuições, as orientações e aos moldes que teriam a bondade de lhe indicar"]

Por fim, Cioranescu observa que os movimentos utópicos usam a força e o terror para nos levar ao seu paraíso através de ameaças:

["Os utopistas tem este terrível dom de nos afligir e de nos fazer considerar com apreensão nossa próxima felicidade"]
***
Notas

CIORANESCU, Alexandre - L'avenir du Passé, Gallimard, Paris, 1972.

Essa coluna esta sendo atualizada todos os domingos.

* Felipe Marques Pereira é um escritor de cunho conservador. Católico leigo estudou na PUC/PR. Para entrar em contato envie um e-mail para:

felipemarquespereira2015@outlook.com

sábado, 28 de março de 2015

DOMINGO DE RAMOS - INÍCIO DA GRANDE SEMANA SANTA (SEGUNDO DOMINGO DA PAIXÃO)











Elias, O Profeta

A liturgia de hoje exprime por meio de suas cerimônias, uma impregnada alegria, outra de tristeza, o duplo aspecto sob que podemos considerar a Cruz. Em primeiro lugar, a benção e a procissão de Ramos. Aqui tudo respira a alegria radiosa e deslumbrada que nos permite reviver há quase vinte séculos de distância a cena grandiosa da entrada triunfal do Salvador em Jerusalém. Depois vem a missa, cujo os cânticos e leituras se reportam ao doloroso acontecimento da Paixão.

Em Jerusalém, no século IV, lia-se neste Domingo, e lugar do acontecimento a perícopa do Evangelho que refere a entrada apoteótica do Salvador na cidade santa, aclamado pelas turbas como Rei de Israel. Depois o bispo montado num Jumento, ia no monte das Oliveiras na Igreja da Ressurreição, acompanhado do povo, com palmas nas mãos, ao canto de hinos e antífonas. A Igreja de Roma adotou este costume somente no século IX e ajuntou-lhe a benção dos Ramos. Na procissão dos Ramos, o povo cristão, na plenitude da sua fé, repete os gestos dos judeus, dando-lhe todo o seu significado. Como o povo de Jerusalém aclama a Cristo como triunfador: "Hosana ao filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor!" Mas, conhecedores pela fé, da sequencia e do significado dos acontecimentos, sabemos o que é e o que representa esse triunfo. Jesus é o Messias, Filho de David e o Filho de Deus. Sinal de contradição, é aclamado por uns, detestado por outros. Enviado ao mundo para nos libertar das garras do pecado e do poder de Satanás, sujeita-se a paixão, castigo dos nossos pecados, mas sai triunfante do sepulcro, vencedor da morte; restitui-nos a paz de Deus e introduz-nos consigo no reino do Pai celeste.

Depois da benção dos ramos, que se efetuava em Santa Maria Maior, a procissão se dirigia a Igreja estacional de São João do Latrão. Era nesta basílica que se celebrava a missa, dominada pelo pensamento da Paixão do Salvador. O triunfo do Salvador deve ser precedido da "sua humilhação até a morte e morte de Cruz". Isto encerra um ensinamento que deve orientar a nossa conduta: temos de nos humilhar, imitando a Jesus Cristo na sua paixão, se queremos participar da sua ressurreição.



Explicação da Paixão:
Getsémani
Depois de celebrada a ceia com seus discípulos, Jesus saiu com eles da cidade pela porta do lado da piscina de Siloé, subiu a vale do Cedrão, ao longo do bairro de Ofel, e encaminhou-se para o Getsémani, no sopé do monte das Oliveiras. Os três Apóstolos que foram testemunhas de sua Transfiguração assistem agora a sua agonia, por três vezes renovada. Judas que vendera o Mestre, sai da cidade à frente da corte e dos guardas do templo enviados pelo Sinédrio para prender Jesus. Prendem o Senhor e voltam a Jerusalém pela vereda do Nordeste, dirigindo-se para a casa do Sumo-Sacerdote.

