domingo, 30 de agosto de 2015

30 de Agosto - Santa Rosa de Lima, Virgem

Isabel Flores y de Oliva nasceu na cidade de Lima, capital do Peru, no dia 20 de abril de 1586. A décima dos treze filhos de Gaspar Flores e Maria de Oliva. À medida que crescia com o rosto rosado e belo, recebeu dos familiares o apelido de Rosa, como ficou conhecida. Seus pais eram ricos espanhóis que se haviam mudado para a próspera colônia do Peru, mas os negócios declinaram e eles ficaram na miséria.

Ainda criança, Rosa teve grande inclinação à oração e à meditação, sendo dotada de dons especiais de profecia. Já adolescente, enquanto rezava diante da imagem da Virgem Maria, decidiu entregar sua vida somente a Cristo. Apesar dos apelos da família, que contava com sua ajuda para o sustento, ela ingressou na Ordem Terceira Dominicana, tomando como exemplo de vida santa Catarina de Sena. Dedicou-se, então, ao jejum, às severas penitências e à oração contemplativa, aumentando seus dons de profecia e prodígios. E, para perder a vaidade, cortou os cabelos e engrossou as mãos, trabalhando na lavoura com os pais.

Aos vinte anos, pediu e obteve licença para emitir os votos religiosos em casa e não no convento, como terciária dominicana. Quando vestiu o hábito e se consagrou, mudou o nome para Rosa e acrescentou Santa Maria, por causa de sua grande devoção à Virgem Maria, passando a ser chamada Rosa de Santa Maria.

Construiu uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais, levando uma vida de austeridade, de mortificação e de abandono à vontade de Deus. A partir do hábito, ela imprimiu ainda mais rigor às penitências. Começou a usar, na cabeça, uma coroa de metal espinhento, disfarçada com botões de rosas. Aumentou os dias de jejum e dormia sobre uma tábua com pregos. Passou a sustentar a família com as rendas e bordados que fazia, pois seu confessor consentiu que ela não saísse mais de sua cela, exceto para receber a eucaristia. Vivendo em contínuo contato com Deus, atingiu um alto grau de vida contemplativa e experiência mística, compreendendo em profundidade o mistério da Paixão e Morte de Jesus.

Rosa cumpriu sua vocação, devotando-se à eucaristia e à Virgem Maria, cuidando para afastar o pecado do seu coração, conforme a espiritualidade da época. Aos trinta e um anos de idade, foi acometida por uma grave doença, que lhe causou sofrimentos e danos físicos. Assim, retirou-se para a casa de sua benfeitora, Maria de Uzátegui, agora Mosteiro de Santa Rosa, para cumprir a profecia de sua morte. Todo ano, ela passava o Dia de São Bartolomeu em oração, pois, dizia: "este é o dia das minhas núpcias eternas". E assim foi, até morrer no dia 24 de agosto de 1617. O seu sepultamento parou toda a cidade de Lima.


Muitos milagres aconteceram por sua intercessão após sua morte. Rosa foi beatificada em 1667 e tornou-se a primeira santa da América Latina ao ser canonizada, em 1671, pelo papa Clemente X. Dois anos depois, foi proclamada Padroeira da América Latina, das Filipinas e das Índias Orientais, com a festa litúrgica marcada para o dia 23 de agosto. A devoção a santa Rosa de Lima propagou-se rapidamente nos países latino-americanos, sendo venerada pelos fiéis como Padroeira dos Jardineiros e dos Floristas.


Fonte: Paulinas

sábado, 29 de agosto de 2015

XV Domingo Depois de Pentecostes: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te!" (Ev.)

"Jovem, eu te ordeno, levanta-te!" (Ev.)
As lições deste domingo são geralmente do livro de Jó, desse venerável patriarca da Idumeia, que Satanás quis experimentar com danada tenção para ver se este era realemante fiel a Deus com desinteresses ou porque lhe tinha cumulado de bens e riquezas. Um dia, diz o livro sagrado, Satanás apresentou-se diante de Deus e disse: Percorri a Terra inteira e vi seu servo Jó, que vós tem protegido e enriquecido de consideráveis riquezas. Estendei, no entanto, a vossa mão e tocai-lhe, juro-te que te amaldiçoará na tua face. E o Senhor respondeu: Vai e faze-lhe tudo que está em seu poder, mas não lhe retire a vida. Partiu Satanás e depois de tirar todos os bens, feriu-o com um chaga terrível e de odor insuportável, desde as plantas dos pés até a cabeça. É pensando na malícia de Satanás que a Igreja pede hoje ao Senhor que nos defenda das insídias do espírito das trevas. Jó clamava: "Na casa dos mortos é minha morada e o meu leito num lugar tenebroso. Disse ao pús que saia de suas chagas, tú és meu pai, e aos vermes, tú és a minha mãe e minha irmã. Consumiu a minha carne como um vestido roído de traças e os ossos pregaram-se na minha pele. Tende compaixão de mim, vós que ao menos que sois meus amigos, porque a mão do Senhor feriu-me". Porém ninguém atendia seu apelo, e desiludido dos falsos e ingratos, voltou-se para Deus, entoando o mais belo cântico de esperança que jamais se ouviu na face da Terra: "Eu sei que vive o meu Redentor, que me ressuscitará da terra no último dia. Então serei revestido da minha pele novamente e verei o meu Deus. Eu mesmo o verei e contemplarei com os meus olhos. Esta esperança vive dentro de mim.


A Santa Igreja, de que jó é figura, tem consciência dos ataques incessantes com que o demônio pretende destruí-la, e não cessa de pedir a Deus que a proteja, que a conduza e a defenda. A sua voz é ainda o eco da oração de Jó, a confissão humilde da sua impotência e a esperança invencível naquele que é poderoso e cheio de entranhas de misericórdia com os que o Invocam.


A Epístola é uma exortação freqüente e ansiosa para que andemos nos caminhos do Senhor e assim sejamos fiéis às aspirações do espírito. Se vivemos no espírito, andemos também em conformidade com ele, quer dizer, sejamos mais humildes, mais pacientes, tenhamos mais caridade com os que saem do caminho da justiça e pensemos que somos fracos também e que havemos de prestar apertadas contas dos nossos pecados a não dos pecados alheios.






O Evangelho, segundo a interpretação unânime dos padres, é um símbolo admirável da Igreja, deplorando os seus filhos que vivem em pecado mortal e pedindo aquele que veio a Terra para perdoar que se compadeça deles e os ressuscite.



Epístola do Domingo:

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas (5, 25-26; 6, 1-10) - Irmãos: Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós. Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que não caias também em tentação! Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo. Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine o seu procedimento. Então poderá gloriar-se do que lhe pertence e não do que pertence a outro. Pois cada um deve carregar o seu próprio fardo. Aquele que recebe a catequese da palavra, reparta de todos os seus bens com aquele que o instrui. Não vos enganeis: de Deus não se zomba. O que o homem semeia, isso mesmo colherá. Quem semeia na carne, da carne colherá a corrupção; quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na fé.