Diante de Anás e Caifás
O Sinédrio compunha-se de setenta membros presididos pelos príncipes dos sacerdotes e superiormente pelo Sumo-Sacerdote, que era naquele ano Caifás, genro de Anás, o qual obtivera sucessivamente para os filhos e para o genro o Supremo Pontificado. Infiéis a sua missão, os representantes oficiais da religião de Israel esperavam um messias guerreiro que os livrassem do julgo dos Romanos. Jesus foi primeiro conduzido a presença de Anás, que não sendo sacerdote era incompetente para julgar o Senhor. O processo começava irregular logo de princípio. Noutra parte deste mesmo edifício esperava Caifás, de pernas cruzadas, segundo o uso, num estado um pouco elevado, tendo em torno de si toda a classe sacerdotal sentada em coxins dispostos para o efeito. O Senhor foi conduzido a sua presença e o julgamento prosseguiu ilegalmente, pois deveria ser feito durante o dia e eram cerca de duas horas da madrugada. O depoimento feito pelas supostas testemunhas era insuficiente e contraditório. Então Caifás, encolerizado, esconjura insolentemente o Senhor (infringindo a lei mosaica que neste caso anula a confissão do acusado) a que lhe diga se é realmente o filho de Deus. E Jesus, que esperava aquele momento para falar, declara oficialmente a sua divindade, na presença da autoridade religiosa reunida no conselho. O Sumo-Sacerdote rasga então as veste e o Sinédrio o declara réu de blasfêmia e merecedor de morte. O Senhor aceita a sentença, pois é precisamente como filho de Deus que há de oferecer ao Pai, pelos homens, um sacrifício de valor infinito.

Negação de Pedro. Desespero de Judas

Entregaram-no então, durante o resto da noite, à zombaria dos criados, que o cobriram de injúrias, cuspindo-lhe no rosto. Pedro, que João introduzira no pátio do palácio do Sumo Sacerdote, negou por três vezes o mestre. Depois de o galo cantar a segunda vez, saiu para fora e chorou amargamente. "Chorou alto", como diz o texto grego. De manhã, o Sinédrio tornou a reunir-se para dar a sentença, proferida ilegalmente durante a noite, para dar aparência de legalidade. O Senhor compareceu e foi novamente condenado. Judas então compreendeu o tamanho de seu crime. Roído de remorso, vai ter com o Sinédrio ainda reunido e confessa que pecou ao entregar um sangue justo. Desesperado e perseguido pelos fantasmas da sua própria desgraça, arremessa ao chão, dentro do templo, o dinheiro que recebera, vai a piscina de Siloé, mete-se pela garganta do Hinom até um lugar chamado Geena e enforca-se, partindo o laço e desfazendo-se nas pontas dos rochedos.


Diante de Pilatos

Só a autoridade romana, de que dependia então a Palestina, tinha direitos de vida e de morte. Era, pois, necessário remeter o processo ao procurador romano. Conduziram, portanto, o Senhor ao pretório de Pilatos, que ficava na torre Antônia. Os judeus não entraram por que tinham por pecado entrar na casa de um pagão às vésperas da Páscoa. Ia se instaurar-se o processo civil, mas era necessário um crime de caráter político. Os judeus saberão inventá-lo. O Messias para os judeus, devia ser, como já vimos, um monarca terrestre, um rei glorioso e conquistador. Ora Jesus dize-se messias. Nada mais fácil, portanto, que citá-lo perante Pilatos como amotinador do povo, concorrente de César no direito ao mandato supremo. No decorrer deste processo, Jesus manteve a mesma atitude da noite anterior; o mesmo silêncio perante as acusações, a mesma afirmação peremptória da sua realeza e finalmente o mesmo tratamento desumano por parte dos soldados de César. Jesus que tudo via e conduzia e só queria ser condenado como filho de Deus e Rei das almas, colocou a questão nitidamente no terreno religioso: "o meu reino não é deste mundo". Pilatos reconheceu que Jesus estava inteiramente inocente. Mas os judeus não se deixaram vencer e recorreram as ameaças. Pilatos, demasiado fraco para usar da autoridade diante do povo amotinado, que, sem dúvida, se vingaria dele acusando-o a César, procurou a força de expedientes contentar o povo e não ofender os protestos duns restos de consciência pagã e supersticiosa, que o receio vago dum possível castigo dos deuses tinha despertados.

Jesus enviado a Herodes. Barrabás

Sabendo Pilatos que Jesus era Galileu, enviou-o a Herodes, tetrarca da Galileia  filho daquele Herodes que ordenou o massacre dos inocentes, quando os magos lhe anunciaram o nascimento do "Rei dos Judeus". Humilhado com o silêncio do Senhor, quis humilhar também os Judeus, vestindo Jesus com um manto branco dos candidatos à realeza, e remetendo-o novamente a Pilatos. Não surtiu o melhor efeito a escolha entre o homicida Barrabás e Jesus.

A Flagelação

Era um suplício infamante, reservado aos escravos. O paciente despojado dos vestidos e atado pelas mãos à argola dum cepo, recebia os golpes que o executor lhe ia aplicando compassadamente no dorso curvo. Com os látegos do corpo, rasgava-lhe as espáduas e o peito em sulcos profundos donde jorrava o sangue e se descolavam pedaços de carne. Neste estado tristíssimo, mandou Pilatos cobri-lo com um manto escarlate, colocá-lo a coroa e o cetro e apresentá-lo a multidão. Os judeus compreenderam toda a ironia deste gesto. Ousariam ver ainda neste homem um competidor de César?

Condenação de Jesus


Os judeus continuam a insistir, com despeito, no título de filho de Deus, que será a causa única por que o hão de condenar a morte. Pilatos, que não resiste ao argumento decisivo com que os judeus o atacam, duma denúncia a César, recorre ao último expediente e lava as mãos perante o povo, querendo com isso significar que Jesus é inocente e não o condena senão porque assim o judeus o exigem em virtude de suas leis. Foi o que afirmou até o fim, mandando fixar na Cruz a inscrição declaratória do crime e do motivo da condenação: "Jesus Nazareno, Rei dos Judeus", Pilatos porque era fraco e covarde, é, sem dúvida, culpado; mas os judeus, levando só por ódio o Pretor a condená-lo a morte, cometeram um deicídio.

A Caminho do Calvário. Crucifixão

Cerca das onze horas, O Senhor deixou o Pretório e encaminhou-se para o Calvário, pelo caminho que desce para o Vale Tirofeon, e volta depois para leste pela escarpa que dá para as portas da cidade. Era ali, fora dos muros, o Gólgota ou lugar da execuções. Cerca do meio-dia, o Sol escureceu-se, fenômeno constatado em toda a extensão do Império, é no meio desta noite tenebrosa que o Senhor dá seu último suspiro. A cruz era o mais cruel e atroz dos suplícios: porque a vítima, completamente imobilizada, devia suportar durante várias horas todo peso do corpo nos braços estendidos. A tensão terrível questiona o sangue, fazendo afluir a face e o peito e provocando uma sede ardentíssima. Morrer crucificado é morrer de pura dor, na mais atroz das agonias. Quando a noite suspendia o supliciado ainda vivo, para lhe apressar a morte, quebravam-lhe as pernas, que, de ordinário, estavam a um metro do solo.
Morte e Sepultura

Está para chegar o momento decisivo que marcará para o gênero humano a hora do resgate. Para mostrar que não é constrangido, mas é por amor do Pai e dos homens que aceita a morte, Jesus dá um grande grito e suspira. Morrer o Salvador. Com Maria, sua Mãe, e São João, fiquemos de pé junto da Cruz; e com os judeus, que então se converteram, batamos no peito, porque foi para expiar nossos pecados que ele morreu. Eram três horas da tarde. Às cinco, o Senhor foi retirado da Cruz e colocado às pressas no sepulcro, porque as seis começava o Sábado, que naquele ano era muito solene. Coincidia com o 14 de Nisan, o dia mais importante das festas da Páscoa e que representava à maravilha o repouso eterno em que o Senhor entrava. Os judeus não tinham cemitérios. Sepultavam os seus geralmente em sepulcros privativos de famílias, cavados numa propriedade, ou então à beira das grandes vias de comunicação. Jesus foi deposto no sepulcro que José de Arimateia possuía numa propriedade junto do Calvário. Repitamos amorosamente, com o Senhor, a oração da comunhão: "Pai se este cálice não pode passar sem que eu beba, faça-se a vossa vontade!"