Evangelho de Domingo:
 
Continuação do Santo Evangelho segundo São Lucas: Naquele tempo: Ia Jesus para uma cidade, chamada Naim; e iam com ele seus discípulo e uma multidão. E, quando chegou perto da porta da cidade, eis que era levado um defunto a sepultar, filho único de sua mãe; e esta era viúva; e ia com ela muita gente da cidade. E, tendo-a visto o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse: Não chores. E aproximou-se e tocou o esquife. E os que levavam pararam. Então disse Ele: Jovem, Eu te ordeno, levanta-te. E sentou-se o que estava morto, e começou a falar. E Jesus o entregou a sua mãe. E todos ficaram possuídos de temor, e glorificando a Deus, dizendo: Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus visitou o seu povo.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

29 de Agosto - Degolação de São João Batista




Depois de celebrar a 24 de Junho o alegre nascimento de São João Batista na terra, a Santa Igreja honra hoje seu nascimento no Céu. Depois de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem, é o único santo cujo nascimento e morte se festeja. João o Precursor, que vivera 30 anos no deserto e que lá florescera como a palma, e como o cedro do Líbano se elevou, teve a coragem de repreender Herodes na casa por haver ilegitimamente com Herodíades, esposa de seu irmão Felipe, vivo ainda. Herodias constrangeu o rei Herodes a prendê-lo e aproveitou-se de um incidente inesperado para obter por intermédio de sua filha Salomé a decapitação do santo, que repreendia a sua criminosa paixão. São João põe hoje remate a sua missão de precursor, ajuntando aos testemunhos que de Cristo só já dera no seu nascimento, pregação e batismo, mais este, o testemunho do seu sangue. Sofreu pela festa da páscoa, um ano antes da paixão do Senhor, mas celebra-se hoje o seu aniversário por se ter encontrado neste dia a sua admirável cabeça na Síria, em 452.
Que ensinamentos grandioso podemos tirar da vida deste grande santo para os dias atuais? Quando se defende a moral e os bons costumes o que nos acontece? Vejamos este exemplo como ele é tão atual e verdadeiro para nossas vidas.

Epístola

Leitura do profeta Jeremias (1, 17-19): Eis o que diz o Senhor Deus: Tu, porém, cinge-te com o teu cinto e levanta-te para dizer-lhes tudo quanto te ordenar. Não temas a presença deles; senão eu te aterrorizarei à vista deles; quanto a mim, desde hoje, faço de ti uma fortaleza, coluna de ferro e muro de bronze, (erguido) diante de toda nação, diante dos reis de Judá e seus chefes, diante de seus sacerdotes e de todo o povo da nação. Eles te combaterão mas não conseguirão vencer-te, porque estou contigo, para livrar-te - oráculo do Senhor.

 
Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (6,17-29): Naquele tempo: O próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes: Não te é permitido ter a mulher de teu irmão. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente o ouvia. Chegou, porém, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galiléia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino. Ela saiu e perguntou à sua mãe: Que hei de pedir? E a mãe respondeu: A cabeça de João Batista. Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo: Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista. O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta a entregou à sua mãe. Ouvindo isto, os seus discípulos foram tomar o seu corpo e o depositaram num sepulcro.


Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

28 de Agosto - Santo Agostinho, Bispo, Confessor e Doutor


Tão grande é a glória que Santo Agostinho adquiriu, pela sua conversão, santidade de vida e, não menos pelos seus escritos que, ao longo da história, mais de 150 congregações religiosas, quiseram ter a honra de combater sob sua bandeira e que reconhecem Santo agostinho, como fundador e pai.

Tagaste, cidade de Numídia, ao norte da África, era lugar tão insignificante, que talvez tivesse ficado completamente desconhecido, se não fosse a terra de Santo Agostinho. Seu pai era funcionário público e gozava de geral estima, pois era homem correto e leal. Chamava-se Patrício. Deus deu-lhe a graça da conversão ao cristianismo, pouco antes da morte. Agostinho nasceu aos 13 de novembro de 354. Sua mãe, Mônica, santa mulher, procurou dar ao filho uma educação correspondente à sua fé religiosa. Grande, porém, foi o desgosto que teve, ao ver que baldados lhe foram os esforços em conservá-lo no caminho do temor de Deus. Bem cedo Agostinho, esquecendo-se dos conselhos da mãe, caiu na escravidão do pecado, como mais tarde teve a nobre franqueza de confessar perante Deus. Causa desses desvarios, ele mesmo disse ter sido a leitura de maus livros.

Até a idade de 15 anos, fez os estudos em Madaura. Falta de recursos obrigou-o a interromper a freqüência da escola e voltou para Tagaste, onde permanceu, até que o pai tivesse conseguido os meios necessários para o filho poder continuar e terminar o curso em Cartago. Todos elogiavam a Patrício, pelo interesse que mostrava em proporcionar ao filho ocasião de fazer um curso brilhante nas escolas superiores. “Meu pai – assim se exprime Santo Agostinho – fez tudo para me adiantar neste mundo. Pouco se lhe dava, porém, de saber se eu era virtuoso, contanto que fosse eloquënte”.

Durante esse tempo, na idade de 16 anos, Agostinho se entregou de corpo e alma aos prazeres, invejando os companheiros, quando se ufanavam de indignidades por eles praticadas, que não lhe tinha sido possível a ele. O tempo que passou em Cartago foi a época mais triste de sua vida. Lá teve um filho, fruto do pecado. Agostinho deu-lhe o nome de Adeodato.

Indescritível era a tristeza e dor que a mãe experimentava, sabendo que o filho encontrava-se em estado tão lastimável. Essa dor ainda redobrou, quando soube que Agostinho se tinha filiado à seita dos maniqueus. Mônica chorou, como se tivesse perdido o filho pela morte. No entanto, não cessou de rezar pelo apóstata, e pediu a pessoas piedosas das suas relações, que unissem as orações às dela, para obter a graça da conversão de Agostinho. Este parecia ficar dia a dia mais orgulhoso e, completamente inacessível, se tornou aos rogos da mãe. Nove anos passou Agostinho nas trevas do erro herético. Mônica teve uma revelação de Deus, que lhe garantiu a conversão do infeliz filho.

Agostinho, entretanto, abriu em Tagaste e mais tarde em Cartago, um curso de retórica. Era um horizonte muito estreito demais Para sua ambição sem limites, que por ideal tinha, adquirir fama mundial; assim, um dia, resolveu ir para a Itália.

Mônica tudo fez para dissuadi-lo desse plano, ou pelo menos alcançar que a levasse em sua companhia. Agostinho, para se livrar das importunações da mãe, fingiu levar um amigo até as embarcações, enquanto ela se hospedaria num albergue perto do porto. Mônica passou a noite toda em oração e pranto e, quando chegou o dia, Agostinho já se achava em alto mar, em demanda de Roma. Chegado à cidade eterna, caiu gravemente doente. Logo que se restabeleceu, lecionou retórica, e as suas preleções tiveram grande afluência.

Na mesma Ocasião, achava-se em Roma uma comissão da cidade de Milão, para pedir ao Prefeito Simaco uma lente de retórica. Agostinho, por meio de proteção dos amigos maniqueus, conseguiu a preferência entre vários concorrentes e seguiu para Milão. Uma Das primeiras visitas que lá fez, foi ao santo Bispo Ambrósio, que o recebeu com toda a cordialidade.

Foi Deus quem guiou os passos do jovem que, sem o saber, já se achava nas malhas da graça divina. A amabilidade com que Ambrósio o tratava, a caridade que encontrava e, principalmente, a eloqüência arrebatadora do santo bispo, fizeram com que o coração de Agostinho se abrisse ao conhecimento da verdade. Se antes era de opinião que contra as provas do maniqueísmo não havia argumentação, as prédicas de Santo Ambrósio desfizeram essa pretensão. Pouco a pouco conheceu que o sistema da heresia apresentava grandes lacunas, e finalmente se curvou diante da força da verdade.

Agostinho pediu para ser inserido na lista dos catecúmenos. Sabendo quanta mágoa no passado causara à mãe, previa o grande prazer que lhe deveria causar a notícia de sua conversão. Mônica, de fato, veio a Milão, mas nenhuma demonstração deu de satisfação, por ter o filho deixado a heresia. Para Agostinho mesmo, seguiram-se dias de graves lutas internas, pois eram precisas resoluções hercúleas, para quebrar os grilhões de maus hábitos, adquiridos em longos anos e deixar-se levar unicamente pelo suave impulso da graça divina.

Em certa ocasião, recebeu a visita do amigo Ponticiano, que lhe contou a vida de Santo Antão. Foi a hora da graça triunfar. Agostinho confessa que, ao conhecer a vida do grande eremita, ficou profundamente comovido, e tão forte foi esta comoção, que se viu tomado de verdadeiro horror do pecado. Não foi só isto: Deus interveio diretamente na história desta célebre conversão. Quando um dia Agostinho se achava à sombra duma figueira, ouviu perfeita e distintamente as palavras: “Toma e lê”. Instintivamente abriu o primeiro livro que se lhe achava à mão. Eram as epístolas de São Paulo. Abrindo-o, topou com os versos: “Caminhemos como de dia, honestamente, e não em glutonarias e bebedeiras, não em desonestidades e dissoluções; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais uso da carnes em seus apetites”. (Rom 13, 13). Tendo lido isto, não quis mais prosseguir. Fez-se-lhe luz na alma. A tristeza estava-lhe transformada em alegria e, tomado dessa alegria, procurou o amigo Alípio, fazendo-o participante de sua satisfação. Alípio abriu o livro e leu adiante as palavras, que Agostinho não tinha visto: “Ao que é ainda fraco na fé, ajudai-o”. (Rom 14, 1) Apoderou-se também de Alípio grande comoção, que o levou a acompanhar Agostinho na conversão.

Não tardaram a levar à Santa Mônica esta boa nova. O coração da pobre mãe transbordou de alegria, quando a recebeu e ouviu de que modo se realizara a transformação no coração do filho. Deus tinha-lhe, afinal, ouvido-lhe a oração, e não só isto: A conversão de Agostinho dera-se de maneira tão extraordinária, como nunca podia esperar.

Depois, em companhia de sua mãe, de Navígio, seu irmão, Adeodato, seu filho e Alípio, retirou-se para a casa de campo de um amigo, a fim de preparar-se para o santo Batismo. Recebido este, renunciou a tudo que é do mundo: Riqueza, dignidades e posição. O único desejo que tinha era servir a Deus, sem restrição alguma e, para poder pô-lo em prática, formou uma espécie de congregação, composta de amigos e patrícios, que já se achavam em sua companhia. Mônica cuidava de todos, como se fossem seus filhos. Havia ainda uma dificuldade: achar um lugar onde pudesse, como desejava, viver em comunidade. Resolveram voltar para a África. Quando chegaram ao porto de Óstia, morreu Mônica, e Agostinho deu-lhe sepultura lá mesmo. Chegado a Tagaste, vendeu todos os bens, em benefício dos pobres. Escolheu um lugar perto da cidade onde, durante três anos, levou com os companheiros, uma vida igual à dos primeiros eremitas do Egito.

Negócios urgentes chamaram-no a Hipona. O bispo daquela cidade era Valério. Em diversas ocasiões se dirigiu aos diocesanos, expondo-lhes a necessidade de ordenar sacerdotes. O povo, conhecendo as virtudes e talentos de Agostinho, o propôs ao Antístite, como candidato digno. Embora Agostinho relutasse, alegando indignidade, Valério conferiu-lhe as ordens maiores. Uma vez sacerdote, Agostinho pediu ao Prelado licença para fundar um convento em Hipona e, para esse fim, Valério lhe deu um grande terreno, nas proximidades da Igreja.

Muitos outros conventos ainda se fundaram na África setentrional e Agostinho, com razão, é considerado fundador e organizador da vida monástica.

Em 395, a pedido e insistência do bispo Valério, foi Agostinho sagrado bispo. A nova posição não mais lhe permitia a permanência no convento. Para não perturbar a vida monástica, com as freqüentes visitas que havia de atender, transferiu residência para outra casa, onde foi viver em companhia de sacerdotes, diáconos e subdiáconos.

Naquela pequena comunidade, reinavam os costumes dos primeiros cristãos. A ninguém era permitido ter propriedade. O que possuíam, servia à comunidade. Ninguém era admitido, que não se ligasse pela promessa de sujeitar-se a esse regulamento.

À mulher, era vedada a entrada. Nessa proibição estava a própria irmã de Agostinho, que era viúva e superiora num convento religioso. Se o múnus pastoral lhe impunha a visita a uma pessoa de outro sexo, fazia-se acompanhar por um dos sacerdotes.

Duas ordens religiosas tiveram sua origem da comunidade fundada por Santo Agostinho em Tagaste: A dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e dos Agostinianos, propriamente ditos, chamados também Eremitas de Santo Agostinho. Ambas as Ordens acham-se também estabelecidas no Brasil. Outra Congregação baseada nos ensinamentos de Santo Agostinho foi a da Congregação das Religiosas de Nossa Senhora, Cônegas Regulares de Santo Agostinho, fundada em 1597 por São Pedro Fourier e o venerável Aleixo lê Clerc.