Hosanna Filio David, Benedictus Qui Venit in Nomine Domini



Antiphona - Hosanna filio David



Continuação do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus: Naquele tempo:
Aproximavam-se de Jerusalém. Quando chegaram a Betfagé, perto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos,
dizendo-lhes: Ide à aldeia que está defronte. Encontrareis logo uma jumenta amarrada e com ela seu jumentinho. Desamarrai-os e trazei-mo.
Se alguém vos disser qualquer coisa, respondei-lhe que o Senhor necessita deles e que ele sem demora os devolverá.
Assim, neste acontecimento, cumpria-se o oráculo do profeta:
Dizei à filha de Sião: Eis que teu rei vem a ti, cheio de doçura, montado numa jumenta, num jumentinho, filho da que leva o jugo (Zc 9,9).
Os discípulos foram e executaram a ordem de Jesus.
Trouxeram a jumenta e o jumentinho, cobriram-nos com seus mantos e fizeram-no montar.
Então a multidão estendia os mantos pelo caminho, cortava ramos de árvores e espalhava-os pela estrada.
E toda aquela multidão, que o precedia e que o seguia, clamava: Hosana ao filho de Davi! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!

"Pueri Hebraeorum portantes ramos olivarum, obviaverunt Domino, clamantes et dicentes: Hosanna in excelsis"





Gloria laus et honor tibi sit, Rex Christe, Redemptor: Cui puerile decus prompsit Hosanna pium.



Epístola

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Filipenses (2,5-11) . Irmãos: Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas  aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.