No ano de 1244, durante o pontificado de Inocente IV, eremitas de Toscana também adotaram a regra. Duas outras congregações menores, que já viviam sob a regra agostiniana, acabaram unindo-se e os três segmentos uniram-se, formando uma só congregação. Posteriormente, a Ordem sofreu reforma e, dois novos segmentos (filiais) foram criados, ou seja, Ordem dos Agostinianos Descalços e a Ordem dos Agostinianos Recoletos.

35 anos tinha Santo Agostinho governado a Igreja de Hipona, quando a África sofreu a invasão dos Vândalos e Alanos que, vindo das Gálias e da Espanha, comandados por Genserico, devastaram toda a região norte-africana. Para Agostinho, havia a possibilidade de se pôr a seguro. Preferiu, entretanto, partilhar a sorte do seu rebanho. Esperando a cada momento a tomada da cidade pelas hordas invasoras, rodeado de amigos e de bispos fugitivos, a alma cheia de dor e amor, pediu a Deus que salvasse a África ou aceitasse o sacrifício de sua vida. Acometido de uma febre violenta, sob a recitação dos salmos penitenciais, morreu na idade de 76 anos, em 28 de agosto de 430. Levou consigo ao túmulo a Igreja africana, a própria África com sua alta cultura e civilização. Depois dos Vândalos vieram os maometanos, e com eles o extermínio do cristianismo naquelas regiões.

Grandes são os tesouros espirituais que Agostinho deixou à Igreja, nos seus livros, que apresentam eterno valor. Por especial providência, aconteceu que no grande incêndio que os Vândalos causaram na tomada de Hipona, fossem poupadas a Igreja e a biblioteca do grande Bispo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

27 de Agosto - São José Calazans, Confessor

Foi com surpresa que os habitantes do palácio do nobilíssimo D. Pedro de Urgel, Barão de Peralta de la Sal, na Católica Espanha, viram seu filho de cinco anos, em 1561, correr pela casa armado de um punhal, que havia tirado da panóplia paterna, atrás de algo. Do quê? Indagavam-se. De nobre estirpe guerreira, o sangue bélico fervia-lhe nas veias. Dotado também de profundo senso religioso, ouvira dizer que o demônio, inimigo dos homens, procurava por toda parte e meios possíveis perdê-los eternamente. Resolvera então, como bom filho de batalhadores, aniquilá-lo. Chegando assim armado ao sótão do imenso edifício onde só havia trastes e coisas fora de uso, viu de repente, de um canto, sair voando negra figura alada – provavelmente um morcego – em espavorida fuga: “Foges, covarde?! Não te atreves a enfrentar minha ira?” interpelou com desprezo o valente campeão de calças curtas (1).
Esse traço mostra a têmpera de alma desse intrépido soldado de Jesus Cristo, que de diferentes formas muito dano iria causar ao demônio, e que por ele seria perseguido até o fim de sua longa vida.
Coube-lhe a glória de “haver aberto a primeira das escolas gratuitas para meninos do povo”, e é graças a ele que “a religião pode dizer que o ensinamento dos pobres lhe pertence por direito de nascença e de conquista” (2).
Da Espanha para o centro da Cristandade
O jovem filho do Barão de Peralta, tendo estudado nas melhores universidades, e falando perfeitamente a língua latina, doutorou-se em Direito civil e eclesiástico. Um conceituado biógrafo do Santo observa que ele, “escuta os teólogos, discute com agudeza os subtis problemas da metafísica, faz versos, freqüenta o trato dos homens sábios e santos, e, aos 20 anos, tem todo o prestígio dos grandes mestres. .... Alto, robusto, atlético, ombros largos, organismo de aço, cabeleira loura abundante, José parecia chamado a aumentar com bélicas façanhas os brasões de seus antepassados” (3). Entretanto o brilhante estudante resolvera seguir a carreira eclesiástica.
Mas, falecendo-lhe o irmão mais velho, o pai quis forçá-lo a casar-se para substituí-lo na baronia e assegurar a dinastia. José recomendou-se à Rainha do Céu, de quem era devotíssimo. Foi atacado então por uma moléstia mortal, que o levou à beira do sepulcro. Quando todos choravam à sua cabeceira, perguntou ao pai se lhe seria permitido seguir sua vocação caso se curasse. O Barão, que já via o filho defunto, em lágrimas concordou. Contra todas as esperanças, José começou a recuperar-se tão rapidamente, que em pouco tempo preparava-se para o sacerdócio. Assim recebeu a ordenação sacerdotal no ano de 1583.
Depois de trabalhar nas dioceses de Huesca, Albarracín e Urgel, atendendo a uma voz interior, o herdeiro dos Calazans trasladou-se para Roma, onde se tornou teólogo do Cardeal Colonna. Para satisfazer à sua extrema caridade, entrou em várias arquiconfrarias pias para atendimento de presos, doentes e crianças.
Congregação das Escolas Pias: obra providencial, de futuro, traída
Ao passar pela área do Transtevere, bairro popular de Roma, em suas obras de caridade, José sentia o coração opresso ao ver meninos vagabundeando pelas ruas, sem instrução e expostos a todos os riscos e vícios. Tentou obter para eles lugar nas escolas subvencionadas pelo Poder Público, mas encontrou as maiores dificuldades. Concebeu então o plano de fundar uma escola inteiramente gratuita para meninos, encontrando eco no pároco de Santa Dorotéia. Este não só lhe ofereceu duas salas paroquiais, mas associou-se a ele na labuta.

Aos poucos o número de alunos foi crescendo e mais dois sacerdotes uniram-se aos já existentes. Tornou-se então necessário mudar para lugar mais amplo, sendo-lhes oferecido o Palácio Vestri, junto à igreja Santo Andrea della Valle. Com a vinda de mais auxiliares, tomou aí corpo a congregação dos Pobres da Mãe de Deus e das Escolas Pias, que o Papa Paulo V “quis que se chamasse Paulina, honrando-a com seu nome para dar a entender que era obra sua” (4).
Os novos religiosos ensinavam aos alunos as primeiras letras, aritmética e gramática, instruindo-os ao mesmo tempo nos princípios religiosos e bons costumes.

A princípio, a obra de São José de Calazans encontrou aplauso universal e a proteção de Cardeais, Príncipes, nobres. Houve no início grande número de candidatos dessa classe social, que foram modelos de perfeição. Mesmo assim o Santo não podia atender a todos os pedidos de fundação por falta de religiosos em número suficiente.

“Luta de Classes” interna: irmãos leigos X Clérigos

Aos 20 anos da fundação, as Escolas Pias já se haviam difundido pela maior parte das cidades italianas, pela França, Alemanha, Hungria e Polônia, havendo pedidos insistentes para seu estabelecimento provenientes da Espanha e Boêmia. O fundador escrevia a um súdito que, “se eu tivesse 10 mil religiosos, em menos de um ano teria onde empregá-los” (5).

Contribuía muito para a popularidade dessa obra o fato de seu fundador ser um taumaturgo a quem se atribuíam milagres estupendos, inclusive ressurreições.

José de Calazans pedia constantemente a Deus a graça de morrer pregado à Cruz, com Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa Cruz lhe veio da parte de quem menos podia esperar: dos seus próprios filhos! Imitou assim o Divino Redentor não só na Crucifixão mas também como vítima da traição de novos Judas.

Apesar de possuir todas as graças de fundador, a Providência permitiu que São José, para atender às contínuas demandas, aceitasse em sua Congregação, sem muita seleção, principalmente para irmãos leigos, pessoas que depois ser-lhe-iam causa de muita tristeza. Pois, mais adiante, devido à escassez de pessoal docente, começou a escolher os mais inteligentes desses irmãos leigos para a docência.

Ora, assim promovidos e esquecendo-se de todo espírito religioso, iniciaram eles uma revolução interna na Congregação. “No princípio, os alvoroços tiveram um caráter que poderíamos chamar mais bem de democrático e social. Foi uma luta de classes de [irmãos] leigos contra clérigos, de coadjutores contra sacerdotes” (6). Os irmãos leigos promovidos quiseram primeiro obter o privilégio de usar chapéu, como os professores sacerdotes. Foi-lhes concedido. Exigiram então a tonsura, que a custo obtiveram. Aspiraram em seguida ao sacerdócio. E, “resolvidos a conquistar a igualdade suspirada, começaram a conjurar, a rebelar-se, a inquietar o instituto e a buscar os apoios de gente do século” (7). A rebelião chegou mesmo à agressão física.

“Compreendendo que havia sido demasiado acessível na admissão do pessoal, o fundador esforçava-se agora para selecioná-lo, animando os dissidentes a passar para outras Ordens, e mostrando-se mais rigoroso com os noviços. ‘Não temais ¾ escrevia a seus lugares-tenente ¾ abrir 100 portas em lugar de uma para que saiam todos os religiosos; e fechem noventa e nove e meia para permitir a entrada aos que se apresentem’” (8).


Provincial ambicioso lidera a rebelião

Como sempre acontece, logo surgiu um ambicioso: um dos provinciais do Santo, aproveitando-se da situação, lidera a revolta. E, “seu caso é tão monstruoso, quanto incrível seu triunfo”, comenta o mencionado biógrafo (9). Apoiado nada menos do que pelo Santo Ofício, obteve ele a prisão do venerando fundador nos cárceres da Inquisição. E o povo de Roma viu atônito aquele ancião de 86 anos, até então um dos homens mais populares da cidade e já tido como Santo, levado como prisioneiro pelas ruas, com seus quatro principais assessores. Foram libertos na mesma tarde e carregados em triunfo pelo povo, mas... o Santo fundador via-se destituído do cargo de superior perpétuo passando a simples religioso, enquanto os chefes rebeldes assumiam as rédeas do governo.

Houve reação, principalmente da parte de vários Príncipes, tendo o Pontífice Inocêncio X, que sucedeu a Urbano VIII encarregado “ uma congregação de cardeais entendida nos assuntos das ordens religiosas [a estudar a questão], os quais determinaram que o servo de Deus devia ser reintegrado no generalato com seus quatro assistentes depostos. Não obstante ... não só não teve efeito esta resolução senão que, exageradas por seus fomentadores as turbações domésticas, e fomentadas ou não corrigidas pelo segundo visitador, o Sumo Pontífice expediu, em 1646, um Breve reduzindo a Congregação das Escolas Pias à congregação de sacerdotes regulares, como a de São Felipe Néri” (10). Em outros termos, de religiosos com os três votos e obediência ao superior da Congregação, passaram a ser sacerdotes seculares, sob a dependência dos Ordinários locais...Era o fim da obra.

Revanche da Providência Divina:restauração da Congregação post-mortem
O calvário de São José de Calazans chegara ao fim. Assistiu assim com tranqüilidade a extinção da obra à qual dedicara meio século de sua existência, vendo em todo o ocorrido somente a vontade de Deus.
Morreu aos 92 anos, alegre, teve a revelação ¾ que comunicou aos presentes junto ao seu leito de morte ¾ de que sua obra ressuscitaria. E assim foi, pois em 1656 sua querida Congregação foi restaurada.
A honra de Deus e de Seu fiel servidor foram desagravadas com a beatificação de José de Calazans, em 1748, e posterior canonização, menos de 20 anos depois.
O que aconteceu com seus verdugos? É certo que já prestaram sérias contas a Deus por seus atos, e que não deixaram traço de seus nomes para a posteridade...
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Notas
1 – Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones FAX, Madrid, 3ª edição, 1945, tomo III, pp. 454,455.
2 – Les Petits Bollandistes – Vies des Saints, d’après le Père Giry, par Mgr. Paul Guérin, Paris, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, 1882, tomo X, p. 265.
3 – Fr. Justo de Urbel, op. cit., p. 455.
4 – Dr. Eduardo María Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González Y Compañía, Barcelona, 1897, tomo III, p. 403.
5 – Id. ib. p. 406.
6 – Fr. Justo Pérez de Urbel, op. cit., p. 459.
7 - Id. ib., p. 460.
8 – Id. ib., p. 461.
9 – Id. ib., p. 461.
10 – Dr. Eduardo Vilarrasa, op. cit., p. 406.

Fonte: Catolicismo

terça-feira, 25 de agosto de 2015

25 de Agosto - São Luís Rei de França, Confessor


Luís IX, rei da França, nasceu no dia 25 de abril de 1215, no castelo real de Poissy. Era filho de Luís VIII e de Branca de Castela, ambos piedosos e zelosos, que o cercaram de cuidados, especialmente após a morte do primogênito. Trataram pessoalmente da sua educação e formação religiosa. Foram tão bem sucedidos que Luís IX tornou-se um dos soberanos mais benevolentes da história, um fervoroso cristão e fiel da Igreja.

Com a morte prematura do seu pai em 1226, a rainha, sua mãe, uma mulher caridosa, de grandes dotes morais, intelectuais e espirituais, tutelou o filho, que foi coroado rei Luís IX, pois ele era muito novo para dirigir uma Corte sozinho. Tomou as rédeas do poder e manteve o filho longe de uma vida de depravação e de pecado, tão comum das cortes. Mas Luís, já nessa idade, possuía as virtudes que o levaram à santidade - a piedade e a humildade -, e que o fizeram o modelo de "rei católico".