LEITURA DA PAIXÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO


Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (26, 35-75; 27,1-60): Naquele tempo:
Retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar. E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes, então: Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo. Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres. Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: Então não pudestes vigiar uma hora comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca. Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: Meu Pai, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua vontade! Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Voltou então para os seus discípulos e disse-lhes: Dormi agora e repousai! Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores... Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui. Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente armada de espadas e cacetes, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. O traidor combinara com eles este sinal: Aquele que eu beijar, é ele. Prendei-o! Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: Salve, Mestre. E beijou-o. Disse-lhe Jesus: É, então, para isso que vens aqui? Em seguida, adiantaram-se eles e lançaram mão em Jesus para prendê-lo. Mas um dos companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu um servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Jesus, no entanto, lhe disse: Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão. Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos? Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é preciso que seja assim? Depois, voltando-se para a turba, falou: Saístes armados de espadas e porretes para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes. Mas tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas. Então os discípulos o abandonaram e fugiram. Os que haviam prendido Jesus levaram-no à casa do sumo sacerdote Caifás, onde estavam reunidos os escribas e os anciãos do povo. Pedro seguia-o de longe, até o pátio do sumo sacerdote. Entrou e sentou-se junto aos criados para ver como terminaria aquilo. Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e todo o conselho procuravam um falso testemunho contra Jesus, a fim de o levarem à morte. Mas não o conseguiram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Por fim, apresentaram-se duas testemunhas, que disseram: Este homem disse: Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias. Levantou-se o sumo sacerdote e lhe perguntou: Nada tens a responder ao que essa gente depõe contra ti? Jesus, no entanto, permanecia calado. Disse-lhe o sumo sacerdote: Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus? Jesus respondeu: Sim. Além disso, eu vos declaro que vereis doravante o Filho do Homem sentar-se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu. A estas palavras, o sumo sacerdote rasgou suas vestes, exclamando: Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual o vosso parecer? Eles responderam: Merece a morte! Cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos e deram-lhe tapas, dizendo: Adivinha, ó Cristo: quem te bateu? Enquanto isso, Pedro estava sentado no pátio. Aproximou-se dele uma das servas, dizendo: Também tu estavas com Jesus, o Galileu. Mas ele negou publicamente, nestes termos: Não sei o que dizes. Dirigia-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o viu e disse aos que lá estavam: Este homem também estava com Jesus de Nazaré. Pedro, pela segunda vez, negou com juramento: Eu nem conheço tal homem. Pouco depois, os que ali estavam aproximaram-se de Pedro e disseram: Sim, tu és daqueles; teu modo de falar te dá a conhecer. Pedro então começou a fazer imprecações, jurando que nem sequer conhecia tal homem. E, neste momento, cantou o galo. Pedro recordou-se do que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, negar-me-ás três vezes. E saindo, chorou amargamente. Chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se em conselho para entregar Jesus à morte. Ligaram-no e o levaram ao governador Pilatos. Judas, o traidor, vendo-o então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo-lhes: Pequei, entregando o sangue de um justo. Responderam-lhe: Que nos importa? Isto é lá contigo! Ele jogou então no templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se. Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram: Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de sangue. Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros. Esta é a razão por que aquele terreno é chamado, ainda hoje, Campo de Sangue. Assim se cumpriu a profecia do profeta Jeremias: Eles receberam trinta moedas de prata, preço daquele cujo valor foi estimado pelos filhos de Israel; e deram-no pelo campo do Oleiro, como o Senhor me havia prescrito. Jesus compareceu diante do governador, que o interrogou: És o rei dos judeus? Sim, respondeu-lhe Jesus. Ele, porém, nada respondia às acusações dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos. Perguntou-lhe Pilatos: Não ouves todos os testemunhos que levantam contra ti? Mas, para grande admiração do governador, não quis responder a nenhuma acusação. Era costume que o governador soltasse um preso a pedido do povo em cada festa de Páscoa. Ora, havia naquela ocasião um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Pilatos dirigiu-se ao povo reunido: Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que se chama Cristo? (Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja.) Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher lhe mandou dizer: Nada faças a esse justo. Fui hoje atormentada por um sonho que lhe diz respeito. Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás e fizesse morrer Jesus. O governador tomou então a palavra: Qual dos dois quereis que eu vos solte? Responderam: Barrabás! Pilatos perguntou: Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo? Todos responderam: Seja crucificado! O governador tornou a perguntar: Mas que mal fez ele? E gritavam ainda mais forte: Seja crucificado! Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do povo e disse: Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco! E todo o povo respondeu: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos! Libertou então Barrabás, mandou açoitar Jesus e lho entregou para ser crucificado. Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-no com todo o pelotão. Arrancaram-lhe as vestes e colocaram-lhe um manto escarlate. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lha na cabeça e puseram-lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante dele, diziam com escárnio: Salve, rei dos judeus! Cuspiam-lhe no rosto e, tomando da vara, davam-lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem dele, tiraram-lhe o manto e entregaram-lhe as vestes. Em seguida, levaram-no para o crucificar. Saindo, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a cruz de Jesus. Chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do crânio. Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou a beber. Depois de o haverem crucificado, dividiram suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do profeta: Repartiram entre si minhas vestes e sobre meu manto lançaram a sorte (Sl 21,19). Sentaram-se e montaram guarda. Por cima de sua cabeça penduraram um escrito trazendo o motivo de sua crucificação: Este é Jesus, o rei dos judeus. Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda. Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz! Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele: Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele! Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu sou o Filho de Deus! E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam. Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas. Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammá sabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: Ele chama por Elias. Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse. Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo. Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros se abriram e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas. O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus! Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galiléia para o servir. Entre elas se achavam Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu. À tardinha, um homem rico de Arimatéia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos cedeu-o. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol branco e o depositou num sepulcro novo, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro e foi-se embora.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

SÁBADO DA PAIXÃO

A missa reúne todos os grandes mistérios que enchem a Semana Santa. Na Epístola Jeremias prediz os castigos com que Deus vai punir os que conspiram contra o justo, predição que teve quarenta anos mais tarde no cerco de Jerusalém. O Evangelho nos apresenta o Senhor aclamado "Rei de Israel" pelos judeus e depois " Elevado da Terra", ou seja, crucificado. O Episódio dos Gentios em Jerusalém e o desejo que manifestam a Felipe de ver Jesus permitem-nos já prever a numerosa colheita que o paganismo reserva à nascente Igreja. Jesus vai morrer como grão de trigo. Por agora a sua alma está turbada, mas virá a hora de glorificar o Pai e em que o príncipe deste mundo vai ser lançado fora dele, mesmo no alto da Cruz o Senhor atrairá tudo e todos a si.