Em 1235, casou-se com Margarida de Provença, uma jovem princesa, que, assim como ele, cultivava grandes virtudes. O marido reinou com justiça e solidariedade. Possuía um elevado senso de piedade, incomum aos nobres e poderosos de sua época. Tinha coração e espírito sempre voltados para as coisas de Deus, lia com freqüência a Sagrada Escritura e as obras dos santos Padres e aconselhava-as a todos os seus nobres da Corte. Com o auxilio da rainha, fundou igrejas, conventos, hospitais, abrigos para os pobres, órfãos, velhos e doentes. O casal real teve dez filhos, todos educados como eles e por eles. E o resultado dessa firme educação cristão foram reis e rainhas de muitas cortes, que governaram com sabedoria, prudência e caridade.

Depois de ter adquirido de Balduíno II, imperador de Constantinopla, a coroa de espinhos de Cristo, que, segundo a tradição, era a mesma usada na cabeça de Jesus, ele mandou erguer uma belíssima igreja para abrigá-la numa redoma de cristal. Trata-se da belíssima Sainte-Chapelle, que pode ser visitada em Paris.

Acometido de uma grave doença, em 1245 Luís IX quase morreu. Então, fez uma promessa: caso sobrevivesse, empreenderia uma cruzada contra os turcos muçulmanos que ocupavam a Terra Santa. Quando recuperou a saúde, em 1248, apesar das oposições da Corte, cumpriu o que havia prometido. Preparou um grande exército e, por várias vezes, comandou as cruzadas para a Terra Santa. Mas em nenhuma delas teve êxito. Primeiro, foi preso pelos muçulmanos, que o mantiveram no cativeiro durante seis anos. Depois, numa outra investida, quando se aproximava de Tunis, foi acometido pela peste e ali morreu, no dia 25 de agosto de 1270.

Os cruzados voltaram para a França trazendo o corpo do rei Luís IX, que já tinha fama e odor de santidade. O seu túmulo tornou-se um local de intensa peregrinação, onde vários milagres foram observados. Assim, em 1297 o papa Bonifácio VIII declarou santo Luís IX, rei da França, mantendo o culto já existente no dia de sua morte.





Fonte: Paulinas

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

24 DE AGOSTO - SÃO BATORLOMEU APÓSTOLO





Bartolomeu é provável o discípulo que Felipe apresentou ao Senhor pelo nome de Natanael e que mereceu do Divino Mestre o seguinte elogio: "Eis aqui um verdadeiro israelita em quem não há engano" (São João 1,47). São Lucas conta-o entre os doze que Jesus escolheu, depois de orar toda a noite, para serem testemunhas da sua vida, de sua doutrina e milagres, e depois da ressurreição, pregadores do Evangelho. Não é fácil determinar qual foi o seu campo de apostolado. É de crer a tradição, que teria sido esfolado vivo, e desta maneira o represanta na iconografia e na magnífica estátua de mámore de Cibó, na catedral de Milão. As suas relíquias foram tranladadas de Benevento para a Igreja de São Bartolomeu na pequena ilha formada pelo Tibre. O seu nome vem no Cânon da missa. A oração da Santa missa exprime a preocupação da Santa Igreja em continuar a obra dos Apóstolos em guardar o sagrado depósito da fé que deles herdou.

Epístola

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Corintios (I Cor 12,27-31). Irmãos: Ora, vós sois o corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros. Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os apóstolos, em segundo lugar os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm o dom dos milagres, o dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas. São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos? Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (6, 12-19) : Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Jesus retirou-se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles que chamou de apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor. Descendo com eles, parou numa planície. Aí se achava um grande número de seus discípulos e uma grande multidão de pessoas vindas da Judéia, de Jerusalém, da região marítima, de Tiro e Sidônia, que tinham vindo para ouvi-lo e ser curadas das suas enfermidades. E os que eram atormentados dos espíritos imundos ficavam livres. Todo o povo procurava tocá-lo, pois saía dele uma força que os curava a todos.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

sábado, 22 de agosto de 2015

XIV Domingo depois de Pentecostes: "Salomão jamais se vestiu com um desses lírios" (Ev.)

"Salomão jamais se vestiu com um desses lírios" (Ev.)
As lições do breviário são tiradas do livro do Eclesiástico se o Domingo que vem for de Agosto ou caso o Domingo que vem seja Setembro será do livro de Jó. São Gregório ensina-nos comentando o livro do Eclesiástico assim: "Há homens ue sentregam inteiramente ao´prazer dos bens materiais, ignorantes sem dúvidas ou pelo menos esquecidos do tesouro deslumbrante e inexaurível que a matéria vela. Sem a saudades dos bens que ficam para além e que eles culpavelmente perderam, semtem-se felizes os mesquinhos, com um punhado de terra. Criados para a luz da verdade, não sente o dentro em si o desejo de olhar, e compreender, de se perderem nela. Desorientados no meio dos prazeres em que se precipitaram, chegam lhes a pensar que é a pátria ou exílio em que vivem e que é luz radiosa as trevas que os envolvem. Ao contrário, os eleitos para quem os bens da terra não tem valor algum, procuram sem descanso, entre as areias amargas do deserto amargo, a pérola preciosa que sua alma anseia. Presos pela terra na carne que também é terra, debatem-se, absolutamente destinados a desprezar o que passa para recolhe e o que permanece".
Para Jó é o tipo genuíno de homem desprendido da vontade e da plena resignação na vontade adorável a Deus: "Se de Deus recebemos os bens, porque também não deveriamos receber dele os males, se for servido no-lo mandar?" - dizia ele.
A Missa de hoje está rica nestes pensamentos. O Espírito Santo, que a Igreja recebeu no dia de pentecostes, formou em nós o homem novo que se opõe e procura destruir as inveteradas tendências do homem velho, que são as intemperanças da carne e busca insaciável das riquezas para satisfazer. O Espírito de Deus, o espírito de liberdade que habita em nós torna filhos do pai e irmãos de Nosso Senhor Jesus Cristo, segrega-nos da servidão ignóbil do pecado, porque os que pertencem a Jesus Cristo, crucificaram a própria carne com os seus vícios e baixeza. Caminham em oposição irredutível com o espírito.



Convencido da verdade evangélica de que ninguém pode servir a dois senhores, o cristão põe-se de guarda contra si mesmo, contra as velhas paixões amortecidas talvez nas cinzas funerárias do velho homem, não vão às vezes ressuscitarem. "O que se deixa escravizar pelos bens deste mundo, diz Santo Agostinho, está as ordens de um senhor duro e terrível. Está debaixo da tirania do demônio. Sem dúvida, ele não o ama, pois quem é que pode amar o demônio? Todavia suporta-o. Por outro lado, também não odeia a Deus. Ninguém odeia a Deus no fundo da sua consciência. No entanto despreza e não o teme, como se estivesse seguro de está perdoado. Mas o Espírito Santo põe-no de atalaia contra estes perigos, quando nos diz pelo profeta que a misericórdia de Deus é infinita e que sua paciência nos convida a penitência. Se alguém pois quer amar a Deus em sinceridade e verdade, se alguém tem o desejo normal de ser feliz, considere a sentença do Senhor, procure em primeiro lugar o reino de Deus, e tudo mais virá por acréscimo."

Epístola do Domingo:

Leitura da Epístola de São Paulo Apóstolo aos Gálatas (5, 16-24) - Irmãos: Digo, pois: deixai-vos conduzir pelo Espírito, e não satisfareis os apetites da carne. Porque os desejos da carne se opõem aos do Espírito, e estes aos da carne; pois são contrários uns aos outros. É por isso que não fazeis o que quereríeis. Se, porém, vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a lei. Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há lei. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências.

Evangelho de Domingo:


Continuação do Santo Evangelho de Jesus Cristo, segundo São Mateus: Naquele tempo disse Jesus a seus discípulos: Ninguém pode servir a dois Senhores ao mesmo tempo, porque ou odiará um e amará o outro, ou há de se afeiçoar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a riqueza. Portanto vos digo: Não andeis (demasiadamente) inquietos, nem o com o que (vos é preciso) para alimentar a vossa vida, nem com o que (vos é preciso) para vestir o vosso corpo. Porventura não vale mais a alma do que o alimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisão nos celeiros, e contudo vosso Pai Celeste as sustentam. Por ventura não sois vós muito mais do que elas? E quais de vós, por muito que pense, pode acrescentar um côncavo a sua estatura? E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam. E digo vos todavia que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu jamais com um lírio deste. Se pois Deus veste assim uma erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais vós, homens de pouca fé! Não vos aflijais pois dizendo: O que comeremos, ou o que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque os pagãos procuram com (excessivo cuidado) todas essas coisas. Vosso pai sabe que tendes necessidade de todas elas. Buscai pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e sua Justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.
Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960.

22 de Agosto - FESTA DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA



Depois de ter em plena guerra consagrado o gênero humano ao imaculado coração de Maria para o colocar por esse modo por debaixo da particular proteção da Mãe do Salvador, S. Santidade Pio XII decretou que em 1944 que todos os anos se celebrasse doravante na Igreja inteira uma festa especial em honra de Coração Imaculado no dia 22 de Agosto. É já antiga a devoção ao Coração Imaculado de Nossa Senhora. No século XVII propagou-a muito São João Eudes juntamente com a do Sagrado Coração de jesus. No século XIX o Papa Pio VII e Pio IX concederam as várias Igrejas particulares uma festa "do Coração Puríssimo de Maria", fixada primeiramente no domingo depois da Assunção e mais tarde no sábado que se segue a festa do Sagrado Coração. Pio XII transferiu-a para 22 de Agosto e designou como principal intenção pedir, por intercessão da Santíssima Virgem, a "paz para os povos, a liberdade da Igreja, a conversão dos pecadores, o amor da pureza, e prática da virtude" (decreto de 4 de maio de 1944).


Epístola

Leitura do Livro de Sabedoria (24, 23-31): Naqueles dias: Cresci como a vinha de frutos de agradável odor, e minhas flores são frutos de glória e abundância. Sou a mãe do puro amor, do temor (de Deus), da ciência e da santa esperança, em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude. Vinde a mim todos os que me desejais com ardor, e enchei-vos de meus frutos; pois meu espírito é mais doce do que o mel, e minha posse mais suave que o favo de mel. A memória de meu nome durará por toda a série dos séculos. Aqueles que me comem terão ainda fome, e aqueles que me bebem terão ainda sede. Aquele que me ouve não será humilhado, e os que agem por mim não pecarão. Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna.

Evangelho do dia:

Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São (19, 25-27) : Naquele tempo: Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.

Lefebvre, Dom Gaspar. Missal Quotidiano e Vesperal. Bruges, Bélgica; Abadia de S. André, 1960

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

20 de Agosto - São Bernardo Abade e Doutor da Igreja

São Bernardo, descendente de família da alta nobreza, nasceu em 1091 no castelo Fontaines, perto da cidade de Dijon, na Borgonha. O nome do pai era Tezelin e da mãe Aleth (Alice, Isabel), era da casa dos Montbar. Entre sete irmãos, era ele o terceiro, o mais querido da mãe que, devido a um sonho misterioso, o consagrou a Deus de um modo particular, e com esmerado cuidado o enveredou para uma vida cristã toda exemplar. Dos cônegos de Chatillon recebeu seu preparo lingüístico e dialético. Tinha dezenove anos, quando perdeu a mãe.

De formosura singular, inteligente e de modos cativantes, o mundo estendeu seus tentáculos, para prendê-lo nas suas malhas. Instintivamente Bernardo recuou. Seu amor era mais nobre, mais sublime. Dizem seus biógrafos que, esperando ele pelo começo da missa da meia-noite, na véspera do Natal, apareceu-lhe o Menino Jesus, envolto num encanto e beleza celestiais, visão esta que o fez renunciar por completo ao amor mundano. Diferente dos seus irmãos que seguiram a carreira militar, Bernardo tratou de abandonar o mundo e obter admissão na Ordem de Citeaux, havia pouco antes fundada. Em 1112 entraram ele e mais 30 companheiros, entre estes um tio, e mais quatro amigos, além de muitos outros jovens das suas relações. Tão forte era a influência que exercia sobre o espírito dos seus amigos mais chegados, que as mães e esposas procuravam dele afastar os filhos e maridos, com receio de lhes serem arrebatados.

Na Ordem, sobremodo austera era Bernardo o protótipo de renúncia e persistência. Embora de compleição fraca, se entregou aos rudes trabalhos no campo. Dia e noite seu espírito se achava em oração ou meditação dos livros sagrados. Eram eles a fonte de seu saber teológico e da sua eloqüência arrebatadora, que mais tarde havia de incendiar o coração dos seus ouvintes. Do seu excessivo rigor em observar as regras da Ordem, proveio-lhe uma fraqueza permanente do estômago, que bastante lhe incomodou durante toda a vida. No entanto, não admitia exceção em seu favor da regra monástica. Sempre e sempre se animava com a advertência: “Bernardo, para que vieste ao mundo?” e com a meditação da Sagrada Paixão de Nosso Senhor. Ele mesmo afirma, que no dia da sua “conversão”, engenhou um ramalhete das amarguras de Nosso Senhor e trouxe-o sempre preso ao coração. Por isso, a arte cristã o apresenta com uma cruz, uma lança e uma coroa de espinhos na mão, apertando-as carinhosamente contra o peito.