Epístola

Leitura do profeta Jeremias (18, 18-23) Naqueles dias: Vinde, disseram então, e tramemos uma conspiração contra Jeremias! Por falta de um sacerdote não perecerá a lei, nem pela falta de um sábio, o conselho, ou pela falta de um profeta, a palavra divina. Vinde e firamo-lo com a língua, não lhe demos ouvidos às palavras! Senhor, ouvi-me! Escutai o que dizem meus inimigos. É assim que pagam o bem com o mal? Abrem uma cova para atentar-me contra a vida. Lembrai-vos de que ante vós me apresentei a fim de por eles interceder e deles afastar a vossa cólera. Assim, entregai-lhes os filhos à fome e a eles próprios ao fio da espada. Percam suas mulheres os filhos e maridos, morram os homens pela peste, e os jovens caiam sob a espada nos combates. Quando, de súbito, sobre eles lançardes hordas armadas, ouçam-se os clamores partidos de suas casas, já que cavaram uma fossa para prender-me, e armaram laços a meus pés. Vós, porém, Senhor, que bem conheceis suas conspirações de morte contra mim, não lhes perdoeis tal iniqüidade. Que a vossos olhos o seu pecado permaneça indelével e caiam diante de vós. Agi contra eles no dia de vossa cólera. Senhor Deus Nosso.


+Sequência do Santo Evangelho segundo São João: Naquele tempo os príncipes dos sacerdotes resolveram tirar a vida também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, se afastavam e acreditavam em Jesus. No dia seguinte, uma grande multidão que tinha vindo à festa em Jerusalém ouviu dizer que Jesus se ia aproximando. Saíram-lhe ao encontro com ramos de palmas, exclamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel! Tendo Jesus encontrado um jumentinho, montou nele, segundo o que está escrito: Não temas, filha de Sião, eis que vem o teu rei montado num filho de jumenta (Zc 9,9). Os seus discípulos a princípio não compreendiam essas coisas, mas, quando Jesus foi glorificado, então se lembraram de que isto estava escrito a seu respeito e de que assim lho fizeram. A multidão, pois, que se achava com ele, quando chamara Lázaro do sepulcro e o ressuscitara, aclamava-o. Por isso o povo lhe saía ao encontro, porque tinha ouvido que Jesus fizera aquele milagre. Mas os fariseus disseram entre si: Vede! Nada adiantamos! Reparai que todo mundo corre após ele! Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galiléia) e rogaram-lhe: Senhor, quiséramos ver Jesus. Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer servir, siga-me; e, onde eu estiver, estará ali também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. Presentemente, a minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome! Nisto veio do céu uma voz: Já o glorifiquei e tornarei a glorificá-lo. Ora, a multidão que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovão. Outros replicavam: Um anjo falou-lhe. Jesus disse: Essa voz não veio por mim, mas sim por vossa causa. Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim. Dizia, porém, isto, significando de que morte havia de morrer. A multidão respondeu-lhe: Nós temos ouvido da lei que o Cristo permanece para sempre. Como dizes tu: Importa que o Filho do Homem seja levantado? Quem é esse Filho do Homem? Respondeu-lhes Jesus: Ainda por pouco tempo a luz estará em vosso meio. Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos surpreendam; e quem caminha nas trevas não sabe para onde vai. Enquanto tendes a luz, crede na luz, e assim vos tornareis filhos da luz. Jesus disse essas coisas, retirou-se e ocultou-se longe deles.




Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sexta-feira, 27 de março de 2015

SEXTA-FEIRA APÓS O Iº DOMINGO DA PAIXÃO - FESTA DAS SETE DORES DE NOSSA SENHORA






Ciclo do Natal celebrou o papel da Santíssima Virgem no mistério da Encarnação, glorificando, ao mesmo tempo, a divindade de Jesus e a maternidade divina de Maria Santíssima. O Ciclo da Páscoa vem dizer como a Mãe do Salvador cooperou no mistério da Redenção; mostra como ela, neste tempo da Paixão, ao pé da Cruz onde seu Filho morre.
Realiza-se a profecia de Simeão: "Uma espada de dor atravessará seu coração", que, pelo seu amor sem par, se torna a Rainha dos Mártires. Assim como Judite libertou Israel matando Holofernes, assim a Virgem, com Jesus, é a nossa libertadora. Venerando as dores de Nossa Senhora aos pés da Cruz, peçamos-lhe que nos obtenha os frutos da Paixão de seu Filho.

Epístola

Leitura do Livro de Judite (13, 22 e 23-25) : Naqueles dias: Então todos, adorando o Senhor, disseram a Judite: O Senhor te abençoou com o seu poder, porque ele por ti aniquilou os nossos inimigos. Ozias, príncipe do povo de Israel, acrescentou: Minha filha, tu és bendita do Senhor Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te guiou para cortar a cabeça de nosso maior inimigo! Ele deu neste dia tanta glória ao teu nome, que nunca o teu louvor cessará de ser celebrado pelos homens, que se lembrarão eternamente do poder do Senhor. Ante os sofrimentos e a angústia de teu povo, não poupaste a tua vida, mas salvaste-nos da ruína, em presença de nosso Deus

Evangelho do dia

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (19, 25-27): Naquele tempo: Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.

Stabat mater 


Lefebvre, Dom
Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO



A estação de hoje congregava-se na Igreja de Santo Estevão no Monte Célio.

O Evangelho de hoje nos fala da sessão solene do Sinédrio convocada com o fim preconcebido de condenar irrevogavelmente o Salvador. Os Judeus de fato andavam com medo. A ressurreição de Lázaro tinha levantado tamanha celeuma e entusiasmo durante as festas, que pensavam eles, se não tivessem uma posição contrária diante disso, os romanos iam destruir a cidade e a nação. Por isso declarava Caifás, "É melhor que um só homem se pereça do que toda uma nação. Por isso declararam o Senhor a morte. Jermias na Epístola e o Salmista no intróito, no Gradual e na Comunhão descrevem a tristeza que o Senhor experimenta ao ver-se rodeado de homens de má fé, que meditam na sua perda, tomemos parte do sofimento do Salvador nas vésperas de sua Paixão, e que o temor da penas nos leve a aceitar com alegria as dificuldades desta vida com austeridade proporcionada pela Quaresma.


Epístola

Leitura do profeta Jeremias (17, 13-18)  Senhor, que sois a esperança de Israel, confundidos serão todos os que vos abandonam, e de vergonha serão cobertos os que de vós se afastam, por haverem deixado o Senhor, fonte das águas vivas. Curai-me, Senhor, e ficarei curado; salvai-me, e serei salvo, porque sois a minha glória. Ei-los que clamam: Que é feito dos oráculos do Senhor? Que eles se cumpram! Eu, porém, nunca vos incitei a enviar a desgraça, nem desejei o dia da catástrofe. Bem conheceis as palavras que me saíram da boca: elas estão em vossa presença. Não me sejais objeto de espanto, vós que, no dia da desgraça, sois meu refúgio. Sejam envergonhados meus perseguidores, e não eu! Sejam consternados, não eu! Fazei recair sobre eles o dia da aflição, esmagai-os com dupla desgraça.


+Sequência do Santo Evangelho segundo São João: Naquele tempo, Os pontífices e os fariseus convocaram o conselho e disseram: Que faremos? Esse homem multiplica os milagres. Se o deixarmos proceder assim, todos crerão nele, e os romanos virão e arruinarão a nossa cidade e toda a nação. Um deles, chamado Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano, disse-lhes: Vós não entendeis nada! Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação. E ele não disse isso por si mesmo, mas, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos. E desde aquele momento resolveram tirar-lhe a vida. Em conseqüência disso, Jesus já não andava em público entre os judeus. Retirou-se para uma região vizinha do deserto, a uma cidade chamada Efraim, e ali se detinha com seus discípulos.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