Três Anos de profissão tinha Bernardo, quando foi nomeado abade na nova fundação de Clairvaux. O lugar inóspito, o terreno, o clima úmido e frio, exigiu árduos sacrifícios dos monges que, como pioneiros, foram destacados para aquele deserto, esconderijo de ladrões, bandidos e salteadores. Mais de uma vez foi ventilado o plano de abandonar aquela estação e o jovem abade não se sentia com coragem de dirigir palavras de edificação e animação aos seus religiosos. Ele mesmo chegou a tal ponto de esgotamento, que se viu forçado a passar algum tempo fora do convento e tratar de sua saúde, seriamente abalada. As coisas, entretanto, mudaram. O trabalho dos monges produziu frutos inesperados, e Bernardo, testemunha que foi da dedicação, do heroísmo e do sofrimento de seus confrades, se convenceu da necessidade de mudar de sistema: Em vez de governar com todo o rigor de superior principiante e inexperiente; de se deixar levar nos ímpetos de gênio fogoso, condoer-se das fraquezas de seus discípulos e tratá-los com mais paciência e caridade.

Assim, podemos acreditar no que os biógrafos do Santo afirmaram, que 700 monges se sentiam bem sob o regime de seu abade, e com confiança, alegria e contentamento, seguiam as suas ordens. Bernardo teve a satisfação de dar o santo hábito a seu velho pai e ao irmão mais novo. Sua irmã única, também disse adeus ao mundo e terminou seus dias no convento. Coincide com esta fase da sua vida a manifestação do dom de milagres de São Bernardo, fruto, sem dúvida, de muito sofrimento e da continuada mortificação praticada em meio ao silêncio, oração e solidão.

A São Bernardo a Ordem de Cister deve, não só a conservação no espírito primitivo monástico, como também a sua propagação e estabelecimento em inúmeros países do mundo. Tal intensivo movimento religioso não deixou de influenciar também outras Ordens, mais antigas sim, porém necessitadas de uma renovação da disciplina interna. Amizade sincera se estabeleceu entre Bernardo e Pedro, o venerável abade do mosteiro beneditino de Cluny, que no fim da sua vida manifestou o desejo de se transferir para Clarvaux e lá terminar seus dias.

Era o tempo das Cruzadas, época da criação das Ordens Militares. Para algumas delas, Bernardo recebeu ordem de lhes elaborar uma regra.

Inegável foi sua influência sobre o espírito religioso, quer nos conventos, quer na sociedade. Considerado o primeiro entre os mestres místicos do seu tempo, seus escritos eram procurados de preferência; seus discursos, apreciadíssimos pela clareza na exposição da respectiva matéria, pelo ardor que sabia dar à sua palavra, e pela força comunicativa do amor de Deus que abrasava o coração. Da sua autoria são os comentários do Livro dos Cânticos e do Salmo 90, verdadeiros hinos triunfais do amor místico e entusiasmo religioso. Segundo S. Bernardo, o fundamento da Mística é o conhecimento de Deus pelo amor que se lhe tem, o desejo de a Ele se unir, purificar o coração pelo desprezo do mundo, pela humildade e meditação, pela imitação de Cristo e o completo abandono em Deus. São Bernardo é o trovador do Amor eterno, que se revelou em Belém e no Gólgota; é o poeta incomparável de Nossa Senhora, o cantor das maravilhas do Nome de Jesus.

Dos Santos Padres, não há quem alcance S. Bernardo na interpretação do divino amor, na beleza da forma retórica, na doçura e no encanto da expressão. A Igreja honrou-o com o título de Doutor melífluo.

A Idade Média, tão nobre e profundamente religiosa que era, não obstante, apresentava graves defeitos, que não deixava de ser uma ameaça à estabilidade de orientação cristã. Havia a cisão no mais alto governo da Igreja, o cisma; muito abuso do poder temporal dos príncipes em tratar seus súditos; muita arbitrariedade e presunção no setor das ciências; bastante corrupção de costumes, e o grande perigo que vinha do Islão.

Todos estes maus espíritos, encontraram em Bernardo um adversário forte e inflexível. Três viagens fez o Santo à Itália, no interesse de pacificação da igreja. Seu trabalho foi coroado de êxito. Levou os principais cristãos a reconhecer a legitimidade do Papa Inocêncio II e, ao sucessor deste, Eugênio III, prestou os mais relevantes serviços.

O grande prestígio moral que o Santo gozava, legitima de sobra a atuação do reformador do espírito religioso entre o povo, da disciplina eclesiástica entre o clero, e dos costumes entre os grandes da terra.

A Roma tinha chegado a desoladora notícia da destruição da cidade de Edessa pelos turcos e, o Papa Eugênio III ordenara uma nova Cruzada contra os terríveis inimigos do nome cristão. A Bernardo incumbira da pregação deste empreendimento militar. O piedoso monge, em obediência a esta ordem, percorreu a França, a Renânia e Sul da Alemanha. Por toda a parte foi recebido com entusiasmo e como que em triunfo. A sua eloqüência arrebatadora, e mais ainda, a santidade do pregador e os numerosos milagres que acompanhavam a sua atividade, entre estes curas maravilhosas e ressurreições de mortos, fizeram com que a alma do povo, jubilosamente abraçasse a idéia de uma campanha cerrada contra o islamismo. Luís VII, da França, o rei Conrado e seu sobrinho Frederico de Hohenstaufen, tomaram a cruz, e seu exemplo foi seguido por grande número de príncipes e grandes senhores. No entanto, o resultado não correspondeu ao grandioso empreendimento. Por causa de desinteligências que surgiram entre os chefes e de traições dos Pulanos (descendentes dos cruzados, natos do Oriente), os exércitos reunidos foram dizimados pelos turcos nos desfiladeiros do Tauro, não podendo tomar nem a cidade de Damasco, a qual já haviam sitiado. Para o nosso santo, este fracasso significou uma grande humilhação. Morreu o Papa Eugênio III, e Bernardo colheu de todo o seu trabalho as mais acerbas críticas e censuras, como se fosse ele o causador da desgraça da Cruzada por ele pregada. Foi esta a paga que o mundo deu ao grande homem, ao maior gênio do século 12, ao incomparável guia do seu tempo. Bernardo não se alterou em sua conduta espiritual e religiosa. A Deus deu toda a honra, e de bom grado aceitou para si a ingratidão e as maldições dos homens.

Muito doente, saiu mais uma vez de seu querido Claivaux, no intuito de restabelecer a paz entre a cidade de Metz (Alsácia) e alguns fidalgos da região. Não mais resistiu. Mais morto do que vivo, voltou ao mosteiro, onde a 20 de agosto de 1153, rodeado de seus filhos espirituais, e na presença de alguns bispos, exalou sua belíssima alma. O vale silencioso de Clairvaux se transformou em um vale de lágrimas e de suspiros, que de inúmeros corações se desprenderam. O corpo do santo, teve seu último repouso na capela do mosteiro, aos pés do altar de Nossa Senhora, cujo delicioso trovador o santo de sua vida tinha sido. Bernardo faleceu com 63 anos de idade. Foi canonizado em 1165 por Alexandre III e, em 1830, por Pio VIII, Doutor da Igreja.