quinta-feira, 26 de março de 2015

QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

A estação de hoje reunia-se na Igreja de São Apolinário, construída no pontificado do Papa Adriano I à volta de 780.
Daniel fala-nos da humilhação de Israel que foi entregue nas mãos do inimigo por causa de seu pecado. A Igreja por seu lado lamenta a má conduta de muito de seus filhos e dos Gentios que vivem contentes de mãos dadas com o demônio e com os vícios, inconsistentes do perigo que os ameaça, e pede com Azarias ao Senhor que confunda os que tratam mal  os seus servos, porque é humilhados e contritos pela dor e que eles vem procurar a misericórdia de Deus. E espera confia que o Senhor multiplique o seu povo como as estrelas do Céu numa visão palpitante da noite apoteótica da Páscoa. Depois no Evangelho procura enfatizar-nos à penitência e incutir-nos com o exemplo de Madalena a esperança do Perdão e duma vida nova conforma a do Filho de Deus. Choremos pois nossos pecados e choremos como Madalena, ungiu com boas obras os pés do Senhor cansado de nos buscar.

Epístola
Leitura do profeta Daniel (3, 25 e 34-45) Naqueles dias: Azarias, em pé bem no meio do fogo, fez a seguinte oração: Pelo amor de vosso nome, não nos abandoneis para sempre; não destruais de modo algum vossa aliança. Não nos retireis vossa misericórdia em consideração a Abraão, vosso amigo, Isaac, vosso servo, Israel, vosso santo, aos quais prometestes multiplicar sua descendência como as estrelas do céu e a areia que se encontra à beira do mar. Senhor, fomos reduzidos a nada diante das nações, fomos humilhados diante de toda a terra: tudo, devido a nossos pecados! Hoje, já não há príncipe, nem profeta, nem chefe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem mesmo um lugar para vos oferecer nossas primícias e encontrar misericórdia. Entretanto, que a contrição de nosso coração e a humilhação de nosso espírito nos permita achar bom acolhimento junto a vós, Senhor, como (se nós nos apresentássemos) com um holocausto de carneiros, de touros e milhares de gordos cordeiros! Que assim possa ser hoje o nosso sacrifício em vossa presença! Que possa (reconciliar-nos) convosco, porque nenhuma confusão existe para aqueles que põem em vós sua confiança. É de todo nosso coração que nós vos seguimos agora, que nós vos reverenciamos, que buscamos vossa face. Não nos confundais; tratai-nos com vossa habitual doçura e com todas as riquezas de vossa misericórdia. Ponde em execução vossos prodígios para nos salvar, Senhor, e cobri vosso nome de glória. Que sejam então confundidos aqueles que maltratam vossos servos, que eles sofram a vergonha de ver a ruína de seu poderio e o aniquilamento de sua força. Assim saberão que sois o Senhor, o Deus único e glorioso sobre toda a superfície da terra.

+ Sequência do Santo Evangelho Segundo São Lucas: Naquele Tempo, Um fariseu convidou Jesus a ir comer com ele. Jesus entrou na casa dele e pôs-se à mesa. Uma mulher pecadora da cidade, quando soube que estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro cheio de perfume; e, estando a seus pés, por detrás dele, começou a chorar. Pouco depois suas lágrimas banhavam os pés do Senhor e ela os enxugava com os cabelos, beijava-os e os ungia com o perfume. Ao presenciar isto, o fariseu, que o tinha convidado, dizia consigo mesmo: Se este homem fosse profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que o toca, pois é pecadora. Então Jesus lhe disse: Simão, tenho uma coisa a dizer-te. Fala, Mestre, disse ele. Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos a sua dívida. Qual deles o amará mais? Simão respondeu: A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou. Jesus replicou-lhe: Julgaste bem. E voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me deste água para lavar os pés; mas esta, com as suas lágrimas, regou-me os pés e enxugou-os com os seus cabelos. Não me deste o ósculo; mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-me os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo; mas esta, com perfume, ungiu-me os pés. Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama. E disse a ela: Perdoados te são os pecados. Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer, então: Quem é este homem que até perdoa pecados? Mas Jesus, dirigindo-se à mulher, disse-lhe: Tua fé te salvou; vai em paz.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.